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Estado de Minas ADOÇÃO TARDIA

Após matéria do EM, jovem de 18 anos é adotado por família de Santa Catarina

Robson, que vivia em abrigo em Belo Horizonte, ganha pai, irmão e novo sobrenome. 'Agora posso pensar no futuro', disse o rapaz, ao comemorar a adoção tardia


postado em 23/08/2019 06:00 / atualizado em 23/08/2019 07:45

Empresário Fábio Anklam ao lado dos filhos adotados Robson, mineiro, e Leandro: 'Nasci para ser pai', afirma(foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)
Empresário Fábio Anklam ao lado dos filhos adotados Robson, mineiro, e Leandro: 'Nasci para ser pai', afirma (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)


“Ter uma família é maravilhoso”. Com entonação de alegria, a frase entre aspas vem de um jovem que, há poucos meses, confessava a maior tristeza: “Não ter uma família me dói”. Morando a maior parte dos seus 18 anos, completados em 19 de junho, entre a desarmonia da casa materna e abrigos, o mineiro de Belo Horizonte mudou de cidade na terça-feira da semana passada e ganhou sobrenome diferente na certidão. “Estou muito feliz, pois posso, agora, pensar no futuro, cursar faculdade, fazer um concurso”, diz Robson Anklam, adotado pelo empresário Fábio Anklam, de 42 anos, residente em Camboriú, no litoral de Santa Catarina. A homologação judicial ocorreu em 13 de agosto e, nesse mesmo dia, pai e filho viajaram de avião para o estado do Sul, uma experiência que colocou Robson, mais uma vez, nas nuvens. “Nunca tinha andado de avião. Foi legal”, afirmou, por telefone.

Só de falar sobre a adoção, Fábio se emociona e chega às lágrimas. Ao se lembrar das últimas semanas, o proprietário de um canil para animais de raça revela já ser pai de Leandro, adotado aos 13 e hoje com 18, mesma idade de Robson. “Desde muito jovem pensei em formar uma família com crianças adotadas e maiores. No início, queria acima de 8 anos, mas não deu certo. Então, vieram o Leandro e agora o Robson. Nasci para ser pai”, afirma o homem solteiro, que passou o último dia dos pais em BH e se hospedou na casa de colaboradores de movimentos de adoção.

A história de Robson foi mostrada pelo Estado de Minas em 15 de maio, e, a partir dos compartilhamentos nas redes sociais e grupos no WhatsApp, chegou ao conhecimento de Fábio Anklam. “Graças à reportagem, muita gente ficou sabendo e procurou informações, algumas para apadrinhamento. Mas a adoção, perto de Robson completar 18 anos, foi uma "vitória muito grande", disse a advogada Larissa Jardim, da diretoria jurídica do Grupo de Apoio à Adoção de Belo Horizonte. “Ele é um jovem muito inteligente, preocupado com o futuro, ficava sempre pensando no que poderia lhe acontecer após deixar o abrigo”, disse a advogada.

A adoção do jovem mineiro foge ao padrão procurado pela maioria dos pretendentes – crianças com até 3 anos de idade. Em Minas, por exemplo, 53,7% dos interessados em adotar querem crianças nesse limite de idade, de acordo com dados do Cadastro Nacional de Adoção/Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). No país, ainda segundo o CNJ, o índice chega a 92,7%, embora apenas 8,8% das crianças aptas à adoção tenham essa idade.

Na reportagem, a desembargadora Valéria Rodrigues Queiróz, superintendente da Coordenadoria da Infância e da Juventude (Coinj) do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), explicou que, além crianças maiores de 3 anos de idade e adolescentes, adoção tardia inclui os adolescentes que permanecem indefinidamente à espera de uma família. Já a adoção necessária se refere às crianças e adolescentes portadoras de necessidades especiais e grupos de irmãos. “A realidade, no Brasil, é que o destino da maioria dessas crianças mais velhas, acolhidas em abrigos, é de ali permanecerem, sendo criadas e educadas pelos funcionários dessas instituições”.

Planos


Na casa nova, em Camboriú, Robson Anklam conta que ainda não conseguiu resolver o lado prático, a exemplo da escola (está no primeiro ano do ensino médio). “Estou arrumando as coisas, agora tenho um pai, um irmão, posso arranjar um emprego”. Nos últimos tempos morando na Unidade de Acolhimento Institucional Casa dos Anjos/Grupo de Desenvolvimento Comunitário (Gdecom), na capital mineira, ele alimentava a esperança de encontrar uma família, o que ocorreu logo depois, com o interesse de Fábio.

No depoimento ao EM, Robson mostrava seus temores, entre eles a perda de esperança. “Vou completar 18 anos em 19 de junho. Até lá, poderei ficar no abrigo. Depois, não sei que rumo vou tomar. Desde que me entendo por gente, minha vida tem se dividido entre uma família aos pedaços, com muitos irmãos, e o acolhimento nos abrigos, de onde não tenho o que reclamar. Estudo, estou no primeiro ano do ensino médio, e quero ser advogado ou médico, mas a angústia de não ter uma família me dói. Toda criança ou adolescente que mora em abrigo alimenta a vontade de ter uma família, receber carinho dos pais, mesmo não sendo os de sangue, morar numa casa tranquila. Comigo não é diferente, mas, quer saber a verdade? Não tenho mais esperança”, chegou a afirmar.

Foram muitos os sobressaltos e apertos. “Quando eu era bem criança, minha mãe falava que iria me levar ao parque, mas me deixava numa creche ou abrigo, não me lembro muito bem. E não voltava para me buscar. Fui adotado pela primeira vez aos seis anos, mas infelizmente não deu certo. O casal brigou, se separou e voltei para minha família. O pior é que minha mãe bebia, arrumou um namorado que também bebia, e resultado: um dia, cheguei em casa e eles estavam fazendo amor. Fiquei espantado com o que vi, pois era só um menino, né?, Então resolvi fugir. Subi no telhado e fui embora”

Além da falta da família, havia a ausência de amor. “Aos 10 anos, retornei à vida no abrigo e só tenho a agradecer. Sinto aquela carência de amor de família, uma tristeza, ansiedade, angústia. Seria bom que toda criança tivesse um pai e uma mãe mesmo adotados. E não pensem que, por estar maior, pode dar errado. Os de 17 anos ou perto dos 18, como é meu caso, têm mais responsabilidade, sabem o que fazem da vida, têm vontade de amar. Só precisamos mesmo de ajuda. No fundo, no fundo, ainda tenho vontade de ser adotado”, completou, quase em um presságio da boa notícia que viria.


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