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Estado de Minas PANDEMIA

Bicicletas se transformam em nova ferramenta de trabalho nas ruas de BH

As motorizadas ganham espaço na prestação de serviços de entrega e competem com as motocicletas pelo baixo custo de manutenção. Sem regulamentação e com poucos equipamentos de proteção, riscos do trânsito são bem maiores


21/08/2020 13:30 - atualizado 21/08/2020 14:13

As biciletas motorizadas e elétricas já concorrem com as motocicletas em serviços delivery(foto: Gladyston Rodrigues/EM DAPres)
As biciletas motorizadas e elétricas já concorrem com as motocicletas em serviços delivery (foto: Gladyston Rodrigues/EM DAPres)

Em um mundo cujas premissas da mobilidade e da sustentabilidade são amplamente debatidas, as bicicletas ganham cada vez mais espaço, tanto nas vias urbanas quanto em trilhas e estradas. Diante do desafio do desemprego e da precarização do trabalho, elas estão cada vez mais presentes nos serviços informais de delivery e de "office boy". Os custos são inferiores em relação à manutenção de motos. As motorizadas estão por todas as ruas da cidade.

A bike motorizada utiliza como combustível uma mistura de gasolina e óleo e pode atingir até 50 quilômetros por hora. Já a elétrica não é poluente e usa bateria recarregável, mas sua velocidade máxima não passa de 25 quilômetros. Em ambas, é possível usar o pedal para exercícios físicos. Entretanto, os riscos como ferramenta de trabalho são altos, exigindo atenção redobrada dos pedalantes. Elas já contam com equipamentos incorporados, como o motor elétrico ou gasolina.

Apesar de apresentar uma certa estabilidade em número de acidentes, entre janeiro e julho de 2020, em relação ao mesmo período do ano passado, a possibilidade de ocorrências é preocupante, segundo o gerente assistencial do Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, o cirurgião Rodrigo Muzzi. No HPS, foram atendidas 252 pessoas no primeiro semestre de 2019, contra 192 neste ano (motorizadas ou não). O trauma craniano é a lesão mais frequente, e geralmente leva ao coma ou deixa sequelas, explica o médico.
 
Essa relação aos números nesses dois períodos, o isolamento social deve ser levado em conta, quando foi registrada uma menor circulação de pedestres, carros e ônibus pela cidade. Nos primeiros seis meses do ano passado, foram atendidas 2.280 vítimas de acidente de moto, contra 2.314 em 2020. Ao contrário das motocicletas, as bicicletas, mesmo as motorizadas, não contam com regulamentação efetiva. A Resolução 465/2013, do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), determina que cabe aos órgãos executivos e entidades de trânsito dos municípios regulamentar a circulação da bicicleta elétrica. 
O cirurgião Rodrigo Muzzi explica que o trauma craniano em um ciclista pode ser mais grave que em um motoqueiro . "O capacete não é tão potente quanto de um condutor de motocicleta, que usa também joelheira, luvas mais grossas, calças compridas e blusões. Um acidente com bicicleta motorizada, mais veloz, pode ser ainda mais grave, principalmente quando envolve um outro veículo motorizado."
 
Muzzi recomenda que o condutor de bicicletas tenha alguns cuidados, atenção redobrada no trânsito, e, mesmo não sendo obrigatório, use calças compridas, "mesmo que não seja um tecido mais grosso como um jeans, porque incomoda no caso de pedalar", blusas mais grossas, utilizar apito para sinalização sonora, óculos de proteção e respeitar as normas de trânsito, bem como os pedestres. "A maioria de acidentes acontece por algum tipo de imprudência, do motorista, do pedestre ou de um terceiro motorista." Ele lembra que nas trilhas também ocorrem acidentes graves e geralmente em locais de difícil acesso ao socorro. Para quem gosta dessa prática, não é recomendado ir sozinho.
 

Desatenção e desrespeito

 
Motorista de táxi há 31 anos, Julio Cezar Barbosa Borges, de 50 anos, reclama da desatenção e desrespeito de alguns condutores de bikes motorizadas. "Muitos usam fone de ouvido, não respeitam as leis de trânsito, como sinais fechados, faixa de pedestres, andam na contramão e atravessam cruzamentos sem respeitar preferências. É um risco constante e a gente que trabalha no trânsito vê isso acontecendo o tempo todo."
 
Depois de perder o emprego de repositor em supermercado, no começo do ano, Erik Cristian Hlayzer, 20 anos, decidiu que "não queria mais ser empregado, queria me tornar autônomo". Resolveu seguir os passos de um amigo que já trabalhava com serviços de entrega. Ele reconhece os perigos de trabalhar em uma bicicleta enfrentando um trânsito caótico, mas diz respeitar as leis de trânsito e que se mantém atento a veículos e pedestres. Enfrenta uma jornada diária em torno de dez horas. Mesmo sem direito a férias, plano de saúde, e sem previdência social, considera "não ser um trabalho cansativo e sem pressões físicas e psicológicas. Trabalho mais na região centro-sul e nunca me envolvi em qualquer acidente". Erik gasta em torno de R$ 20 com combustível, e ainda não precisou de manutenção, que considera "bem em conta."


Regras  

 

A autorização para conduzir ciclomotor (ACC) é exigida para as bicicletas motorizadas, cuja velocidade máxima seja superior a 25 km/h, sendo que a circulação só é permitida em ciclovias e ciclofaixas, com uso obrigatório de capacete. Nesses casos, as bicicletas não podem dispor de acelerador ou de qualquer outro dispositivo de variação manual de potência, e devem ter retrovisores, indicador de velocidade, campainha, sinalização noturna e pneus em condições mínimas de segurança.
 
"A ACC não é obrigatória para conduzir as bicicletas motorizadas, que atingem velocidade máxima de 6 km/h em áreas de circulação de pedestres e velocidade máxima de 20 km/h em ciclovias e ciclofaixas. No entanto, a norma determina que esses veículos devem ter indicador de velocidade, campainha e sinalização noturna, dianteira, traseira e lateral, incorporados ao equipamento, além de retrovisores laterais", observa Fernando Pessoa, superintendente de operações da BHTRans. 
 
Belo Horizonte conta com quase 90 quilômetros de ciclovias. A primeira estrutura exclusiva para as bicicletas foi implantada em 2003, na orla da Lagoa da Pampulha, com cerca de 12 quilômetros de faixas. A região conta com aluguel do transporte. Em abril de 2018, a startup Growas  anunciou que bicicletas, espalhadas por algumas regiões da cidade, foram retiradas de circulação para passar por "checagem e verificação das condições de operação e segurança". Em janeiro de 2020, a startup, controladora das empresas de compartilhamento de bicicletas e patinetes elétricos Yellow e Grin, anunciou o encerramento das atividades em Belo Horizonte.


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