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Praça Sete: a história urbanística, cultural e econômica de uma referência em BH

Espaço nasceu com a missão de centralizar, distribuir e simbolizar as dinâmicas da capital moderna, mas se consolidou como marco simbólico de manifestações políticas


postado em 16/12/2019 04:00 / atualizado em 16/12/2019 08:02

(foto: Alexandre Guzanshe/EM )
(foto: Alexandre Guzanshe/EM )


Situada no coração do Centro Tradicional de Belo Horizonte, a tão referenciada Praça Sete recebeu esta denominação em 1924, com a instalação do obelisco comemorativo dos 100 anos da independência do país. Sua privilegiada localização na zona urbana principal integra o projeto urbanístico concebido pela Comissão Construtora da Nova Capital, liderada, no começo, pelo engenheiro Aarão Reis. Inicialmente designada Praça Doze de Dezembro, em homenagem à data da fundação da capital (1897), o espaço tinha como missão principal centralizar, distribuir e simbolizar as dinâmicas próprias da cidade moderna. O fator vocacional privilegiado, favorecido pelo desenho urbanístico, foi definido pela comissão: Bairro Comercial. Assim, recortada pelas ruas Rio de Janeiro e Carijós e as avenidas Afonso Pena e Amazonas – respectivamente vetores Norte/Sul e Leste/Oeste da cidade –, a praça iniciou sua destinação.

Desde seus momentos seminais, o lugar e entorno demarcaram, com maestria, a mediação espacial, funcional e simbólica da malha com os dois pontos estratégicos inaugurais: a Praça da Estação, ponto de chegada e de integração fundamental, e a Praça da Liberdade, o centro de poder do município e do estado. Neste contexto, nasce toda uma morfologia ocupacional, social, cultural aliada aos serviços urbanos nas primeiras décadas do século 20. Esses viriam a estruturar a economia moderna da capital, que se materializava em um paisagismo aconchegante e bucólico, aliado às arquiteturas assobradas requintadas. De inspiração na academia francesa de belas artes, são exemplo edificações como o Banco Hipotecário e Agrícola e o Banco Mineiro da Produção.

Com o passar das décadas, os serviços e comércio, bares, cafés, restaurantes, hotéis, serviços públicos e, especialmente, os financeiros introduzem um particular adensamento nas áreas circundantes e nos quadrantes contíguos ao local. E, na composição da fisionomia dessa paisagem, emerge toda uma trama social e política que transformará a praça em um local exponencial da sociabilidade e suas derivações.
Na experiência cotidiana, a praça como lugar dos intercâmbios por excelência alcança as a condição de palco das manifestações políticas. Essas têm seu marco introdutório em 1912, com a greve dos operários e depois de outras categorias lideradas pelos servidores públicos, que elegeram a praça como seu símbolo de luta e reivindicação. Em seguida há registros de manifestações públicas por ocasião da entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, em 1917. A Praça 12 de Dezembro e o Centro se institucionalizam como centralidade cristalizada da expressão política.


Durante a década de 1930, essas imediações do Centro receberam modificações substantivas em relação à paisagem urbana e arquitetônica. O patamar de ocupação dos quarteirões pautado pela escala humana se renova e tem início o processo de verticalização do Centro. A praça, já denominada Sete de Setembro, integra também o rotor e abrigo dos bondes e de uma massa arbórea paisagística, que emoldura estabelece uma continuidade com os canteiros da Avenida Afonso Pena.

E com essas inovações, hábitos se evidenciam no cotidiano dos moradores, entre eles a prática do footing nas proximidades dos cinemas. O Cine Brasil, construído em 1937 na praça, com sua arquitetura art-déco, inaugura uma segunda geração de edifícios que culminam, nas décadas subsequentes, com a renovação definitiva da arquitetura do lugar. Com as novas demarcações no espaço, proliferam os bares, cafés, leiterias, confeitarias. Esses e os cinemas são eleitos, naquele período, entre outros serviços, os principais fatores atrativos do centro comercial.

A chegada do movimento artístico do modernismo, presente em Minas a partir de meados da década de 1940, registra simultaneamente o final dos bondes e a presença progressiva dos sistemas transporte coletivo (ônibus) e individual (automóvel). Por meio do então prefeito e depois governador Juscelino Kubitschek, chega a BH o memorável e respeitado arquiteto Oscar Niemeyer. Além da fundamental contribuição com o conjunto arquitetônico e paisagístico da Pampulha, Niemeyer construiu na Praça Sete a nova sede do Banco Mineiro da Produção (Bemge), inaugurado em 1953.

Ainda na mesma década, são inaugurados na praça o Edifício Clemente de Faria, o Banco da Lavoura, projeto do importante arquiteto Álvaro Vital Brasil. E, em seguida, outros dois relevantes edifícios estarão presentes na praça: o Helena Passig, projetado pelo renomado arquiteto e professor da Escola de Arquitetura da UFMG Raphael Hardy Filho, e o Joaquim de Paula, inaugurado em 1959 e projetado por Ulpiano Muniz.

A Praça Sete de Setembro, palco de acontecimentos memoráveis da capital belo-horizontina, se consolida também nas décadas de 1960 em diante como um marco simbólico das manifestações políticas, que atestam o direito da cidade à reivindicação. Por fim, vale precisar que a Praça Sete congrega para si uma síntese metafórica das dinâmicas econômicas e das modulações diversas do social, cultural e político da capital. Por isso, uma legenda que vale a pena rememorar.

(*) Professora da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)


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