Publicidade

Estado de Minas TENDÊNCIA

Moda e gênero: entenda os tabus que cercam os trajes masculinos

Após séculos de história, mundo da moda ainda reflete preconceitos de gênero traçados no período pós-industrial. Mas a linha fica cada vez mais tênue


29/12/2020 04:00 - atualizado 29/12/2020 07:23

Linha entre masculino e feminino na moda está cada vez mais tênue(foto: Emannuelly Gomes/Divulgação)
Linha entre masculino e feminino na moda está cada vez mais tênue (foto: Emannuelly Gomes/Divulgação)
Roupas “de mulher” e “de homem”: tais termos ainda existem? Ou buscam, apenas, cobrir certos preconceitos ligados à moda masculina? Diante da palavra “moda”, imediatamente, pensamos em peças de vestuário, desfiles e tendências. Tais referências compõem mesmo o conceito. Trata-se, porém, de termo com definição bastante vasta, para muito além das superfícies.

“A moda é um estilo de vida, comportamento e autoconhecimento. É o coletivo e a diversidade. Ela está presente em nossas vidas, desde o momento em que acordamos, até a hora de dormir”, comenta Edvan Silva, administrador da página @homem_atual, que conta com mais de 30 mil seguidores no Instagram.

E ele tem razão! A palavra moda provém do latim modus, que significa “costume”, e seu surgimento remonta ao início do Renascimento europeu. O vocábulo diz tanto sobre as vestimentas quanto sobre os estilos de vida. Moda se revela como grande forma de expressão, como linguagem verbal e não verbal: é cultura, e, além de tudo, o reflexo do comportamento. Por meio dela, podemos externar nossa identidade.

Além de tudo, quando nos referimos à moda, sempre – ou na maioria das vezes – pensamos no sexo feminino. Mas por que ela parece só ter relação com a feminilidade? Ou, de outro modo: por que há tão pouca representatividade sobre o assunto no “lado” masculino? Por fim: por que há um tabu tão grande, já que cada pessoa tem estilo próprio?

Certamente, os preconceitos já foram maiores. Apesar disso, ainda existem. A designer de moda Flávia Virgínia está entre os que acreditam que há tabus em relação às roupas “para homens”. Segundo ela, porém, com a ajuda das redes sociais, as pessoas têm hoje possibilidades de trocas muito maiores. E existe a vontade de muitos se destacarem em meio ao que já existe. “Isso dá maior abertura ao tema. No entanto, ainda assim, é um palco para diversos tabus, principalmente em relação à sexualidade das pessoas”, comenta.


Evolução

Apesar dos preconceitos, a moda acompanha também os homens ao longo da vida e cada vez mais desperta interesse entre eles(foto: Emannuelly Gomes/Divulgação)
Apesar dos preconceitos, a moda acompanha também os homens ao longo da vida e cada vez mais desperta interesse entre eles (foto: Emannuelly Gomes/Divulgação)
A história da moda remonta a séculos e séculos. Por que, então, a grande maioria das pessoas, na atualidade, ainda pensa que ela é só para mulheres? Homens também não se vestem, gostam de se cuidar e se importam com a aparência? “No mundo pós-industrial, houve separação entre gêneros, o que ocorreu, de maneira muito específica, no que se refere à estética pessoal. Foi posto na esteira do gênero feminino a relação mais direta com o autocuidado, a beleza e os padrões, ao passo que, aos homens, resguardou-se o lugar do trabalho”, analisa Flávia Virgínia.

Para o estilista Ronaldo Fraga, a temática envolve várias questões. Mesmo que, em grande parte do mundo, as pessoas misturem roupas – o que pode ser chamado de “moda sem gênero” –, no Brasil, isso ainda pode ser um problema. “Aqui, esse tipo de roupa ainda é coisa de bolha. Um homem de saia, de vestido, ou de bata longa ainda é um tabu muito grande”, diz o estilista.

Recentemente, o cantor britânico Harry Styles estampou a capa da renomada revista Vogue vestido com saia e looks que parte da sociedade, provavelmente, classificaria como “roupa feminina”. Seu ensaio causou tanto fascínio nos admiradores quanto desconforto entre os mais “conservadores”.

“Se você deixar de usar um look apenas por ser 'roupa feminina', está abrindo mão de todo um universo incrível. Acho excitante que, no momento atual, você possa vestir o que quiser, sem se preocupar em ser x ou y. As linhas estão cada vez mais borradas”, declarou o cantor e ator, em entrevista à revista Variety.

Já deu para notar que a moda contemporânea não tem gênero. O estudante Gabriel Linds, de 19 anos, concorda com essa tendência, ao defender o espírito democrático: “Hoje, a gente vê que estão em alta não apenas a moda feminina mas também a masculina. A coisa muda. Todas as pessoas têm seu estilo, usam o que gostam, aquilo o que as faz se sentir bem”.

Gabriel diz ser influenciado pela sociedade, mas também costuma basear seu estilo em gosto particular. Essa junção, certamente, é outra forma de definir a moda, já que ela não precisa ser, necessariamente, aquilo que está em voga, ou o que é tendência nas revistas e passarelas. Pelo contrário, ela está em ser quem você é, independentemente de qual seja seu gosto ou estilo.

Outra questão conflituosa no mundo fashion são as crenças de que a moda é elitizada. Realmente, por um longo período na história, preocupar-se com vestimentas, acessórios, padrões de beleza e comportamento era exclusividade daqueles que tinham dinheiro. Tal concepção mudou, junto com a consolidação de novos sistemas econômicos, políticos e de costumes.

A confirmação dessa mudança está na grande influência, cada vez mais estável, das populações periféricas. Ronaldo Fraga – que, apesar de ter o masculino como coadjuvante em suas coleções, está no ambiente da moda – percebe a tendência e ressalta: “Curiosamente, a evolução do masculino na moda brasileira e no mundo vem, justamente, da periferia. Os rappers evoluem cada vez mais e nos trazem cores. Nova geração, novas formas”.

Do Rei Sol ao pluralismo

A moda passou por diversas transições. Inicialmente, se dirigia a certa classe social abastada. Em seguida, estendeu-se a jovens trabalhadores, e logo passou a transpor ideias da alta-costura, por um preço acessível. Depois, as marcas viram a necessidade de escolher seus públicos por meio de outros critérios, e a moda se tornou popular. Entender tal história pode esclarecer o comportamento da sociedade a respeito desse tema, e como isso interfere no julgamento que muitos têm sobre a moda masculina. Além disso, pode-se compreender os reflexos na relação dos homens com as vestimentas.

Desde muito tempo, a moda europeia é parâmetro para o restante do mundo. Na época dos monarcas, as roupas eram sinônimo do poder masculino. Assim, quanto mais deslumbrante, maior seu poder. Mas, antes disso, as vestimentas eram simples, com poucas roupas, ou até mesmo peça única, com priorização da praticidade. Foi então que o rei Luís XIV, da França, colaborou com o auge da luxuosidade, o que culminaria no que hoje conhecemos por alta-costura. O Rei Sol, como ele se autodenominava, foi uma das primeiras grandes referências da moda.

Com a Revolução Francesa, surgiu uma nova classe social: a burguesia. Por conseguinte, as roupas extravagantes deixaram de ter relevância, já que a ostentação poderia confundir os burgueses com aristocratas e levá-los à morte. Assim, as vestimentas simples e práticas ganharam destaque e o trabalho se tornou o valor do homem.

Logo no início do século XIX, surge o dandismo, que apresentava uma moda discreta, voltada à alfaiataria, o que caracterizava o novo arquétipo de homem: o herói romântico, cavaleiro perfeito, que vive intensamente, com o clássico e sóbrio estilo “chique urbano”.

A sobriedade nas vestimentas masculinas aumentou ainda mais com a Revolução Industrial, e a discrepância em relação às tendências femininas ficou maior. Elas esbanjavam volumes, cores, brilhos e acessórios. Já eles usavam cores acinzentadas, cortes retos e poucos acessórios.

Entre esses poucos complementos usados pelos homens, havia a gravata, a cartola e o relógio de bolso – caso a pessoa pertencesse a classe social elevada. Naquela época, a barba bem cortada e o uso de acessórios diferenciavam os homens ricos dos menos abastados.

Foi no período pós-guerra, quando aumentaram os índices de consumo e o rock nasceu, que emergiram novas perspectivas para os trajes masculinos. Havia, ainda, a dimensão tradicional, com traços das culturas passadas, mas os jovens adotaram um visual revolucionário, com calça jeans, camiseta e jaqueta de couro. A partir daí, a cultura musical passou a interferir diretamente no comportamento masculino e no seu no guarda-roupa.

Nos anos 1960, o tradicional se tornou mais sutil. Trata-se da época da calça boca de sino, de cores vivas, estampas psicodélicas e bordados. Já na década seguinte, as referências do rock'n’roll e do movimento punk vieram com força. Camisetas de banda ou, até mesmo, com estampas de protesto, cabelo raspado na lateral, calças rasgadas e tachas faziam parte da tendência. É importante ressaltar que, também na década de 1970, o movimento pelos direitos LGBT começou a ganhar força e a mostrar seu poder de consumo.

As roupas masculinas tornaram-se mais largas nos anos 1980, para complementar o look . Os homens usavam relógio, muitos colares e pulseiras, numa clara intervenção do movimento rap. Já na década de 1990, foi a vez das vestimentas casuais, da t-shirt com estampa de personagens por dentro do jeans, e do All Star colorido. Ainda nessa época, as pessoas começaram a adotar tatuagens e piercings.

Dos anos 2000 até hoje, a liberdade toma conta do universo da moda, que passou a reinterpretar estilos passados. É um período de pluralismo, informação e globalização, na esteira das novas tecnologias, o que resulta em grande volatilidade dos estilos e na intensificação do comportamento de consumo. Esse cenário abriu espaço para uma nova forma de masculinidade: o metrossexualismo. Agora, não são os monarcas que ditam o que deve ser usado – nem apenas a influência musical –, mas, sim, os famosos, blogueiros e influencers.

Apesar de, atualmente, termos maior liberdade para olhar e transformar a própria ideia do que seja a moda, ainda há muito a evoluir. Por fim, como destaca Ronaldo Fraga: “Cabe uma pitada de transgressão! No geral, independentemente de serem homens ou mulheres, as pessoas devem entender que a moda, por ser libertadora, pode se revelar a chave da caserna.”

*Alunas do UNI-BH

Matéria vencedora do Desafio de Reportagem, oficina realizada pelo UNI-BH em parceria com o Estado de Minas e Portal Uai

Crescimento entre eles


O setor da moda é um dos que mais crescem no mundo. Pesquisa realizada pelo Sebrae, em julho de 2019, apontou que o consumo masculino nessa área cresce 14% ao ano. Tal aumento é maior até que o feminino, com 8% de expansão. Outro fator que merece destaque: por causa da influência da comunicação digital e da tendência do e-commerce, a porcentagem de homens que consomem produtos ligados à moda é de 40%. – o que demonstra como eles têm se preocupado com a aparência.





receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade