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Estado de Minas Oriente Médio

Líbano: explosão é elo mais arrasador de uma cadeia de crises

Detonação de toneladas de nitrato de amônio no porto de Beirute se abateu sobre uma terra sob efeito da pandemia e abalada por confrontos políticos externos e internos, corrupção e colapso de infraestrutura


31/08/2020 04:00 - atualizado 30/08/2020 21:01

Cogumelo que se formou a partir da explosão de nitrato de amônio lembrou detonação de bomba atômica(foto: AFP/STR)
Cogumelo que se formou a partir da explosão de nitrato de amônio lembrou detonação de bomba atômica (foto: AFP/STR)

A estética da detonação foi a de uma bomba atômica. Esculpida sobre a dor de tragédias empilhadas em 8 mil anos de história, a Pérola do Mediterrâneo assistiu impotente à elevação do cogumelo de fumaça turva, sob o qual propagou-se em ondas de choque um rastro da destruição infernal. Com potência destrutiva estimada entre 10% e 30% do “apetrecho” experimental lançado pelos Estados Unidos sobre Nagasaki em 1945, a nova tragédia provocada pelo estoque irresponsável de toneladas de nitrato de amônio negligenciada há sete anos sobre o porto de Beirute, no Líbano, encontra a Terra dos Cedros já convulsionada por crises superpostas, que interagem e se retroalimentam.

Mãe de todas as crises, a da política doméstica confunde-se e é expressão de interesses regionais e das grandes potências que se infiltram no maior país de população cristã do Oriente Médio. O curso das investigações internacionais, que buscam a origem da primeira fagulha sobre o paiol da carga explosiva, terá consequências sobre o futuro do sistema político confessional, a composição do governo e a correlação interna de forças políticas deste complexo país.

“O Líbano funciona como uma espécie de teatro de operações sintomático de forças regionais como a Arábia Saudita, o Irã, a Síria, a Turquia e Israel, que consolidam alianças com atores da política interna. Com praticamente todo o território na costa do mediterrâneo oriental, que, hoje se sabe, guarda uma grande reserva de gás natural, tem posição geográfica muito favorável”, avalia Murilo Bon Meihy, autor da obra Libaneses, professor de história contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Estudos Árabes e Islâmicos pela Universidade Autónoma de Madrid.



O Líbano sempre esteve no centro de disputas regionais do Oriente Médio. “No início do mandato francês, após a Primeira Guerra Mundial, a questão era como a França se recolocaria no Oriente Médio. Em 1958, no contexto da Guerra Fria, com a intervenção militar norte-americana, o presidente dos Estados Unidos, Eisenhower, usa o Líbano para frear o avanço dos soviéticos na região”, considera Danny Zahredine, professor e diretor do Instituto de Ciências Sociais da PUC Minas.

E assim foi desde a fundação do Emirado Autônomo do Monte Líbano (1516-1840) – subdivisão autônoma do Império Otomano (1299-1923) iniciada por príncipes drusos e mais tarde fortalecida pela associação dos maronitas. Tal emirado foi precursor histórico do Monte Líbano Mutasarrifate (1861) e da República Libanesa.

"Fusível da região"

Foi assim que, para evitar o altíssimo custo do confronto direto – que poderia levar ao colapso da ordem no Oriente Médio e na Ásia Central –, as forças regionais e potências globais optam pelo embate dentro do Líbano, e fazem-no por meio dos grupos sectários que integram o sistema político confessional. “O Líbano é usado como um país proxy, uma espécie de fusível que se queima para evitar a pane em todo o sistema, caso houvesse uma confrontação direta na região entre Irã e Israel, entre Irã e Arábia Saudita, entre a Síria e Israel (como aconteceu em 1967 e depois em 1973)”, afirma Danny Zahredine.

No plano global, Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel se alinham na política doméstica libanesa em sustentação ao chamado grupo 14 de Março, consolidado desde 2005, após o assassinato do então primeiro ministro sunita Rafic Hariri, ao qual se seguiu a Revolução dos Cedros, que teve por desdobramento a retirada das tropas sírias do Líbano. Integram esse bloco o Partido do Futuro, de maioria sunita e controlado pela família Hariri; as Forças Libanesas, de maioria cristã, lideradas por Samir Geagea; e o Partido Falangista, também de maioria cristã, conduzido por Samey Gemayel.

Agente faz desinfecção em campo de refugiados palestinos: soma de crises social, humanitária e de saúde(foto: AFP)
Agente faz desinfecção em campo de refugiados palestinos: soma de crises social, humanitária e de saúde (foto: AFP)


Em polarização está a coalização formada pelo Grupo 8 de Março, que igualmente emerge alinhada aos acontecimentos de 2005. Além do Irã, tem o apoio da Síria e a simpatia da Rússia. É formada pelo Hezbollah, grupo militarizado e de inspiração xiita, fortemente respaldado pelo Irã; e pelo Partido Amal, pró-Síria, liderado pelo atual presidente do Parlamento, Nabih Birri. Integram igualmente o bloco os cristãos Movimento Patriótico Livre, liderado pelo antigo chefe do Exército, atual presidente do Líbano, Michel Aoun, além do partido denominado Movimento Marada. O Partido Socialista Progressista, grupo druso liderado por Walid Jumblatt, que em princípio se alinhou ao grupo 14 de Março, adota hoje um movimento não automático, mais pendular.

“O que foi a guerra civil de 1958? Foi uma disputa entre a União Soviética, os Estados Unidos, as elites locais que aderiram ao pan-arabismo de um lado e, do outro, à doutrina Eisenhower baseada na Guerra Fria. E o que foi a guerra civil de 1975? Começa em função da saída da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) da Jordânia em 1970, e se desdobra na complicada relação entre cristãos maronitas e palestinos que se refugiaram no Líbano, alterando a composição demográfica do país, sobre a qual se sustenta a distribuição da representação e do poder político”, acrescenta Danny Zahredine.

Loteamento e distribuição de favores

A permanente crise política decorrente do alinhamento e militância das elites locais na representação de interesses da geopolítica regional e internacional é agravada pela cultura do patrimonialismo e pelas denúncias de corrupção envolvendo as tradicionais elites. “O sistema confessional é refém no Líbano de um conjunto de famílias ligadas ao período da guerra civil, que na verdade usa o Estado para o enriquecimento do próprio grupo e a distribuição clientelística de favores. Funciona bem no papel, parece harmonioso do ponto de vista teórico, mas, na prática, o que faz é perpetuar pela via eleitoral determinados grupos no poder. Quem ganha a eleição toma para si todos os recursos do Estado libanês e a distribuição de contratos e serviços”, observa o professor Murilo Bon Meihy.

A corrupção, a paralisia da máquina estatal e os impasses políticos que derivam da partilha do poder e a polarização entre os grupos sectários e os interesses internacionais – que já deixaram o Líbano sem presidente da República por oito meses em 2007 e por 30 meses, em 2014 – também se refletem na falência da infraestrutura do país. Detonada principalmente a partir de julho de 2006, quando impiedosamente bombardeada pela guerra de 34 dias entre Hezbolla e Israel, tal infraestrutura não foi reerguida.

As explosões que ocorreram na área portuária do Líbano foram ouvidas em vários bairros da cidade(foto: Anwar AMRO/AFP)
As explosões que ocorreram na área portuária do Líbano foram ouvidas em vários bairros da cidade (foto: Anwar AMRO/AFP)


Naquele momento em que o país concluía os esforços de reconstrução sobre os escombros da brutal década e meia perdida de sua guerra civil (1975-1990), teve pulverizados 640 quilômetros de estradas, 73 pontes, 31 alvos como o Aeroporto Internacional Rafic Hariri, portos, plantas de saneamento e de energia, 900 estabelecimentos comerciais, 350 escolas, dois hospitais e 15 mil residências.

Inconformados com a incapacidade do Estado de dar resposta às necessidades básicas da população – são constantes os apagões de energia elétrica e há problemas com os serviços de saneamento básico, fornecimento de água tratada e coleta de lixo –, há nove meses os libaneses tomaram as ruas de Beirute exigindo reformas e a deposição imediata de toda a elite política.

As mobilizações que reuniram entre 1 milhão e 2 milhões de manifestantes derrubaram o primeiro-ministro Saad Hariri, mas o novo governo, que agora responde pela negligência do abandono do nitrato de amônio, largado há sete anos no porto de Beirute, tampouco logrou conduzir as reformas econômicas reivindicadas.

Após declarar moratória da dívida pela primeira vez e depois de a moeda local despencar frente à moeda americana – está cotada no mercado paralelo a 7 mil libras o dólar, enquanto a cotação oficial se manteve por 23 anos a 1.507 libras o dólar – a dívida pública alcança 170% do Produto Interno Bruto e as negociações para receber ajuda financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI) estão estancadas desde maio.

Crise social alimenta mobilizações

A deterioração do poder aquisitivo dos libaneses levou quase a metade da população, estimada entre 5 milhões e 6 milhões de habitantes, à condição abaixo da linha de pobreza, segundo dados do Banco Mundial. Ao mesmo tempo em que os produtos básicos registraram aumentos de 60%, mais de 200 mil pessoas perderam seus empregos nos últimos meses, o que situa a taxa de desemprego em mais de 35% da população economicamente ativa.

A crise social – que ressuscita os tempos da grande fome e das grandes guerras, a descrença nas instituições e no sistema político –, volta a incendiar portentosas mobilizações em Beirute, que haviam sido parcialmente interrompidas este ano pela crise sanitária trazidas pela COVID-19. O dramático receituário tampouco dispensa a crise humanitária, desdobrada pelo acolhimento, ao longo dos últimos 10 anos, de pelo menos 1 milhão de refugiados sírios expulsos pela guerra vizinha e sitiados pelo Ocidente no entorno da Síria. Eles constituem hoje perto de um quinto da população libanesa. A estes somam-se os refugiados palestinos, que imigraram desde a primeira guerra árabe-israelense de 1948.

Durante horas, Helicópteros usaram água do mar para apagar os diversos incêndios após a explosão(foto: AFP/STR)
Durante horas, Helicópteros usaram água do mar para apagar os diversos incêndios após a explosão (foto: AFP/STR)


A esse cenário dramático se soma a pandemia. “A explosão, além de danificar diversos hospitais, sobrecarregou o atendimento naqueles que já estavam em dificuldade para atender os casos da COVID-19”, relata Robert Nemer, presidente da Associação Médica Líbano-Brasileira, um dos coordenadores da ajuda humanitária arrecadada no Brasil em contribuições de simpatizantes e da diáspora, estimada em 12 milhões de descendentes.

Nemer alerta para o alarmante recorde de pelo menos 500 novas infecções por dia, em evidente contraste com os apenas mil casos registrados nos primeiros quatro meses do ano. Assinalando a dificuldade no transporte das mais de 60 toneladas de doações em alimentos, que serão enviadas por via marítima, Nemer lembra que as doações em espécie facilitam muito a logística de envio àquele país.

Por quais caminhos seguirá o Líbano? – eis a pergunta que assombra. “O problema econômico, o cenário da investigação sobre a autoria da explosão e a reação da sociedade civil a cada avanço dessas duas dimensões serão decisivos”, considera Murilo Bon Meihy. Enquanto o sistema político sectário mostra sua falência, segue aquele povo determinado a sonhar. Nas palavras do pensador libanês Khalil Gibran (1883-1931): “O desejo é a metade da vida; a indiferença a metade da morte.”

 

Sistema confessional divide poder e forças

Firmado em 1989, o Acordo de Taif, passo importante para encerrar a Guerra Civil (1975 e 1990), divide os assentos no Parlamento libanês de forma igualitária entre grupos cristãos e muçulmanos. Essa divisão substituiu a fórmula anterior, instituída em Pacto Nacional (1943), na qual cristãos contavam com uma representação de 60%, a partir de um levantamento censitário realizado na década de 30. Foram as negociações em torno do Pacto Nacional entre lideranças xiitas, sunitas e maronitas que permitiram em 1943 a independência do Líbano, que se tornara ao fim da Primeira Guerra Mundial protetorado francês.

Além da divisão das cadeiras do Parlamento, o presidente deve ser sempre um cristão maronita; o primeiro-ministro, um muçulmano sunita; e o presidente do Parlamento, um muçulmano xiita. Assim, cada vez que é formado um governo, o chefe de Estado, em consulta ao Parlamento, convida um muçulmano sunita para assumir a cadeira do primeiro ministro. Em seguida, os diferentes ministérios são distribuídos a fim de refletir o balanço de poder entre os diferentes grupos religiosos.


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