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Estado de Minas O CASO BACKER - A HISTÓRIA COMO VOCÊ AINDA NÃO OUVIU

Caso Backer: ''Isso não é de agora. É de bem antes'', diz paciente internado em fevereiro de 2019

Casos que relacionam consumo de cerveja a sintomas da síndrome nefroneural antes do período investigado podem revelar histórico de contaminação bem mais amplo. Este é o tema do último episódio de O caso Backer, série especial em podcast do EM


postado em 14/02/2020 06:00 / atualizado em 26/02/2020 19:21


Embora a força-tarefa que apura a relação entre pessoas intoxicadas por dietilenoglicol e as cervejas da Backer investigue casos a partir de outubro de 2019, a extensão da contaminação pela substância tóxica pode ser bem anterior a esse período. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) analisa situações de outros pacientes que apresentaram anteriormente quadro de insuficiência renal aguda e alterações neurológicas e relatam ter consumido bebidas da marca. Essas pessoas ficaram sem diagnóstico preciso. A associação da intoxicação por dietilenoglicol no início de janeiro com mortes e internações desde o fim de 2018 é o tema do último episódio da série especial em podcast O caso Backer, do Estado de Minas. As famílias tentam comprovar as similaridades dos quadros, mas encontram uma dificuldade. Polícia Civil e Secretaria de Estado de Saúde (SES) trabalham, formalmente, com casos a partir de outubro de 2019. Até agora, são 34 os pacientes no inquérito policial, sendo seis mortos no período.


 
De acordo com a assessoria de imprensa o Ministério Público estadual está recebendo famílias de pacientes, entre eles de alguns que não resistiram aos sintomas. O processo corre em sigilo e os integrantes do MP não revelam qual será o desdobramento desses casos, que ainda não estão no bojo das investigações.
 
“Junto com a promotoria, a gente vai relatar todas essas informações e rever casos anteriores, que seja de 2018. Não se tem ideia de quando começou essa intoxicação. Quando foi a primeira cerveja que saiu contaminada? Ninguém sabe, ninguém consegue dizer. Nós vamos dizer, pelo menos com os nossos dados clínicos, que isso não é de agora. É de bem antes disso”, afirma o engenheiro de redes Vanderlei de Paula Oliveira, de 37 anos, que ainda faz sessões de hemodiálise três vezes por semana.

Vanderlei ficou internado de 15 de fevereiro a meados de julho de 2019, sendo três meses no Centro de Terapia Intensiva (CTI), com sintomas como insuficiência renal, que avançaram para paralisia. Ele estava consumido cerveja diariamente, conforme consta no prontuário médico.
 
BRUMADINHO A história dele começa em janeiro de 2019, com a tragédia de Brumadinho. “Presto serviço para a Vale e tinha amigos que trabalhavam do meu lado e que faleceram lá. Desde a primeira notícia, fiquei muito abalado, não tive muito controle emocional sobre isso e comecei a beber todos os dias, entre três e quatro garrafas. A Belorizontina estava em promoção e acabei comprando. Daí em diante, entre 26 de janeiro e 15 de fevereiro, estava bebendo todos os dias a Belorizontina”, relata.
 
O diagnóstico impreciso, de um tipo raro da doença autoimune Guillan-Barré, foi revisto pelos médicos dele quando começaram as investigações relacionadas às cervejas contaminadas da Backer. O nefrologista de Vanderlei, Fábrico Augusto Marques Barbosa, um dos que ajudaram a diagnosticar casos atuais da intoxicação por dietilenoglicol, avisou à Saúde estadual sobre quadro do paciente, compatível com a intoxicação.

 

Quando a primeira cerveja saiu contaminada? Ninguém sabe. Nós vamos dizer, pelo menos com os nossos dados clínicos, que isso não é de agora. É de bem antes

Vanderlei de Paula Oliveira, engenheiro de redes, internado no ano passado com quadro compatível com o da contaminação


 
O aposentado Clóvis Artur Reis, de 69, deu entrada no hospital em 23 de maio de 2019 e só saiu em 14 de janeiro de 2020, com insuficiência renal. Foi imediatamente encaminhado ao CTI e logo desenvolveu também sintomas neurológicos, com quadro de paralisia que chegou a todo o corpo. Hoje, aos poucos, recupera as funções motoras e reaprende a falar. Como a função dos rins segue comprometida, ele faz diálises semanais.
O aposentado Clóvis Artur Reis consumiu cerveja e ficou internado de maio de 2019 até o mês passado, mas polícia só investiga casos suspeitos a partir de outubro de 2019 (foto: arquivo pessoal/Reprodução)
O aposentado Clóvis Artur Reis consumiu cerveja e ficou internado de maio de 2019 até o mês passado, mas polícia só investiga casos suspeitos a partir de outubro de 2019 (foto: arquivo pessoal/Reprodução)
Depois de oito meses de internação, ele estava com o processo de alta em andamento quando viu, pela televisão, notícias que pareciam ajudar a completar um quebra-cabeça que ele, a família e os médicos tentaram montar por oito meses. As notícias sobre a contaminação fizeram com que ele se lembrasse da cerveja Backer que consumiu em seu sítio logo antes de ser internado.
 
“Meu diagnóstico não foi fechado e vou agora pedir uma revisão dos prontuários. Minha casa virou um hospital, porque estou em situação de cuidados domésticos, e preciso fazer ainda a hemodiálise. Agora tenho de aprender a ficar sem o respirador e recuperar os movimentos”, conta.

ANGÚSTIA O EM conversou também com a família de um homem de 62 anos, que faleceu em abril no ano passado, cujos parentes procuraram a Polícia Civil prestar depoimento sobre a morte, que relaciona consumo de cerveja e sintomas da síndrome nefroneural. A falta de assistência aumenta a angústia. “Liguei na Vigilância Sanitária, fui à Polícia Civil prestar depoimento, mas não obtive apoio, por se tratar de caso antigo”, comenta a mulher da vítima, que prefere não se identificar enquanto os laudos médicos não são concluídos. “O nefrologista que o acompanhou no hospital, com o responsável pelo Instituto de Nefropatologia, compararam a biópsia do meu marido com a dos atuais intoxicados e concluíram que ele também foi intoxicado, e que podemos também fechar o diagnóstico”, conta.

Polícia promete ampliar apuração

De acordo com a Polícia Civil, a corporação atua de forma coordenada com a Secretaria de Estado de Saúde (SES), que orienta a notificação a partir de outubro 2019. Até o momento, nenhum caso anterior a este mês está sendo investigado. Apesar disso, a instituição informa, em nota, que “o cidadão que tenha consumido o produto e se sinta prejudicado com a ingestão da bebida pode registrar um boletim de ocorrência”. E também ressalta que esse registro será apurado durante a investigação. Entretanto, não esclarece quantos são os casos em análise que se enquadram nessa situação.
 
Segundo a presidente da Sociedade Mineira de Nefrologia, Lilian Pires de Freitas do Carmo, médicos estão relatando casos antigos sem diagnóstico, compatíveis com a intoxicação por dietilenoglicol. Como a nota técnica da secretaria para a intoxicação por dietilenoglicol se refere a casos até outubro de 2019, os especialistas foram orientados a não usar a ficha da notificação. “A gente envia um relatório detalhando o caso”, explica. A médica avisou a secretaria sobre um caso de novembro de 2018.
 
A Saúde estadual aponta que, até o momento, a notificação vale para pessoas que ingeriram cerveja da Backer a partir de outubro de 2019 e tiveram sintomas gastrointestinais, associados a alterações das funções renais e problemas neurológicos em 72 horas. A pasta ressalta, entretanto, que a definição de caso suspeito pode ser revista. “Os casos notificados para a secretaria com sinais e sintomas semelhantes ao quadro de intoxicação por dietilenoglicol e com relato de exposição em data anterior a outubro de 2019 estão em monitoramento”, informa. Segundo a pasta, para serem considerados casos suspeitos de intoxicação por dietilenoglicol, é necessário confirmação da exposição e exclusão de outras causas para o quadro clínico apresentado.





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