Publicidade

Estado de Minas

Trump e sua luta contra os princípios econômicos do Partido Republicano


31/10/2020 16:55 - atualizado 31/10/2020 17:54

O presidente americano, Donald Trump, levou o Partido Republicano a sacudir os alicerces de seu pensamento econômico com uma abrangência poucas vezes vista. Seja no tema do livre comércio, da imigração ou da ortodoxia fiscal, ele mudou a identidade do "Grand Old Party".


O presidente "afastou o Partido Republicano de seus princípios econômicos, tais como o apoio ao livre comércio, os limites ao gasto público e uma intervenção escassa do governo na economia", resumiu Eswar Prasad, economista e professor da Universidade de Cornell.


Há quase quatro anos, Trump preferiu o protecionismo ao livre comércio, impondo tarifas alfandegárias punitivas a milhares de produtos chineses e europeus.


E o equilíbrio fiscal? Ficou para 2035 no lugar de 2030, inclusive antes dos megapacotes de ajuda econômica, decididos para mitigar os efeitos da pandemia do novo coronavírus.


A dívida? No começo de 2019, disse que não era uma preocupação porque tinha que fortalecer as Forças Armadas, e justificou desta forma o vertiginoso aumento do passivo.


No entanto, em janeiro de 2013, o próprio Trump criticava seu partido no Twitter: "Não posso acreditar que os republicanos aumentem o teto do endividamento. Sou republicano e me incomoda muito".


Pouco antes, em 2012, criticou Barack Obama pelo déficit nas contas públicas. "Os déficits de @barackobama são os mais altos da história dos Estados Unidos. Por que leva nosso país para a falência?", escreveu na mesma rede social.


É algo "nunca visto no passado recente", disse Prasad. O Partido Republicano (GOP) parece ter "abandonado alguns de seus princípios econômicos fundamentais em benefício da promoção de seu programa social e o corte de impostos, a desregulamentação e uma inclinação do sistema judicial para a direita", explicou.


Seja qual for o resultado das eleições de terça-feira, Trump terá mudado por muito tempo "a substância e o tom do Partido Republicano", concluiu.


- "Poucas ideias" -


"O Partido Republicano nunca mais será o que era antes" da Presidência de Trump, destacou Edward Alden, especialista do Council on Foreign Affairs.


O presidente tem "uma ideologia particularmente confusa", disse.


Para Geoffrey Gertz, especialista da Brookings Institution, o ataque ao livre comércio foi "provavelmente a ruptura mais clara de Trump com a política econômica" republicana, embora não tenha tido o efeito esperado, já que o déficit comercial cresceu 22,8% entre 2016 e 2019.


Houve, ainda, incontáveis comentários e tomadas de posição que não se traduziram necessariamente em políticas, acrescentou.


Ao se apresentar como opositor ao liberalismo extremo nas finanças, colocou-se como o defensor dos afetados pela crise de 2008.


Na terça-feira passada durante um ato de campanha em Wisconsin, Trump voltou a usar o mesmo recurso, tentando se descolar das elites políticas.


"Se não soo como um político clássico de Washington é porque não sou um político", disse a seus partidários. "Se não sigo as regras do 'establishment' de Washington é porque fui eleito para lutar por vocês!", exclamou.


Mas por trás destas mensagens populistas, "o Partido Republicano está escasso de ideias", disse Alden, ao destacar que o presidente não apresentou um programa econômico para a eleição de 2020, enquanto seu adversário, o ex-vice-presidente democrata Joe Biden, dispõe de um plano detalhado.


Poderiam passar décadas até que o GOP (Grand Old Party) reformule um "pensamento econômico coerente", segundo Alden.


"É preferível para a democracia americana contar com dois partidos concorrentes com ideias econômicas bem distintas", concluiu.

(foto: Frederic J. BROWN/AFP - 26/10/20)
(foto: Frederic J. BROWN/AFP - 26/10/20)

Acompanhe a apuração nos EUA

Infográfico interativo da AFP acompanha em tempo real a apuração. Votos nos centros eleitorais são contados automaticamente e, na maioria dos casos, os resultados são anunciados horas ou até minutos, após o fechamento das urnas. Mas os votos por correio, que cresceram muito acima a média este ano, implicam um processo trabalhoso, no qual cada estado tem regras próprias.



Como funcionam as eleições nos EUA?

Os 538 integrantes do chamado Colégio Eleitoral se reúnem nas respectivas capitais de seus estados a cada quatro anos após a eleição para designar o vencedor. Para vencer, um candidato à presidência deve obter a maioria absoluta dos votos do Colégio: 270. Saiba como funcionam os colégios eleitorais.

Sistema eleitoral complexo é desafio

Pandemia de COVID-19 aumentou votação pelo correio ou antecipado, o que representa um desafio técnico, humano e também legal em milhares de jurisdições. Saiba o que pode dar errado na apuração dos votos nos EUA.

Planos de governo de Trump e Biden

Confira as principais propostas de governo de Trump e Biden para os Estados Unidos e o mundo neste infográfico interativo. Separamos oito assuntos-chave para mostrar quais são os projetos dos republicanos e dos democratas.

O que muda para o Brasil?

Vitória do democrata ou do republicano terá implicações sobre o aprofundamento das relações comerciais bilaterais entre os países, sobre a política externa brasileira e o posicionamento político ideológico de Jair Bolsonaro no âmbito internacional, avaliam especialistas em política externa. Entenda o que muda para o Brasil.


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade