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Estado de Minas MEIO AMBIENTE

Nota de R$ 200 vai ajudar a preservar o lobo-guará, apostam biólogos

Imagem do animal vai estampar as cédulas, que serão lançadas este mês. Cerrado mineiro é habitat da espécie em extinção


04/08/2020 04:00 - atualizado 04/08/2020 08:10

Lobo-guará em área de cerrado de Itacambira, no Norte de Minas: população do animal em todo o Brasil é estimada em 24 mil espécimes(foto: Eduardo Gomes/EM/D.A Press)
Lobo-guará em área de cerrado de Itacambira, no Norte de Minas: população do animal em todo o Brasil é estimada em 24 mil espécimes (foto: Eduardo Gomes/EM/D.A Press)
O lobo-guará ganhará o título de espécie da fauna mais valorizada no bolso dos brasileiros ao ter a sua imagem estampada na nova cédula de R$ 200, que entrará em circulação no fim do mês. O anúncio da nova cédula pelo Banco Central, feito em 29 de julho, ao mesmo tempo em que foi alvo de brincadeiras e memes que “bombaram” nas redes sociais, foi comemorado pelos ambientalistas por despertar a consciência para a preservação da espécie, ameaçada de extinção e que tem muita ligação com o cerrado mineiro.

O Parque Nacional da Serra da Canastra, onde fica a nascente do Rio São Francisco, no Centro-Oeste do estado, é importante hábitat da espécie. O lobo-guará também é atração turística no Santuário do Caraça, no parque nacional homônimo, situado na Serra do Espinhaço, entre os municípios de Catas Altas e Santa Bárbara, na Região Central do estado.
 
De acordo com o biólogo e especialista em canídeos Rogério Cunha de Paula, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), estimativas apontam a existência de 24 mil lobos-guarás no Brasil, quantidade preocupante quando se fala em reprodução. "Menos da metade deles consegue se reproduzir, pois grande parte dos indivíduos são jovens ou idosos. Desse total, menos de 5% vivem em ambientes conservados, ou seja, a maioria está em locais impactados pela ação humana", afirma o especialista.
 
Anúncio da cédula de R$ 200, que deverá entrar em circulação no fim do mês (foto: Banco Central/Divulgação )
Anúncio da cédula de R$ 200, que deverá entrar em circulação no fim do mês (foto: Banco Central/Divulgação )
Pesquisa desenvolvida pelo biólogo no Parque Nacional da Serra da Canastra indica que a região da nascente do Rio São Francisco tem a maior densidade da espécie em toda a América Latina. A estimava é de que existam 120 lobos-guarás somente dentro do Parque da Canastra e outros 35 no entorno dessa área, totalizando 155 animais na região da nascente do Velho Chico.
 
Rogério de Paula destaca que o lobo-guará faz parte do Plano de Ação para a Conservação de Canídeos, coordenado pelo ICMBio. Entre as ações específicas para a preservação da espécie estão: a instalação de redutores de velocidade e de passagens subterrâneas, para frear as mortes de animais por atropelamento nas rodovias, “melhoria da relação com proprietários rurais para diminuir a caça e perseguição ao animal” e melhoria das condições de hábitat da espécie.
 
Por ser uma espécie predominantemente de áreas abertas e campestres, o lobo-guará tem grande presença nas áreas protegidas do cerrado, ocorrendo também em muitas partes conservadas de mata atlântica, explica o representante do ICMBio. Mas, devido ao desmatamento, o animal buscou refúgio em outras áreas, sendo encontrado na “periferia do bioma amazônico” e em terras mais altas do Pantanal. Nos Pampas, a espécie se encontra praticamente extinta”.
 
O especialista salienta que a estampa do lobo-guará na nota de R$ 200 será importante para a conservação e divulgação da espécie, que ainda é pouco conhecida da sociedade. “A circulação da espécie na nota poderá trazer grande visibilidade e acreditamos que isso gere maior engajamento de diversos setores para incorporar as ações para melhorar seu estado de conservação. No mínimo, a espécie, junto com seus problemas, passará a ser mais conhecida da sociedade em geral”, acredita Rogério de Paula.
 
A opinião do representante do ICMBio é compartilhada pelo ambientalista Eduardo Gomes, diretor da organização não governamental (ONG) Instituto Grande Sertão (IGS), de Montes Claros, no Norte de Minas. “A divulgação do lobo-guará na nota de R$ 200 é importantíssima do ponto de vista ambiental, porque ele representa muito, não somente a fauna do cerrado, como também as agressões sofridas por esse ecossistema tão importante e o Brasil”, avalia Gomes.
 
O ambientalista observa que o lobo-guará é encontrado em toda a Serra do Espinhaço, sendo visto em lugares como o município de Itacambira, no Norte do estado, onde ele fotografou um exemplar da espécie “passeando” livre na natureza, recentemente. No Norte de Minas, o lobo-guará pode ser visto em áreas de preservação, como as reservas ambientais do Rio Pandeiros e do Vale do Peruaçu (região de Januária), informa o diretor do Instituto Grande Sertão.

Equilíbrio

“O lobo-guará é um agente dispersor de espécies nativas do cerrado (frutíferas). O animal equilibra a cadeia alimentar no cerrado e, mais importante, a sua presença indica que temos um bioma preservado”, afirma Mário Lúcio dos Santos, supervisor da Unidade Regional de Florestas e Biodiversidade Alto Médio São Francisco (URFBio/ AMSF), do Instituto Estadual de Florestas (IEF).
 
Ele lembra que o lobo-guará é uma espécie muito ameaçada, sobretudo pela redução do seu hábitat, por conta do desmatamento. “O cerrado vem sendo substituído pelo plantio de soja e outras monoculturas e também (é derrubado) para a produção de carvão. Isso gera uma pressão sobre a população do lobo-guará e faz com ela esteja criticamente ameaçada”, alerta Mário Lúcio.

Atração turística no Caraça

Exemplar da espécie em uma das aparições que encantam turistas no Santuário do Caraça há três décadas (foto: Tiago Parreiras/Divulgação %u2013 30/7/20)
Exemplar da espécie em uma das aparições que encantam turistas no Santuário do Caraça há três décadas (foto: Tiago Parreiras/Divulgação %u2013 30/7/20)
O lobo-guará ganhou destaque na mídia e nas redes sociais nos últimos dias por causa da sua escolha para estrelar a nova nota de R$ 200. Mas, em um lugar de Minas Gerais, espécimes do animal já são famosos há mais de três décadas. Eles são atração turística no Santuário do Caraça, no parque nacional de mesmo nome, entre os municípios de Catas Altas e Santa Bárbara.
 
O antigo Colégio do Caraça (Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens) sedia, hoje, duas pousadas, a “Santuário e a “Engenho” – que, juntas comportam 230 pessoas, mas, atualmente, em decorrência da pandemia do novo coronavírus, apenas a primeira está funcionando, assim mesmo com 40% da capacidade.
 
Todas as noites, os turistas hospedados no Caraça são contemplados com a visita do lobo-guará. O gerente-geral do Santuário do Caraça, Márcio Mól, explica que a “tradição” existe desde 1982. Na ocasião, relata, algumas lixeiras começaram a aparecer reviradas e um dos padres que viviam no santuário pensou que a bagunça vinha sendo feita por cachorros e passou a acompanhar a situação mais de perto. “Certo dia, ele ficou esperando escondido e descobriu que quem mexia nas lixeiras era o lobo. A partir desse momento ele começou a colocar bandejas de carne nos portões da frente da casa e aos poucos os lobos foram se aproximando do adro da igreja, onde todas as noites os turistas esperam pela visita. Essa prática de alimentar os lobos no Caraça  só persiste até hoje porque o seu hábito de caça não foi comprometido”, assegura Márcio Mól.
 
De acordo com o gerente, atualmente, vivem na área da reserva dois representantes da espécie, um macho e uma fêmea adultos. “Eles costumam se acasalar uma vez ao ano. Quando nascem, os filhotes também aprendem a subir até o adro da igreja. Quando atingem a idade adulta (próximo de 1 ano e 6 meses), o filhote vai brigar com o pai (no caso de macho) e com a mãe (no caso da fêmea) para dominar a área, e quem perde é expulso do local”, descreve Márcio.
 
Ele ressalta a importância da escolha do lobo-guará para a ilustrar a nota de R$ 200. “Essa homenagem é de grande importância para a fauna brasileira. Só o anúncio de que o lobo-guará vai estampar as cédulas já chamou a atenção de todos. Será uma forma de as pessoas conhecerem melhor o animal e iniciar discussões importantes sobre a preservação da fauna brasileira”, observa.
 
Márcio Mól lembra ainda que, ao promover o contato entre os turistas e o lobo-guará, o Santuário do Caraça “exerce importante papel de educação ambiental e conscientização sobre fauna e flora”. “A experiência de presenciar esse animal fora de jaulas e cercas, em seu ambiente natural, induz os turistas a repensar a importância da conservação ambiental para a manutenção das espécies”, acredita o gerente do complexo. (LR)


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