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Estado de Minas INVERNO

Na luta contra o frio, morador de rua apela à bandeira nacional em BH

Reciclador de objetos diz que maior sonho é ter uma moradia própria para viver com a família dignamente


07/07/2021 13:15 - atualizado 07/07/2021 14:28

Alexandre tem como maior sonho conquistar uma casa para morar(foto: Roger Dias/EM/D.A Press)
Alexandre tem como maior sonho conquistar uma casa para morar (foto: Roger Dias/EM/D.A Press)
 
Exemplo de orgulho para alguns e de insatisfação para outros nos dias atuais, as cores verde-amarela da bandeira do Brasil servem habitualmente de abrigo para Alexandre Cota Ferreira se proteger das madrugadas frias do inverno de Belo Horizonte. Há pelo menos três anos, esse cidadão de 46 anos mora com sua esposa num barraco bem na esquina da Praça Raul Soares com a Avenida Bias Fortes, no Centro da capital, enfrentando falta de emprego, fome e o próprio frio. Uma bandeira brasileira de cerca de 10 metros de largura se transformou no telhado de sua casa há vários dias, o que chamou a atenção da população que percorre as ruas da capital.
 
Na semana que antecede um clássico entre Brasil e Argentina, sábado, na final da Copa América, e poucos dias antes do começo dos Jogos Olímpicos do Japão, o estandarte ficou ainda mais visível aos olhos das demais pessoas. Quem se depara com a bandeira, logo a relaciona ao clima festivo em torno dos eventos. Seria alguma ação promovida pela prefeitura? Não. 

“Sempre que eu acho algo que me interessa, eu pego para ajudar a 'formar' minha casa. Essa bandeira eu achei dentro da caçamba de um lixo do lado do Mercado e decidi colocá-la em cima. O pessoal me pergunta se é por causa do futebol, mas eu explico direito que é para nos proteger do frio. Muitos gostam de tirar foto e ficam me conhecendo. Me tornei amigo de muitos por causa da bandeira”, conta Alexandre, sorrindo.

Ele mora no local com a mulher, Jaqueline Valença, de 32, natural do Rio de Janeiro, além de um gatinho de estimação, que cuida do barraco quando o rapaz vai buscar seu sustento. Em abril, Alexandre e a esposa tiveram o bebê Jordan (justamente em homenagem ao astro do basquete norte-americano Michael Jordan), que mora num abrigo do município com outros dois filhos dela, de outro casamento.  

Atualmente, Alexandre sobrevive graças aos serviços de reciclagem de objetos, além de cuidar e lavar carros e fazer favores para vários conhecidos da região. Outra fonte de renda são as moedas dadas por várias pessoas que passam pelo local e sentem medo de serem assaltadas. “Eu costumo acompanhá-las até o local de seu destino. Não deixo ninguém fazer nada com elas”, diz. No passado, ele também trabalhou num lava-jato, como repositor em um sacolão e como auxiliar de pedreiro.

Alexandre tem como maior desejo um lugar digno para passar as noites. “Quero uma moradia e os benefícios da maternidade dados pelo governo, já que não recebemos nenhum até hoje. Não recebi nenhum auxílio na pandemia. A prefeitura também não deu conta de nos atender. Minha intenção é registrar o meu filho e os da Jaqueline e ter uma casa para sobreviver do nosso sustento."
 
Bandeira brasileira de 20 metros de largura cobre o barraco do morador de rua(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Bandeira brasileira de 20 metros de largura cobre o barraco do morador de rua (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
 
No passado, Alexandre admite que se envolveu com o uso de drogas e praticou roubos e assaltos na capital, mas passou a ter uma vida mais tranquila depois que conheceu Jaqueline nas ruas.

Ele não sente receio de contar cada detalhe de seu passado. “Eu já estive envolvido no mundo do crime. Usei drogas, roubei, assaltei... Fiz muitas coisas erradas. É meu único arrependimento até hoje. Mas abandonei tudo e hoje levo a vida na humildade. A partir do momento em que me separei da ex-esposa, decidi morar na rua para não causar má impressão para meus familiares e amigos. Depois de oito anos, encontrei a Jaqueline, que passou a viver comigo. Vivemos muito felizes aqui”, afirma.
 

Crise econômica 

 
Ele e Jaqueline receberam as duas doses da vacina contra o coronavírus. Num momento de crise econômica, o belo-horizontino diz que sempre está com o sorriso aberto em busca de novas oportunidades de trabalho e dinheiro para comprar o pão de cada dia: “Quem coloca dificuldades nas coisas são as próprias pessoas. Mas penso que se temos necessidades e quer trabalhar, pode até arrancar uma grama do chão e ganha um trocado. Temos que fazer por onde e buscar o que precisamos. Quem quer um pouquinho já é o suficiente. Mas tem gente que quer muito e isso se torna um problema”.
 
Ele guarda numa pasta todos os seus documentos, da esposa e do filho, que, no futuro, serão necessários para que ele possa retirar Jordan do abrigo e assumí-lo de vez.  
 
Alexandre guarda cuidadosamente todos os documentos pessoais(foto: Roger Dias/EM/D.A Press)
Alexandre guarda cuidadosamente todos os documentos pessoais (foto: Roger Dias/EM/D.A Press)
 
No lugar de sonhos ambiciosos, Alexandre diz que quer para o futuro uma vida simples e tranquila: “Hoje, eu já me inseri à sociedade, sendo um cidadão honesto. Esse foi meu primeiro sonho conquistado. Agora, quero viver dignamente, formar minha família e seguir adiante”.
 
  


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