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Estado de Minas DESABAFO

'Caso está na Justiça, mas não vai a julgamento', diz mulher que perdeu filha em acidente, há quatro anos

Motorista que dirigia o carro, namorado de Isadora Pimentel Martins, estaria embriagado e se recusou a fazer o teste do bafômetro


28/10/2020 18:03 - atualizado 28/10/2020 18:44

Mãe de Isadora Pimentel Martins não se conforma com o andamento do processo do acidente que envolveu a filha, morta em 2016(foto: Reprodução/Álbum da família)
Mãe de Isadora Pimentel Martins não se conforma com o andamento do processo do acidente que envolveu a filha, morta em 2016 (foto: Reprodução/Álbum da família)
“Não estou vivendo, estou sobrevivendo. Não vivo mais desde que minha filha se foi.” As palavras são de Miriam Rose Pimentel Martins, mãe de Isadora Pimentel Martins, que morreu em um acidente de carro na Avenida Tancredo Neves, em 11 de dezembro de 2016. O causador do acidente, segundo boletim de ocorrência da Polícia Militar, seria o motorista Rafael Vinicius Duarte Loureiro, que estaria embriagado. Na ocasião, ele se recusou a fazer o exame soprando o bafômetro. No mesmo acidente, morreu outro passageiro, Leonardo Ono de Moura, e Roberto Roie Meirelles Bahia ficou gravemente ferido.

Miriam se recorda da última vez que viu a filha. “Ela havia me telefonado, dizendo que iria conhecer uma boate, Mandala. Era o aniversário de um amigo. Ela estava com o namorado, Rafael, que era o motorista. Questionei-a. Mas ela insistiu. Veio para casa, para se trocar. Uma vez em casa, eu e o Rafael ficamos conversando, quando ele perguntou pelo meu marido, pai da Isadora, Sérgio Luiz Martins da Silva. Falei que ele estava no segundo andar e fui ajudá-la a se aprontar."

A mãe conta que na conversa de Rafael com seu marido, Sérgio o aconselhou a irem com um carro de aplicativo, mas que o namorado insistia, dizendo que estava bem e que tudo sairia sem problemas.

“Eles saíram, perto de meia-noite. A Isadora dizia que tinha de chegar lá antes de meia-noite, para não pagar a entrada. Meu marido ainda recomendou juízo”, conta Miriam, que diz que foi se deitar com Sérgio.

Mas por volta de quatro horas, ela conta que acordou e estranhou o fato de Isadora ainda não ter chegado em casa. “Ela sempre foi certinha. Nunca passava de duas horas. Liguei para o telefone dela, mas não atendia. Liguei para o do Rafael, e também não atendia.”

Foi nesse instante, segundo Miriam, que o telefone fixo, que fica na sala, chamou. Ela correu para atender. “Era um policial militar, que falou que tinha acontecido um acidente e que a Isadora tinha falecido.”

Quando voltei ao quarto, Sérgio perguntou o que tinha acontecido. Já estava chorando e falei o que tinha acontecido. “Ali, minha vida acabou”, diz Miriam.

A tragédia

O Estado de Minas, em sua edição de 12 de dezembro de 2016, diz: “Ao que tudo indica, o veículo que se acidentou participava de um racha antes de bater em uma manilha e uma árvore. De acordo com a Polícia Militar, o motorista apresentava sintomas de embriaguez.”

Conta ainda que, segundo relato da Polícia Militar, testemunhas contaram para os militares que o motorista dirigia de forma temerosa, em alta velocidade, e os passageiros estavam sem cinto de segurança, com mais da metade dos corpos para fora da janela. Pouco antes da batida, outro veículo passou correndo pela via, o que levanta a suspeita de que eles participavam de um racha.

O carro só parou depois de atingir uma árvore. Com a batida, a passageira Isadora Pimentel Martins, de 18 anos, ficou presa às ferragens e não resistiu. Já o outro ocupante do veículo que morreu, foi arremessado em direção ao córrego que passa pela avenida. A PM não conseguiu identificá-lo. Roberto Roie Meireles Bahia, de 19, foi levado, inconsciente, para o Hospital João XXIII.

Correndo atrás

Miriam diz que desde esse dia, sua vida se transformou. Sua razão de viver é acompanhar, passo a passo, o caso na Justiça. “Lá se vão quatro anos e não acontece nada. O caso nunca é julgado, mesmo com provas e testemunhas.”

Ela recorda o velório, o sepultamento e os dias que se seguiram à morte da filha. “No velório, um amigo do Rafael, que disse se chamar Daniel, disse que queria falar comigo e contaria tudo o que aconteceu. Foi à minha casa, com sua mãe.”

Tanto no velório, quanto no dia da visita, Miriam tinha a seu lado uma amiga, que testemunhou toda a conversa. “Primeiro, eu disse que ele não precisaria me contar nada, pois isso não traria minha filha de volta. Mas a mãe dele falou para que falasse, sim, a verdade. Que contasse tudo”, diz Miriam.

Ela prossegue: “Perguntei se o Rafael tinha bebido. Ele respondeu que sim, que todos tinham bebido, menos a Isabela. Ela tinha tirado carteira dois meses antes. E ele há cinco. Mas tirou a carteira e já tinha um carro, um Celta, esperando na garagem.”

Miriam conta que tem tudo sobre o acidente guardado, fotos, principalmente. E que acompanha o desenrolar do processo, no 2º Tribunal do Júri, pela internet. E reclama que o caso está se arrastando.

Há dois anos, todos os dias, depois das 16h30, entro no site do Fórum. “No dia 28 de agosto, foi colocado que o processo estava pronto para ir a julgamento. Mas no dia 1º de setembro, tudo mudou. Lá dizia que o juiz aguardava uma juntada de uma carta precatória de uma testemunha do motorista, na cidade de Naviraí, no Mato Grosso do Sul.”
 
Nova surpresa  
 
Ela continuou acompanhando e, no dia 23 de outubro, uma nova surpresa. “Dizia que o juiz não tinha se dado por satisfeito com o que foi relatado pela testemunha e que queria ouvi-la novamente, em nova carta precatória. O juiz não teria entendido bem o que a testemunha relatara.”

Miriam decidiu procurar o 2º Tribunal do Júri e lá conversou com uma funcionária da secretaria, que explicou que o caso pode prescrever. “Ela me disse que o prazo é até 2024.”

Miriam diz que existem provas e testemunhas que atestam a embriaguez do motorista. “Ele tem seis advogados. Eu não constituí nenhum. Acompanho por mim mesma. Só quero que o julgamento aconteça, para que eu tenha alguma paz.”
 
A dor, segundo Miriam, não é só dela e de Sérgio, mas também da família da outra vítima fatal, Leonardo. “Eu não o conhecia. Era amigo do Rafael. Ele ficou desfigurado, tanto que seu caixão - ele foi enterrado em São Paulo -, teve de ser lacrado. Os pais, Iemi e Maurício, sequer quiseram voltar para Belo Horizonte. Mudaram de volta para São Paulo.”

Leonardo, no acidente, teve o corpo cuspido para fora do veículo. Isadora morreu presa às ferragens.
 
 


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