Sem vacinas e remédios, a Coreia do Norte tem sido duramente atingida pelo avanço da covid-19. Mais de 2 milhões de pessoas adoeceram e pelo menos 65 pessoas morreram, mas o governo central de Pyongyang tem chamado a doença apenas de "febre", segundo a imprensa estatal.
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Analistas apontam que norte-coreanos estão mais vulneráveis ao vírus devido à falta de vacinas e à precariedade do sistema de saúde. Um lockdown nacional está em vigor no país, mas não há informações precisas se a estratégia tem surtido efeito.
Além disso, a imprensa estatal disse que o líder do país, Kim Jong-un, tem responsabilizado autoridades de saúde por "atrapalhar" a distribuição das reservas nacionais de medicamentos.
O BBC Reality Check tem monitorado a mídia controlada pelo governo norte-coreano, que tem recomendado diversos tratamentos tradicionais contra doenças comuns, como chá quente e gargarejo com água salgada, mas sem eficácia comprovada contra a COVID-19.
Bebidas quentes e o alívio de sintomas leves
Para aqueles que não estão gravemente doentes, o jornal estatal Rodong Simnun recomenda se tratar com chá quente com gengibre ou madressilva ou uma bebida à base de folhas de salgueiro.
Bebidas quentes podem aliviar alguns sintomas mais leves da covid, como dor de garganta e tosse, e ajudar a hidratação de algumas pessoas doentes. Gengibre e folha de salgueiro também podem aliviar a inflação e reduzir a dor.
Mas eles não são tratamentos para o vírus em si, como os antivirais adotados ao redor do mundo, a exemplo do paxlovid e do molnupiravir.
Gargarejo com água salgada e sua eficácia limitada contra sintomas
A mídia estatal norte-coreana exibiu uma reportagem em que um casal entrevistado recomenda gargarejo com água salgada de manhã e de noite para combater a COVID-19.
"Milhares de toneladas de sal" foram enviadas para Pyongyang a fim de ser produzida a "solução antisséptica", anunciou a agência estatal de notícias.
Por um lado, alguns estudos apontam que o gargarejo com água salgada e a lavagem das narinas com soluções salinas podem ajudar a combater vírus que causam resfriados comuns. Mas não há evidência de sua eficácia contra a COVID-19.
Além disso, enxaguantes bucais, que também foram recomendados, se mostraram eficazes contra o vírus em laboratório. Mas, novamente, não há qualquer evidência de sua eficácia contra a covid-19 em humanos.
A COVID-19 é principalmente transmitida pelo ar, invadindo o corpo tanto pelo nariz quanto pela boca. Então, gargarejo só atacaria um dentre vários pontos de entrada.
Além disso, uma vez que o vírus tenha entrado no corpo humano, ele se replica e se espalha profundamente por outros órgãos, onde essa estratégia não terá alcance nem eficácia.
Analgésicos e antibióticos sem eficácia contra COVID-19
A TV estatal norte-coreana também tem aconselhado pacientes a usar analgésicos e antitérmicos como ibuprofeno e antibióticos como amoxicilina.
O ibuprofeno (e paracetamol) pode reduzir a temperatura e aliviar sintomas como dor de cabeça ou dor de garganta. Mas eles não eliminarão o vírus ou impedirão que ele se desenvolva.
Antibióticos são eficazes em infecções causadas por bactérias, e não em infecções causadas por vírus.
Além disso, usar antibióticos de forma desnecessária eleva o risco de surgirem micróbios resistentes a medicamentos.
Um amplo estudo com o antibiótico azitromicina, por exemplo, descobriu que fazia pouca ou nenhuma diferença nos sintomas da covid-19, na probabilidade de internação hospitalar ou nas chances de morrer pela doença.
Existem atualmente alguns medicamentos aprovados em diversos países, incluindo o Brasil, para evitar que pessoas com COVID-19 acabem no hospital:
- antivirais: paxlovid, molnupiravir e remdesivir
- terapias de anticorpos que imitam o sistema imunológico
Mas a eficácia varia bastante a depender do perfil do paciente e do momento em que o tratamento teve início em relação ao dia da infecção.
Sistema de saúde em dificuldade
O sistema de saúde da Coreia do Norte foi criado para oferecer assistência médica gratuita, desde serviços básicos em vilarejos até tratamento especializado em hospitais governamentais (geralmente em centros urbanos).
Mas a economia nacional declinou nos últimos anos por causa de sanções econômicas internacionais e condições climáticas extremas, como secas.
Além disso, o fechamento das fronteiras do país e medidas rígidas de lockdown também acarretam impactos negativos.
Sem a mesma estrutura da capital Pyongyang, o sistema de saúde no resto do país sofre com escassez de pessoal, medicamentos e equipamentos.
Kee Park, professor de Saúde Global e Medicina Social da Universidade Harvard, diz que a Coreia do Norte é um país de baixa renda com um sistema de saúde limitado. "Apesar de uma densidade relativamente alta de profissionais de saúde, o sistema teria dificuldades para lidar com o aumento de pacientes", diz ele.
Alistair Coleman, especialista em Coreia do Norte, explica que a resposta de Pyongyang à covid sempre foi negar que o vírus exista no país. "A resposta do Estado foi fechar as suas fronteiras e implementar uma estratégia de higiene para prevenir infeções, pulverizando locais públicos como estações de trem, escolas, hospitais, etc."
Mas o país não poderia estar menos preparado para combater a doença.
Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), no ano passado, dizia: "Algumas das fábricas farmacêuticas, de vacinação e de aparelhos médicos não atingem o nível de boas práticas da OMS e também não atendem à demanda local".
Muitos desertores norte-coreanos para a Coreia do Sul disseram ter que pagar por medicamentos ou encontrar tratamento e remédios restritos a membros privilegiados do partido no poder.
A mídia estatal, por outro lado, diz que tem aumentando a produção de medicamentos.
Recusa a ajuda internacional
País de quase 26 milhões de habitantes, a Coreia do Norte recusou 3 milhões de doses de vacinas fabricadas na China no ano passado - e acredita-se que tenha rejeitado outras ofertas ligadas ao Covax, o esquema global de compartilhamento de vacinas.
A Coreia do Sul diz que não teve resposta à sua oferta de vacinas, suprimentos médicos e pessoal.
A Coreia do Norte teria enviado recentemente três aviões para coletar suprimentos médicos de Shenyang, na China. Só que não havia "suprimentos antipandemia", disse o Ministério das Relações Exteriores da China. De todo modo, o país vizinho disse estar "pronto para trabalhar com a Coreia do Norte... na luta contra o coronavírus".
Como consequência da rejeição de Pyongyang à ajuda da comunidade internacional para vacinar a população, a imunidade coletiva no país é extremamente baixa.
Apesar dos rumores de que alguns membros da elite da Coreia do Norte foram vacinados, a grande maioria dos norte-coreanos não recebeu nenhuma dose contra a COVID.
De fato, durante a pandemia, a mídia estatal alertou de forma enganosa sobre a ineficácia e os perigos das vacinas contra a COVID.
Sem casos confirmados de covid-19 nos últimos dois anos, a população é "imunologicamente frágil ao vírus Sars-Cov-2" e todas as suas variantes, diz o professor de Harvard Kee Park.
"Até agora eles não tiveram nenhum surto, então ninguém desenvolveu imunidade. Além disso, eles ainda precisam vacinar a população. Eles essencialmente não têm proteção imunológica", acrescenta.
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