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Estado de Minas CERTIFICADO

Cultura das sempre-vivas em Minas é reconhecida como patrimônio agrícola mundial

FAO inclui flores secas no Alto Jequitinhonha entre os Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial. Primeiro do Brasil, título põe apanhadores em evidência


10/03/2020 06:00 - atualizado 10/03/2020 16:30

Personagens típicos da Serra do Espinhaço, os apanhadores integram o valioso patrimônio cultural que envolve o sistema agrícola(foto: Valda Nogueira/Imagens Humanas)
Personagens típicos da Serra do Espinhaço, os apanhadores integram o valioso patrimônio cultural que envolve o sistema agrícola (foto: Valda Nogueira/Imagens Humanas)


Um título internacional para a região do Alto Jequitinhonha – com a cor do cerrado, beleza das flores e força da cultura. Os municípios de Diamantina, Buenópolis e Presidente Kubitschek ganham reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como integrantes do programa Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (Sipam) – trata-se da primeira experiência com tal destaque no Brasil e quarta na América Latina. Nesse cenário, estão em destaque as famílias apanhadoras de sempre-vivas, personagens típicos da Serra do Espinhaço, cuja parte em Minas se tornou Reserva da Biosfera. A certificação está marcada para amanhã, às 11h, no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em Brasília (DF).

De acordo com a FAO, o certificado visa reconhecer patrimônios agrícolas desenvolvidos por povos e comunidades tradicionais em diversas partes do mundo, totalizando hoje 58 títulos. Com o anúncio oficial de amanhã, o sistema de Minas se torna pioneiro no país e se junta ao seleto grupo na América Latina que inclui o corredor Cuzco-Puno, no Peru, o arquipélago de Chiloé, no Chile, e o sistema de Chinampa, no México. Para as comunidades, a valorização vem se somar a maior visibilidade para favorecer a economia, a turismo e a história.

“Acho que apanho flores desde que estava na barriga 'de' mãe. Mas, para valer, comecei na atividade lá pelos 8 anos”, conta, com o maior orgulho e bom humor da conquista, Maria de Fátima Alves, conhecida como Tatinha, de 40 anos, e moradora de Diamantina. Para ela, trata-se de um reconhecimento importante não só para o estado, como para todos os povos tradicionais do país. “Foi um longo processo, mas que dará força para quem luta e resiste”, ressaltou a integrante da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (Codecex) e a caminho da cerimônia de amanhã no Mapa para aplaudir o primeiro Patrimônio Agrícola Mundial brasileiro.
 
Além da importância econômica, “pois há extração de flores em 30 municípios mineiros”, observa Tatinha, a atividade ultrapassa os limites do uso na ornamentação. “Temos um conjunto complexo, no qual a 'panha' da flor é parte. Na região, se desenvolve a agricultura familiar, o manejo da cultura e outros fatores fundamentais para a soberania familiar (direito de a comunidade decidir seu sistema alimentar e produtivo, definir alimentos saudáveis e culturalmente adequados, produzidos de forma sustentável e ecológica)”.
 
Ela complementa:“Temos também as manifestações religiosas, as festas. Afinal, a 'panha' de flores começou há mais de um século nesta região e atualmente seis comunidade em três municípios se dedicam a ela, embora exista um universo de grande dessa flor”, diz Tatiana, que devido a compromissos assumidos na cidade, colhe sempre-vivas “apenas de vez em quando”. O processo da candidatura foi iniciado no segundo semestre de 2017 e, observa Tatinha, teve a participação fundamental, para “construção da documentação (plano de construção dinâmica)” da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG, vinculada ao governo estadual.

Flores do Vale


A 'panha' das flores é parte de um sistema complexo de agricultura fundamental para as famílias(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press - 8/4/13)
A 'panha' das flores é parte de um sistema complexo de agricultura fundamental para as famílias (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press - 8/4/13)
No caso específico de Diamantina, há sabor de dose dupla, pois, em dezembro, o antigo Arraial do Tijuco completou 20 anos como Patrimônio da Humanidade, título concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Em Minas, já entraram para a seleta Lista do Patrimônio Mundial o Centro Histórico de Ouro Preto (1980), pioneiro no país sob chancela da Unesco, o Santuário Basílica Bom Jesus de Matosinhos (1985), em Congonhas, ambos na Região Central, e o Conjunto Moderno da Pampulha, em Belo Horizonte (2016).
 
O prefeito de Diamantina, Juscelino Roque, acredita que, a partir do certificado, ocorra maior “valorização da arte e da vida de um povo humilde e cheio de tradições”. O prefeito de Buenópolis, Célio Santana, também irá a Brasília, na companhia da secretária municipal de Cultura, Turismo, Lazer, Esporte e Meio Ambiente, Ana Luíza Pereira Arcanjo. Para a secretária, a certificação poderá ajudar a regularizar a atividade de muitos apanhadores, que, nesse município, fazem a extração no período de abril a julho, montando os “ranchos” em áreas particulares dentro do Parque Nacional das Sempre-Vivas. “Os apanhadores vivem de um recurso da natureza, no cerrado, que valoriza a cultura local”, explica Ana Luíza.
 
Também seguindo para Brasília, o prefeito de Presidente Kubitschek, Lauro de Oliveira, põe fé na valorização do turismo, pois a certificação representa um cartão de visitas e abre portas para as belezas naturais da região. “É um título internacional. Em nosso município, as famílias apanhadoras vivem num quilombo de raiz, muito antigo, daí a importância desse reconhecimento para a comunidade”, disse o chefe do Executivo.

Destaque global


Integrantes da paisagem do cerrado, as flores secas são exportadas para os EUA, a Europa e a Ásia(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press - 17/4/18)
Integrantes da paisagem do cerrado, as flores secas são exportadas para os EUA, a Europa e a Ásia (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press - 17/4/18)
De acordo com a FAO, os sistemas de patrimônio agrícola globalmente importantes (em inglês, Globally Important Agricultural Heritage Systems – Giahs) são “paisagens impressionantes de beleza estética que combinam biodiversidade agrícola, ecossistemas resilientes e um valioso patrimônio cultural”. Situados em locais específicos ao redor do mundo, ele fornecem de maneira sustentável vários bens e serviços, segurança de alimentos e meios de subsistência para milhões de pequenos agricultores.
 
Dizem os especialistas da FAO: “Infelizmente, esses sistemas agrícolas estão ameaçados por muitos fatores, incluindo mudanças climáticas e aumento da competição por recursos naturais. Também lidam com a migração, resultando no abandono das práticas agrícolas tradicionais e na perda de espécies e raças endêmicas. Esses sistemas agrícolas ancestrais constituem a base para inovações e tecnologias agrícolas contemporâneas e futuras, e sua diversidade cultural, ecológica e agrícola ainda é evidente em muitas partes do mundo, sendo mantida como sistema único de agricultura”.
 
Os Giahs localizados na China, Filipinas, Tanzânia, Emirados Árabes Unidos, Irã e República da Coreia também são Patrimônio Mundial reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Desde a criação em 2002, o programa construiu “uma forte base local e reputação internacional nos campos do patrimônio agrícola e do desenvolvimento agrícola”.

Homens, mulheres... 


Os apanhadores de sempre-vivas, como se autodenominam, têm identidade cultural de pertencimento a um amplo território e à prática sociocultural desenvolvida em meio a áreas de campos rupestres (campos de altitude) do cerrado

... e  as flores 


Enquanto os consumidores denominam todas (as flores) como sempre-vivas, termo popularizado no comércio regional e nacional, no mercado internacional de artigos ornamentais, o termo flores secas é mais comum. Trata-se de um produto em grande medida exportado para Estados Unidos, Europa e Ásia.

Pra não dizer que não falei de flores

No meio do Espinhaço
Dona Jovita viu um parque
Há um parque no meio do caminho

Sentiu as retinas fatigadas, muito.
Sem afastar-se, deu as mãos a Carlos
Há um parque no meio do Espinhaço

As flores continuam sempre vivas
Panha de flor, roça de toco,
Pequi, cagaitê, capa-de-coco

O de antes, o por vir
Espinhaço divisor
Jequitinhonha, São Francisco abaixo

Campina-gigante, estrepa-nariz
Coinha, janeirona, chuveirinho
Brejeira, pé-de-ouro

Mata dos Crioulos, Macacos, Inhaí,
Vargem do Inhaí...
Lugar de águas

Braúnas, São João da Chapada
Onde o almoço não é pra a gente só
E o sabiá no quintal come a laranja

Campina, a lapa, a Chapada
Desincomodado é onde nós fica
A Mata do Izidoro

Dona Jovita, das raízes do lugar
O entertimento das crianças no tempo da panha
E a lapa é casa

As apanhadoras conhecem os caminhos
Do sertão à serra rebrotam sempre-vivas
Antes do parque e depois dele

Pé de Serra, Lavra, Raiz,
A campina de manhã orvalhada
O fogo no tempo certo pra não requeimar o chão

Guardar a semente
Crioula
O gado na solta

As panhadeiras conhecem os caminhos
Do sertão à serra rebrotam sempre-vivas
Antes do parque e depois dele

A Serra do azul mais escuro
Embaralhando-se com o céu
O sertão. Rosa

O sobrevoo deu o lugar da cerca-muro
No exato instante da panha de uma flor
A aeronave não reparou as mãos que a colhem

Há uma pedra no meio do caminho
De Olhos D’Água a Buenópolis
Bocaiúva a Diamantina

As borboletas ainda voam de uma flor a outra
Está decretado que devemos preservar as sempre-vivas
As apanhadoras não devem passar por nova ou velha trilha alguma

Panhando flores, o ser
Exato puro
Desfiando a cada passo seu caminho

Às apanhadoras é concedido lembrarem-se das flores
Sempre vivas
Ou do tempo que o vento ao léu soprou

O parque à sua frente.
Para além da cerca-muro que sobe aos céus
Recortando a vida do sertão à serra

É preciso avisar as borboletas
Temos de interromper seus voos
A proteção total foi decretada

O pólen não deve ser levado de uma flor a outra
No interior dos muros o parque cuidará da vida
Alguma tecnologia permitirá sentir de longe seu perfume

Do Gerais à serra
As abelhas devem ser investigadas
Decretou-se, ali, um não-lugar

As apanhadoras não podem colher flores
Seu ofício não deve ser exercido
Agora não é tempo de polinizar sua poesia

Ana Carolina não deve aprender com sua mãe,
que é mistura da serra e do sertão
Tatinha não pode panhar flores

Nem a avó, de lá da vertente do Espinhaço
Nem o avô, que é de cá, pra Diamantina
Ou Lorico, que conhece a Chapada a palmo

Nem Dona Leia, moradeira nascida e criada
Em meio às belezas. Das raízes,
que panham. Outro preservou não

Seu Imir e sua Vargem do Inhaí
Rama de mandioca pode não
João-velho, as penas verdes, também não

É preciso comunicar os namorados
Sobram flores nas floriculturas
É proibido subir ao campo São Domingos

Há um parque no caminho
As flores estarão sempre vivas
É preciso interromper o diálogo da panhadeira com suas flores

Está decretado que não se deve panhar flores
Tão leve gesto não se conjuga com dever
Tampouco com o ser, quando por dever deixa de ser

Apanhadoras são.
Não seriam se não panhassem sempre-vivas
O estender de suas mãos é a própria flor

O sol pretende sombrear no chão o chapéu do panhador
A namorada espera receber sua sempre-viva
Mas o caminho está fechado além da cerca

Há lembretes espalhados
Apanhadoras não podem colher flores
Jesus-meu-deus se interroga se deve contornar o parque

Todas as multas devem ser cobradas
Só de longe se pode ouvir o trinca-ferro
Roça de toco pode não

A flor panhada não existe sem as mãos que panham
As sempre-vivas permanecerão sempre vivas
As flores não se desprenderão do solo

O parque há de reinventar a língua
O apanhador passa a ser o que não panha flores
Os dicionários revogarão os verbetes em contrário

Se joão-pobre for em direção ao tom das flores,
será inevitável interromper seu voo
Não é permitido ir ao inesperado da cor mais viva de uma flor

Há implausíveis jeitos de subir a encosta
Mas são bastantes os caminhos que já foram
Na trilha que seria existe um parque

É preciso notificar peito-roxo da rota prefixada
Mesmo se uma flor mais pálida necessitar de atenção
Não será possível mudar o padrão aleatório do seu voo

No parque não há mais caminhos
Foi encontrado o algoritmo do interior dos muros
O gesto da panha de uma flor deve ser guardado na memória

Os apanhadores palmilham demasiadas trilhas
Não se deve permitir a casualidade de sua trama
O algoritmo determina a impossibilidade dos passos

Tranquilizem-se os bichos e as cidades:
As flores estarão sempre vivas
É declarado extinto o estender das mãos do panhador de flores

Poderemos acessar fotos de flores preservadas
Será possível agendar uma visita às sempre-vivas
Os carimbos imprescindíveis serão apostos

Será mapeado o genoma da revoada das araras
Não se perderá lembrança do joão-congo nem das flores
Elas ainda estavam vivas quando o último apanhador as colheu

Edmundo Antonio Dias, procurador


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