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Estado de Minas CARNAVAL

Guia condena fantasias

Cartilha do Conselho Municipal de Igualdade Racial recomenda evitar símbolos indígenas, peruca blackpower e que homem não se vista de mulher. Ideia seria combater preconceito


postado em 14/02/2020 04:00

Gabriel Ronan e Aissa Mac*

O carnaval de Belo Horizonte ganha mais blocos, mais gente nas ruas e mais polêmicas. As fantasias estão no centro do debate agora, com sugestões de restrições a trajes já consagrados, como cocar ou peruca blackpower. Ontem, o Diário Oficial do Município (DOM) publicou cartilha elaborada pelo Conselho Municipal de Igualdade Racial, que traz mais uma vez a discussão quanto à apropriação cultural dos foliões sobre adereços ligados a diferentes povos. A proposta é combater a prática de uso de elementos e vestimentas que fazem parte da cultura dos indígenas, negros, ciganos, religiões de matriz africana e da população LGBT. A recomendação é dividida em sete tópicos, que tratam de pautas como marchinhas, violência, racismo, machismo, o uso de símbolos indígenas, ciganos e negros por quem não pertence a esses grupos e até mesmo o que o texto chama de “transfake”, os homens que se vestem de mulher, mas não são transexuais.
 
Para Lira Ribas, fundadora do bloco Corte Devassa, o uso de adereços tradicionalmente ligados às mulheres serve para reforçar o sexo feminino como inferior. “Ao longo da história, tudo que era ligado ao feminino sempre foi negado. Tanto mulheres quanto homens afeminados, quanto homens trans, tudo que é feminino era condenado. E o machismo estrutural e a misoginia estão muito relacionados com o não feminino. Quando um homem heteronormativo se veste de mulher, ele faz isso diminuindo o que é ser mulher. Eles podem achar que isso é uma homenagem, mas não é”, opina a carnavalesca.

MEDIDA CONDENADA Na contramão está a tradicional Banda Mole, que completa 45 anos de desfiles em Belo Horizonte. Historicamente, a programação sempre sustentou homens vestidos de mulheres como sua marca. Para Luiz Mário Ladeira, o “Jacaré”, um dos fundadores, o conselho exagerou em suas recomendações. “A gente tem visto que nesses últimos tempos existe um movimento crescente, e muito positivo, no sentido de evitar a homofobia, o racismo, realmente inadmissíveis. Ocorre que algumas pessoas exageram. Essa instrução do conselho é descabida. Eles demonstram que não conhecem a história do carnaval brasileiro”, critica Jacaré.
 
Ele observa que a Banda Mole sempre acolheu pessoas de todos os gêneros e orientações sexuais. “Não foi a Banda Mole que criou isso (homem vestir de mulher). É da tradição do carnaval. Se acabar com isso, você está limitando a festa. Também sempre acolhemos os transexuais, que nunca nos deram nenhum tipo de problema. Essa alteração não vai alterar nada pra gente”.
 
Procurada, a Secretaria Municipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania (Smasac), à qual Conselho Municipal de Igualdade Racial está vinculado, informou que as recomendações foram feitas pelo conselho e que não caberia à prefeitura se posicionar.

 

Veja trechos 


» Respeito à religiosidade
“Outra bola fora é usar roupas próprias das religiões de matriz africana ou de orixás, como Iemanjá, de forma descontextualizada. Exigimos respeito à nossa cultura e ao que nos é sagrado. Vestimentas e ornamentos indígenas compõem sua tradição. Em muitas culturas o cocar é sagrado e próprio para ritos especiais. Usar objeto sagrado de maneira recreativa é reduzir a cultura indígena ao exótico!”

» Marchinhas na mira
“‘Marchinhas são tradição. Porém, algumas perpetuam o racismo velado em expressões de bestialização e hipersexualização do corpo negro. ‘Teu Cabelo não nega’, ‘Mulata Bossa Nova’ e ‘Negra Maluca’ materializam o imaginário social pejorativo em estereótipos como o da mulata e do negão do pau grande. Fantasiar-se de mulher negra empregada doméstica ou enfermeira sexy é conceber a mulher negra como objeto sexual. Basta!”

» Não ao racismo
“Blackface não é fantasia! É técnica teatral usada para pintar pessoas brancas de negras de maneira caricata. Carrega a simbologia do apartheid. Nosso cabelo e nossos símbolos sagrados não são adereço de Carnaval!: O uso de perucas blackpower, ‘nega maluca’, ‘dreadlocks’, ‘touca com tranças’ entre outras representativas das culturas africanas, tem sido prática corriqueiro e desagradável. Traduzem se como desrespeito aos símbolos da resistência negra.”

» Estereótipo cigano
“Você conhece a cultura dos povos ciganos? Provavelmente, muitas pessoas responderão que não. O desconhecimento é um dos fatores da marginalização dos povos ciganos, os quais lutam cotidianamente para ser tratados com dignidade. Ser maltratada na rua, lojas, bancos e serviços públicos é algo constante em seu cotidiano. A gozação com o uso bandana, lantejoulas douradas e outros elementos associados à cultura cigana fortalece estereótipos racistas.”

» Machismo e LGBTQIfóbicas
“Homens vestidos de mulher (e até mesmo de noiva) estão por todas as cidades do país no Carnaval. Além de ser machista, é desrespeitoso com as mulheres, uma vez que se representa a imagem feminina sempre de maneira jocosa. Essa “moda” é preconceituosa contra as pessoas trans e apenas reforça os estereótipos de gênero e relações de poder. Respeitar os direitos da população negra LGBTQI vai ao encontro da importante percepção desse povo.”

» Criminalização e violência
“No carnaval é possível e urgente não se omitir diante de violências sofridas por jovens negros e pobres que tentam ter o direito de circular pela cidade. Nos casos de violência institucional e abordagens truculentas pelas forças policiais, você tem o poder de acionar a ouvidoria e relatar a situação indicando dia, hora e local do ocorrido (a identificação do agente da violência também é importante). O Brasil é um dos países com maior número de homicídios de jovens negros.”


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