(none) || (none)
UAI
Publicidade

Estado de Minas INCÊNDIOS FLORESTAIS

Brigadistas reforçam ações de combate na temporada crítica do fogo

Contratados ou voluntários, eles se juntam aos bombeiros em trabalho incansável de prevenção e combate às chamas


23/07/2021 06:00 - atualizado 23/07/2021 16:36

Nas áreas mais longínquas das matas e florestas, um trabalho minucioso e quase que incansável se torna essencial para que o fogo não consuma hectares de área verde, destrua casas e provoque tragédias maiores. Em tempos de seca, os cuidados devem ser redobrados, seja na prevenção ou no controle de queimadas.

Minas Gerais vive um dos períodos mais caóticos em relação à expansão de incêndios florestais, o que certamente exige uma preparação criteriosa da população no entorno dos parques naturais. Além do trabalho do Corpo de Bombeiros, a atuação dos brigadistas do estado, sejam voluntários ou contratados, ganha destaque num momento de enorme risco para os mais atingidos.

Segundo balanço feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Minas teve 2.078 focos ativos de incêndio nos sete primeiros meses do ano. Somente em julho, foram mais de 700 registros, podendo atingir a média histórica do mês (718) desde que os dados começaram a ser divulgados, em 1998. No último fim de semana, o Corpo de Bombeiros obteve o preocupante número de 331 chamados para controlar incêndios em todo o estado. No total, mais de 1,4 mil hectares de terra no entorno e de 1,1 mil na área interna dos parques foram queimados pelo fogo.

Ainda que as comunidades que ficam no entorno das áreas de conservação sejam as mais atingidas pelo fogo, a orientação do Corpo de Bombeiros é para que elas não tentem controlar os incêndios, já que não são treinadas para esse fim. Apesar disso, é comum ver moradores com baldes de água ou sem portar equipamentos de segurança assumindo o risco e tentando apagar as chamas.

“Com as comunidades, nossa atuação é mais de conscientização, porque combater incêndio florestal é uma atividade que envolve uma série de riscos. Se a pessoa não é um brigadista, é muito delicado fazer qualquer tipo de treinamento a um morador leigo, porque isso traz uma série de riscos. Falamos em deslocamento a locais em que muitas vezes a pessoa pode se acidentar ou ficar cercada pelo fogo. Temos as brigadas, em caso de incêndio, pois normalmente são formadas por moradores aptos a exercer a atividade, desde que treinados pelos bombeiros”, explica o porta-voz do Corpo de Bombeiros, tenente Pedro Aihara.

Brigadistas lutam contra as chamas durante incêndio na Serra do Cipó, no ano passado, quando foram responsáveis por 20% das ações de combate no estado (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press - 09/10/2020)
Brigadistas lutam contra as chamas durante incêndio na Serra do Cipó, no ano passado, quando foram responsáveis por 20% das ações de combate no estado (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press - 09/10/2020)


Esporadicamente, a corporação faz campanhas educativas para alertar os moradores em áreas de risco sobre o uso do fogo para eliminar o lixo e quanto à limpeza de lotes. Segundo Aihara, a maior contribuição das comunidades é na fiscalização. “Os incêndios são causados por negligência, por aquela pessoa que queima seu lixo e perde o controle do fogo ou em situações criminosas. Orientamos que as pessoas denunciem qualquer movimentação suspeita. Mais importante que combater incêndio, a sociedade precisa entender que tem de prestar atenção, porque, geralmente, dentro do próprio bairro, é possível saber quem costuma atear fogo de maneira irregular. Se houver colaboração das pessoas, conseguimos ter um trabalho preventivo, que se torna eficaz”.

Em campo

As brigadas foram responsáveis pelo combate de 20% das ocorrências no ano passado em Minas Gerais. O tempo de resposta é curto, podendo chegar, em média, a 10 minutos entre o pedido de socorro e o atendimento. Morador de Casa Branca, distrito de Brumadinho, situado no entorno do Parque Estadual do Rola-Moça, Ronie Gibson de Oliveira, de 50 anos, começou a atuar no combate às chamas em 2011, sendo um dos fundadores das brigadas do Instituto Casa Branca e Guará. Atualmente, ele faz da parte da brigada comunitária Carcará, que dá suporte aos condomínios da região e às serras da Calçada e da Moeda.

O brigadista afirma que a preparação para o período crítico começa bem antes do período de maior incidência de incêndios: “Nos preparamos durante o ano, fazemos a compra de material e a adequação às normas dos bombeiros. Nos acostumamos a fazer uma reunião semanal para balanço das ocorrências. Nos encontramos todas as sexta-feiras no Parque do Rola-Moça. É preciso informar os moradores dos condomínios, verificar se as casas estão protegidas caso o fogo chegue e evitar que atinja alguma residência. Ficamos na prevenção e aguardando até ser acionados”.

Reforço

Nesta semana, dois incêndios na Serra da Moeda e em Lavras Novas, que causaram a destruição de casas e automóveis, mobilizaram a ação das equipes voluntárias. O aumento da demanda exigirá ainda mais esforço das comunidades. Com cerca de 30 integrantes, a Brigada Carcará ganhará, nos próximos dias, 10 novos integrantes, que farão o curso preparatório ministrado pelo Corpo de Bombeiros para atuar no combate às queimadas na região de Brumadinho. “Seria fundamental que cada município tivesse sua brigada permanente, não somente em temporadas de incêndio. Há todo um trabalho preventivo nas escolas e nas casas. A comunidade precisa estar envolvida e fortalecer as brigadas, sejam voluntárias ou contratadas. E muitas vezes o bombeiro não tem efetivos para atender às demandas. Temos várias ocorrências durante o dia pedindo socorro”, afirma Ronie.

Júlio César de Melo, de 51, também passou a se envolver diretamente com o combate a incêndios nos parques do Serra Verde, da Serra da Piedade e no Refúgio Macaúbas. A sede da Brigada GCA fica em local estratégico para atender às ocorrências da capital, Santa Luzia e Sabará. “Atuamos em determinadas áreas, mas isso não significa que possamos nos deslocar para a Serra da Moeda, Rola-Moça. Vai depender da demanda. Se houver urgência, nos deslocamos”, afirma Melo, que reside no Bairro Maria Goretti.

O brigadista afirma que o número de voluntários ainda é pouco diante da alta demanda nos últimos meses: “Muitas vezes, conseguimos a adesão de voluntários, que se sensibilizam com a situação e nos ajudam. Temos um estado com dimensões continentais. No fim de semana, foram mais de 300 chamados do Corpo de Bombeiros. Pela dificuldade que é o combate aos incêndios florestais, o efetivo ainda é pouco”.

Prevenção

Em Ouro Preto e Mariana, a própria administração do Parque do Itacolomi iniciou trabalhos com moradores que vivem no entorno das reservas ambientais. De acordo com a gestora Maria Lúcia Cristo, a ação vem surtindo efeito nos últimos meses, já que o local só teve uma ocorrência de incêndio neste período.

“Fizemos treinamentos com os brigadistas para conhecerem a peculiaridade da região. E um trabalho com as comunidades. Nosso parque é limítrofe com Ouro Preto e Mariana, justamente a área com a maior incidência de incêndios. Visitamos as casas e conscientizamos sobre os períodos críticos. São comunidades com recursos escassos e muitas vezes colocam fogo em lixo ou fazem incêndios no local. Entregamos a eles um cartão com os números de telefone para pedir socorro quando necessário. Estamos tendo ótima resposta”, diz Maria Lúcia.

Estado expande bases operacionais

 

Neste período crítico de inverno, Minas Gerais passará a contar com 10 bases operacionais de combate aos incêndios florestais espalhadas pelo estado, que servirão como pontos de apoio ou mesmo denúncia de queimadas clandestinas. Em ação estratégica, o governo estadual instalará novas áreas de monitoramento em Paracatu, Santo Antônio de Itambé, Timóteo, Buenópolis, Montes Claros, Lagoa Santa e Ouro Preto, que serão somadas às que existem em Belo Horizonte, Curvelo e Januária. O Plano de Resposta foi lançado na semana passada, na Serra do Rola-Moça.

A missão das bases é atuar em conjunto com as brigadas e, desta forma, minimizar os incêndios provocados pelos humanos. “Sabemos que em período seco não existem incêndios por causa natural. A única causa natural é o raio, que cai numa árvore e espalha o fogo. Vemos isso na época de tempestade, mas não há chuva neste momento. Então, 99% dos registros de incêndios hoje são provocados pelo homem. As pessoas vão passear, mas involuntariamente acendem fogueiras, bitucas de cigarro ou queimam lotes. O fogo adentra para as unidades. O estrago que isso provoca é enorme”, analisa Ana Carolina França Seleme, diretora de Unidades de Conservação do Instituto Estadual de Florestas (IEF).

Segundo ela, o estado fez investimento de R$ 40 milhões em prevenção e combate aos incêndios florestais, que serão gastos na compra de aeronaves, caminhonetes e equipamentos de proteção individual. Além disso, o governo contratou, no primeiro semestre, 115 novos brigadistas, que se somam aos 260 funcionários e servidores que já atuam nas unidades. Já existe, também, um processo seletivo para a contratação de outros 252 profissionais temporários.

“Eles fazem os aceiros, que correspondem à limpeza das áreas secas em volta dos lugares mais verdes. Com isso, o fogo não atinge à área de conservação ambiental. Além disso, há o processo de educação e o manejo integrado do fogo, por meio de queimas prescritas da área seca”, ressalta Ana Carolina.

De acordo com o Corpo de Bombeiros a parceria com as brigadas é extremamente importante. Mas é “importante destacar que o funcionamento das brigadas deve observar a legislação estadual, com a submissão técnica e legal ao CBMMG, para melhor coordenação e controle dos trabalhos realizados e segurança da população mineira”, disse a corporação, por meio de nota.

O efeito do fogo

 

2.078
focos ativos em Minas em 2021

708
registros em julho

1,4 mil
hectares destruídos no entorno de parques estaduais

1,1 mil
hectares destruídos na área interna de parques estaduais


Paixão pela defesa da natureza



Claudinho no local onde combateu incêndio que durou dias em 2020:
Claudinho no local onde combateu incêndio que durou dias em 2020: "Tenho pra mim que ser brigadista é uma obrigação social de quem mora no mato", disse o brigadista voluntário, que foi capa do EM (detalhe) (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
“Você me pegou num momento quente", descreveu à época, com bom humor, o brigadista voluntário Claudinei Luiz da Silva, de 52 anos, fotografado pelo EM em estado de exaustão durante combate ao fogo na Serra do Espinhaço, em outubro de 2020. Em reencontro com a equipe de reportagem do Estado de Minas,  ele foi convidado a voltar ao local exato da foto para nos contar como foi e como está sendo a repercussão, já que a imagem, publicada na capa da edição de 13 de outubro, viralizou e ele chegou a ganhar um prêmio ecológico pela repercussão da imagem, onde aparece tentando repousar com a cabeça sobre a mochila costal, esgotado, sem forças para dar continuidade à árdua tarefa de combater as chamas naquele instante. "Tenho pra mim que ser brigadista é uma obrigação social de quem mora no mato", convida.

Claudinho, como é chamado por todos, sempre que pode reafirma sua paixão pela defesa da natureza por meio da atividade de brigadista. Para ele, defender Cerrado  "é uma cachaça, uma adrenalina com uma recompensa que não há dinheiro que pague”, garante. Ao chegar ao local onde foi feita a foto, ele começou a recapitular aquele momento. "Lembro que estava defendendo uma casa num ponto da Lapinha da Cima quando me senti estafado pois a fumaça havia tomado o meu pulmão. Daí, me deitei neste ponto aqui e fiz um gesto que já usavas antes para recobrar as forças, este que você me fotografou", ilustra.

O voluntário mostrou à reportagem que boa parte do campo rupestre ainda está chamuscado pelas chamas de 2020. " O Cerrado demora mais a se regenerar e é por isto que não pode queimar assim, temos que ficar mais atentos e não deixar se espalhar quando ocorrer", frisa.

De lá pra cá, sua luta pela brigada continua. Defensor de medidas de precaução, está preocupado  com a pouca mobilização do poder público, haja vista que a temporada da estiagem está começando e alguns incêndios já começam a acontecer, como o do fim de semana passado no alto da Serra Caetana, no Cipó, que foi debelado por brigadistas voluntários com equipamentos cedidos pelo ICMBios do Parque Nacional da Serra do Cipó. Para Claudinho é de suma importância o suporte dado aos voluntários: "Somos nós que apagamos e fogo nas nossas terras". (Leandro Couri)


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade

(none) || (none)