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Estado de Minas VARGEM DAS FLORES

Famílias removidas de área de represa enfrentam incerteza sobre a volta para casa

Retirados do local devido ao risco de inundação, moradores do entorno de Vargem das Flores, em Betim, não sabem nem se poderão voltar a viver em suas moradias após o período chuvoso


postado em 21/02/2020 06:00 / atualizado em 21/02/2020 07:55

%u201CAté agora não disseram o que será da gente%u201D, reclama Valeriana dos Santos diante da casa, marcada pela Defesa Civil, que teve que abandonar(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
%u201CAté agora não disseram o que será da gente%u201D, reclama Valeriana dos Santos diante da casa, marcada pela Defesa Civil, que teve que abandonar (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


“Não sei como vou fazer. Se volto, posso ficar debaixo d'água, mas minha vida está parada até que resolvam se vou poder morar na minha casa de novo”. O desabafo é do pedreiro Carlos José Silva, de 23 anos. Como ocorre com ele, a possibilidade de não poder retornar nunca mais às suas casas atormenta a vida das 51 famílias que foram removidas de áreas de risco de inundação devido ao fato de a Represa Vargem das Flores, operada pela Copasa, estar com nível acima de sua capacidade, como mostrou ontem a reportagem do Estado de Minas. O próprio diretor de operação da Copasa, Guilherme Frasson Neto, afirmou para a reportagem que não sabe ainda se as pessoas removidas, sobretudo da Vila das Flores, em Betim, na Grande BH, poderão regressar após o período chuvoso. A Prefeitura de Betim e o Ministério Público (MP) também ainda não definiram o destino das pessoas removidas.
 
Com essa incerteza, várias pessoas estão sem saber se devem se instalar de vez nas moradias provisórias que a Copasa providenciou ou se passam o dia na casa em área de risco de inundação para que seus imóveis e pertences não sejam saqueados. “É importante deixar claro que não está definido se no caso daquelas pessoas em locais mais críticos e que foram para hotéis e casas alugadas a decisão de retorno será para a área irregular (em que estavam). Se em 2021 houver chuvas excessivas, vai ocorrer um vertimento (quando a água passa da capacidade do reservatório e o excedente é eliminado por dutos) natural e todo mundo vai ter de ser removido de novo? Não sei se isso vai acontecer”, afirma o diretor de operação da Copasa.

Em meio à indecisão, a Copasa conseguiu reduzir em 1,1 ponto percentual o nível da barragem, registrando ontem um volume de 98,9% de sua capacidade máxima, depois de seis dias trabalhando com a represa acima da capacidade. Tal situação tinha levado a água do barramento a verter o que exigiu o emprego de bombas e de descargas que removem 6 mil litros por segundo, o mesmo volume captado no reservatório Rio Manso, o maior da Copasa na Grande BH. Tudo que sai da represa invariavelmente é injetado no Ribeirão Betim, que passou do porte de um pequeno córrego para o de um rio de correnteza forte, capaz de destruir pontes, invadir casas e vias públicas, sobretudo em caso de chuvas fortes como as previstas para o carnaval, acima de 100 milímetros.
 
“Se tiver uma chuva forte, acima de 100 milímetros, o excedente de água vai verter de novo para o rio, pois o barramento foi feito para isso. Abrimos descargas e colocamos bombas, mas ficou sete anos sem verter e nesse tempo as pessoas foram construindo na área de várzea do rio. Com a projeção de chuvas atípicas, tivemos uma preocupação e também a prefeitura e a defesa civil de identificar se existiam pessoas na área de inundação. Tinha gente morando praticamente dentro do rio”, afirma Neto.
 
Após as remoções, os labirintos de vielas apertadas e barracões de tijolos sem reboco da Vila das Flores perderam o movimento intenso de pessoas indo para o trabalho, estudando, empinando pipa e pedalando bicicletas. A área mais baixa do bairro, em Betim, na Grande BH, se tornou um lugar silencioso, com ares de abandono onde perambulam sujeitos suspeitos e cães que foram deixados pelas 51 famílias que saíram de suas casas situadas na várzea do Ribeirão Betim, um manancial sob risco de inundações com a Represa de Vargem das Flores operando no limiar de sua capacidade máxima.
 
As únicas lembranças dessa situação de perigo na comunidade abandonada são as numerações que a defesa civil pintou com tinta spray vermelha nas casas que se encontram nas áreas de risco de inundação pelo Ribeirão Betim. O maior medo da ajudante de obras Valeriana dos Santos, de 31 anos, é que ela e três netos não possam mais voltar para suas casas. Segundo Valeriana, morar num hotel com crianças é uma situação de extrema precariedade. “Para tirar a gente foi rápido, mas até agora não disseram o que será da gente. Estou no hotel no Centro de Betim, mas queria ficar na minha casa”, disse ela, que volta e meia precisa retornar à área de risco de inundação para buscar os filhos. “Não queria sair não, mas assusta mesmo. A água entrou até o meu terreiro e me deixou presa, sem lugar para sair de casa. Para meus vizinhos foi pior. Alguns perderam tudo e já deixaram a porta do barraco aberta porque não sobrou nada mesmo”, conta.

Futuro


A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semmad) de Betim informou que liminar concedida pela Justiça em 28 de janeiro estabelece medidas emergenciais visando à segurança da população. “Existem tratativas junto ao MP para definição conclusiva quanto à situação das famílias que moram na mancha de inundação, eventualmente causada pelo vertimento da Bacia de Vargem das Flores (mancha essa apontada pela Copasa)”, informou a administração municipal.
 
A Semmad afirma que as ocupações irregulares são uma preocupação da Prefeitura de Betim, principalmente em Áreas de Preservação Ambiental (APAs), como no caso da região da Várzea. “A Semmad tem intensificado a fiscalização, garantindo a segurança dos munícipes e a preservação ambiental”.


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