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Estado de Minas PANDEMIA

Fila da vacina contra COVID-19 vira palco de disputa em Minas

Profissionais da saúde que não estão na linha de frente contra a COVID-19 pressionam para garantir a vez. Cidades fracionam prioridades para adequar estoques


22/02/2021 04:00 - atualizado 22/02/2021 07:12

Lotes das vacinas começaram a chegar a Minas em janeiro: estado recebeu 1,17 milhão de doses e entregou 242 mil a Belo Horizonte(foto: CBMMG/Divulgação %u2013 19/2/21)
Lotes das vacinas começaram a chegar a Minas em janeiro: estado recebeu 1,17 milhão de doses e entregou 242 mil a Belo Horizonte (foto: CBMMG/Divulgação %u2013 19/2/21)
Doses insuficientes mesmo para quem é considerado prioridade e muita ansiedade na fila da vacina. Dentistas e médicos que trabalham em consultórios, além de farmacêuticos da rede particular, pressionam para garantir a vez.

Eles temem ser “atropelados” por outros profissionais incluídos no grupo dos que atuam em espaços e estabelecimentos de assistência e vigilância à saúde, considerados prioritários para a imunização pelas diretrizes do Ministério da Saúde e do governo do estado, em ordem sobre a qual os prefeitos – premidos por seus estoques – têm a palavra final. 

Mais silenciosa, a fila de idosos – grupo em que é registrada a maior parte de mortes pela doença – anda em compassos diferentes estado afora, concentrada, ainda, em locais onde está mais adiantada nos que têm acima de 86 anos, exceto no caso daqueles que estão institucionalizados.

O estado recebeu 1.171.180 doses de vacinas contra a COVID-19 para distribuir aos seus 853 municípios, 242.220 delas para Belo Horizonte. Os lotes incluem as vacinas que têm que ser reservadas para segunda aplicação, sem a qual o esquema vacinal permaneceria incompleto. E a conta não fecha nem para o topo das prioridades. 

A alternativa tem sido escalonar também os grupos prioritários, o que tem sido feito de forma diversa em cada município e até gerado protestos, como ocorreu em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que optou por deixar até mesmo  os mais idosos para depois de todo o pessoal da saúde, o que incluiu preparadores físicos.

A capital está entre as cidades que subdividiu grupos da saúde. BH recebeu três remessas de vacina, sendo 201.720 doses da CoronaVac, e 40.500 da AstraZenica, totalizando 242.220. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, todo o estoque está destinado para a vacinação dos públicos-alvos priorizados inicialmente (confira a lista).

Determinados grupos já receberam a segunda dose e outros ainda estão na primeira, em função do período indicado para a aplicação da segunda dose, que será de 14 a 28 dias para aqueles vacinados com a Coronavac, do laborátório Sinovac, cujo parceiro no Brasil é o Instituto Butantan, e de três meses para os que receberem a Covishield, da Astrazeneca/Oxford, em parceria com a Fundação Oswado Cruz (Fiocruz).

A vacinação (primeira dose) dos idosos de 86 a 88 anos que não estão institucionalizados está em andamento, assim como a das pessoas com 89 anos ou mais, iniciada antes e oferecida prioritariamente em domicílio, com previsão de que seja finalizada até o fim desta semana.

Profissionais de saúde não incluídos nessa primeira fase na lista da prefeitura – entre eles dentistas, médicos e farmacêuticos –, devem ser vacinados de acordo com o recebimento de novas doses, enviadas pelo Ministério da Saúde e distribuídas pela SES-MG. 

Apesar da sequência prevista pela PBH, a Secretaria Municipal de Saúde informou que podem ocorrer mudanças na ordem dos grupos, assim como alguma estratificação dentro deles, dependendo do quantitativo de doses disponibilizadas em cada entrega para a capital.

Exposição

Como a maioria da população, os farmacêuticos estão preocupados e ansiosos em busca de respostas sobre quando serão vacinados, principalmente os da rede privada. O Conselho Regional de Farmácia (CRF/MG) diz que tem recebido telefonemas dos profissionais pedindo que o órgão interfira ou contribua para que a vacinação ocorra o mais rapidamente possível.

O setor está na lista de atividades essenciais e argumenta que os profissionais que nele atuam estão fortemente expostos ao vírus. “Desde o início da pandemia os farmacêuticos estão na linha de frente. As farmácias, drogarias e laboratórios de análise clínicas não fecharam nem um minuto”, diz a presidente do CRF/MG, Junia Medeiros.

De acordo com dados do setor, foram realizados 1.165.140 exames do tipo RT-PCR para o diagnóstico da COVID-19, sendo 780.543 (67%) pela rede privada e 384.597 (33%) pela rede pública.

Ainda segundo o CRF/MG, em farmácias foram feitos 1.947.072 testes sorológicos para a COVID-19 no estado. Desde o início da pandemia, em março do ano passado, a SES-MG realizou o repasse de 776.460 testes rápidos para todos os municípios de Minas. Considerando que todos os kits distribuídos tenham sido usados, 60,1% (1.170.613) foram realizados por farmácias e laboratórios privados.

“As farmácias estão abertas todos os dias. Os pacientes doentes vão primeiro à farmácia. Quando o paciente sai do serviço de saúde, ele também vai à farmácia e ao balcão. O farmacêutico é um profissional exposto. Estamos cara a cara com os pacientes. Essa é a nossa maior luta. Além disso, as farmácias se tornam  um espaço de contaminação, apesar de toda biossegurança”, argumenta Junia.

Ela ressalta que o Ministério da Saúde e a SES-MG já definiram que o setor é prioritário, mas é cada município que decide. Alguns já começaram a vacinação desses profissionais, como Varginha, Ituiutaba, Divinópolis, Curvelo, Barbacena e João Monlevade, cita. Em outros, defende, a fila está sendo atropelada por  profissionais que, a seu ver, deveriam vir depois.

“Se a vacina é escassa, acho que tem que ter um escalonamento de prioridades, o que não há em alguns lugares. Tivemos notícia de profissionais de academia sendo vacinados, não é certo neste momento. Médico, farmacêutico e dentista que são os profissionais da linha de frente”, afirma.

Balanço da imunização

EM MINAS

Doses recebidas pelo Ministério da Saúde 1.171.180
Total de doses aplicadas 1ª dose 439.255
Total de doses aplicadas 2ª dose 161.707
Trabalhadores de saúde 1ª dose 408.394
Trabalhadores de saúde 2ª dose 145.782

EM BELO HORIZONTE

DOSES destinadas a BH 242.220
Doses distribuídas 202.898
Aplicação de 1ª dose 103.963
Aplicação de 2ª dose 48.140

Ordem de vacinação na capital

Atualmente, a vacinação está em andamento (primeira e/ou segunda dose) para os seguintes públicos:

Idosos com 89 anos ou mais
Idosos entre 86 e 88 anos
Trabalhadores em atividade de 49 hospitais, públicos, filantrópicos e privados
Trabalhadores das nove UPAs e do Samu
Moradores e profissionais (cuidadores, equipe de enfermagem, auxiliar de serviços gerais e quem realiza a manipulação dos alimentos) que atuam em todas as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs)
4 Trabalhadores lotados nos 16 Centros de Referência em Saúde Mental (Cersam adulto, álcool e outras drogas e infantil)
Moradores e profissionais (cuidadores, equipe de enfermagem, auxiliar de serviços gerais e quem realiza a manipulação dos alimentos) dos Serviços de Residência Terapêutica (SRT)
Moradores e profissionais das Residências Inclusivas (para pessoas com deficiência institucionalizadas - a vacinação será realizada para os moradores acima de 18 anos)
 Trabalhadores lotados nos 152 Centros de Saúde do município
Trabalhadores que atuam em laboratórios, clínicas oncológicas e hematológicas, serviços de hemodiálise, clínicas de imagem, serviços da atenção secundária, atenção domiciliar e de especialidades do SUS-BH, equipamentos da saúde mental e hospital dia

Os próximos grupos para vacinação assim que chegarem novas doses devem seguir a seguinte sequência:

Demais trabalhadores da Saúde residentes em Belo Horizonte com registo ativo no CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde)
 Pessoas de 75 anos e mais; e acamados
Pessoas de 60 e mais
 Pessoas com comorbidades
Pessoas com deficiência permanente grave
 Pessoas em situação de rua
Povos indígenas e quilombolas
Forças de Segurança e Salvamento, funcionários do sistema de privação de liberdade e população privada de liberdade
Trabalhadores de Transporte Coletivo Rodoviário de Passageiros Urbano e de Longo Curso
 Trabalhadores de Transporte Metroviário e Ferroviário
Trabalhadores de Transporte Aéreo
Trabalhadores da educação*
Caminhoneiros
Trabalhadores industriais

*O grupo de trabalhadores da educação pode ser priorizado de acordo com a reabertura das escolas.

Fontes: Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais e Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte

O peso da carga viral

(foto: Arquivo Pessoal - 26/12/20)
(foto: Arquivo Pessoal - 26/12/20)
O médico infectologista Carlos Starling, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia e do Comitê de Enfrentamento à Pandemia em BH, diz que é fundamental a chegada de novas doses da vacina para alcançar esses grupos. “A prioridade de vacinação é para profissionais dentro de hospitais e de pronto-atendimento porque entram em contato com pacientes com carga viral muito alta”, explica.

Segundo Starling,  há uma expectativa de chegada de novas doses no decorrer desta semana. “(Em BH) Eles vão ser vacinados à medida que recebermos as doses. O escalonamento está pronto, mas obviamente que depende da disponibilidade de vacinas”, diz. Enquanto isso, os cuidados devem ser reforçados.

“São as medidas de barreiras não farmacológicas. Trabalhar com proteção, máscara cirúrgica, manter a higienização”, ressalta. O discurso é reforçado pela PBH: “É imprescindível que novas remessas de vacinas sejam entregues à Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte para a ampliação dos grupos definidos para a imunização”, informou, em nota.

Conforme publicado pela Deliberação CIB-SUS/MG 3.319 do governo de Minas, fazem parte do grupo da saúde: médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, biólogos, biomédicos, farmacêuticos, odontólogos, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, profissionais da educação física, médicos veterinários e seus respectivos técnicos e auxiliares.

Também serão vacinados os trabalhadores de apoio, como recepcionistas, seguranças e pessoal da limpeza. A lista inclui também profissionais que atuam em cuidados domiciliares, assim como os funcionários do sistema funerário que trabalham diretamente com pessoas que morreram em decorrência da doença.

A vacina também será disponibilizada para acadêmicos e estudantes da área técnica em saúde em estágio nas unidades hospitalares, atenção básica, clínicas e laboratórios.

De acordo com a SES-MG, esse montante se refere a 73% dos trabalhadores da saúde. No entanto, a pasta ressalta que deve ser priorizado aqueles que atuam na linha de frente no atendimento de casos de COVID-19, e a ampliação da cobertura desse público será gradativa, conforme a disponibilidade dos imunizantes.

Como a quantidade de vacinas ainda é pouca, os municípios têm de estabelecer uma sequência de vacinação entre esse grande grupo. 


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