Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Publicidade

Estado de Minas NOVO CANGAÇO

EM acompanha 'volante' que combate quadrilhas de explosão de caixas no interior de MG

Baseada no conceito das forças policiais que caçaram e mataram o grupo de Lampião, a PM criou os Grupos Táticos Rodoviários (GTR) para combater quadrilhas que explodem caixas no interior. EM acompanhou operação na MG-050, rota conhecida para bandidos do tráfico das regiões de Ribeirão Preto (SP) e Campo Grande (MS) e de crimes de explosão de caixas eletrônicos


postado em 24/06/2019 06:00 / atualizado em 24/06/2019 08:00

Grupo tático em noite de operação no Centro-Oeste de Minas: armamento pesado para as abordagens preventivas e até para eventuais enfrentamentos(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Grupo tático em noite de operação no Centro-Oeste de Minas: armamento pesado para as abordagens preventivas e até para eventuais enfrentamentos (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)


A mobilidade entre cidades de reduzida presença policial no interior e o grande poder de fogo conferiram o apelido de Novo Cangaço à modalidade de criminosos que explodem caixas eletrônicos e afastam a polícia se valendo de sua força bélica desproporcional. Uma lembrança de um movimento que atuou, sobretudo, no sertão brasileiro dos séculos 19 e 20, quando bandidos nômades e seus bandos perambulavam roubando fazendas, sequestrando, estuprando e impondo suas próprias leis. Produziu um imaginário que ainda confunde crimes com resposta a injustiças sociais, com personagens como Lampião, Corisco e Sete Orelhas. A liberdade dos cangaceiros originais acabou quando as forças de segurança pública criaram as polícias “volantes”. Grupos móveis e fortemente armados que localizavam, perseguiam e abatiam os bandidos e agora ganham nova versão.

Num conceito modernizado de volante, Grupos Táticos Rodoviários (GTR) da Polícia Militar de Minas Gerais prometem cercar, caçar, neutralizar e desestimular o Novo Cangaço. Na estratégia da segurança pública, o reforço vem também da Polícia do Meio Ambiente.

Para mostrar a atuação dos GTR, a reportagem do Estado de Minas acompanhou uma operação realizada por essa tropa que promete varrer o Novo Cangaço, modalidade de crime que vem perdendo força, despencando 24% entre 2016 e 2017 e 50% de 2017 para 2018 (veja quadro). O lançamento desses grupos por todo o estado obedece a levantamentos de inteligência que monitoram bandidos, dias e horários compatíveis com o modo de operar das quadrilhas.

A operação acompanhada começou por volta das 21h, a partir da 7ª Companhia da Polícia Militar Rodoviária, em Divinópolis, no Centro-Oeste. Um local definido pelo comandante desse grupo, tenente Adelmo dos Santos, como rota importante para o tráfico. “A MG-050 e as vias que a alimentam são uma rota conhecida para quadrilhas do tráfico das regiões de Campo Grande e Ribeirão Preto (SP), bem como para crimes de explosão de caixas eletrônicos (Novo Cangaço)”, afirma o policial.

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)


O grupo sempre segue em comboio pela rodovia, sendo que cada viatura leva fuzis e submetralhadoras capazes de fazer frente ao mesmo tipo de armamento utilizado pelo Novo Cangaço contra as unidades policiais menos armadas. Em menos de 10 minutos, um veículo conduzido por um suspeito conhecido por roubos e tráfico de drogas foi identificado. Os quatro ocupantes do carro, com placas de Pará de Minas (Centro-Oeste), foram revistados, enquanto o veículo passou por minuciosa averiguação. Cada vão do compartimento do motor, painel e peças sobressalentes no porta-malas foi cuidadosamente checado com lanternas e por testes manuais dos militares. Desta vez, nada foi encontrado.

Mais à frente, a primeira atividade da noite foi uma blitz aproveitando o posto de pesagem do Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem (Deer-MG). Em menos de um minuto, as viaturas ficaram posicionadas estreitando a circulação dos veículos em uma pista por sentido, militares tomaram posições de controle de tráfego e vistoria de veículos, enquanto outros, fortemente armados, se posicionaram em cobertura. 

Equipe preparada para partir para a MG-050, uma das rotas de quadrilhas de tráfico de drogas no estado(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Equipe preparada para partir para a MG-050, uma das rotas de quadrilhas de tráfico de drogas no estado (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)


Lombadas portáteis foram abertas nos acessos à estrutura para ajudar a reduzir a velocidade dos carros e caminhões que chegavam. Nessas ações foram encontradas porções de drogas em dois veículos, um carro clonado e um foragido de Contagem, de 28 anos, com extensa ficha de crimes contra o patrimônio.

A missão seguinte é mais furtiva e perigosa. As equipes se dividem em patrulhamentos e organizam blitzes no escuro das estradas vicinais para surpreender criminosos que estejam buscando refúgio, rotas alternativas de tráfico e áreas para planejar roubo a propriedades rurais. “Caso sejamos acionados para combater uma ação de explosão de caixas eletrônicos numa cidade próxima, por exemplo, podemos nos deslocar com velocidade para esse primeiro combate, bem como nos posicionar em cerco com armamento pesado em vários pontos de fuga desses criminosos”, observa o tenente Adelmo dos Santos.

O Grupo Tático Rodoviário foi idealizado para tornar mais dinâmico o policiamento, que antes era mais restrito à fiscalização de infrações de trânsito, e colaborar com a prevenção e a repressão criminal, segundo o comandante do Batalhão de Polícia Militar Rodoviária (PMRv), tenente-coronel Paulo Antônio de Moraes. “Os GTR são frações de tropas sediadas nas Companhias de PMRV distribuídas em todo o estado. Receberam treinamento com táticas e técnicas de progressão com o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Foi gabaritado para o enfrentamento de ocorrências mais críticas, ou pelo menos o primeiro enfrentamento”.

De acordo com o comandante, o trabalho principal é preventivo, com operações nas rodovias e até nos acessos às cidades. O acionamento do grupo se dá logo que alguma cidade da região enfrenta um ataque dos criminosos do Novo Cangaço. “Nossa intenção é sermos vistos, mostrar presença e força para que os criminosos desistam de suas ações. Esses grupos não querem enfrentamento. Querem facilidade para agir, roubar e fugir. Essa prevenção é mais importante, porque o enfrentamento pode resultar em morte de cidadãos e de policiais”, considera.

Dupla ação na zona rural


Policiais militares durante ação no interior de Minas(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Policiais militares durante ação no interior de Minas (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)


A segurança que o isolamento do campo e o baixo tráfego de veículos conferem a fazendas e sítios do interior fazia desses locais esconderijos ideais para os integrantes de quadrilhas fortemente armadas. Os criminosos que explodem caixas eletrônicos no interior e subjugam pequenas cidades sob suas rajadas de munição pesada se aproveitavam da intrincada malha vicinal mineira para fugir e buscar refúgio em propriedades insuspeitas. Mas foi se aproveitando do conhecimento desses terrenos ermos, navegando em barcos por um rio calmo e disfarçadas pela escuridão, que unidades da Polícia Militar de Meio Ambiente fortemente armadas desembarcaram numa dessas propriedades em Pouso Alegre, no Sul de Minas, no mês passado, para desbaratar uma dessas células criminosas.

Em poucos minutos, a fazenda que servia de quartel-general dos assaltantes foi cercada por terra e por água e o arsenal de 13 armas de fogo dessa quadrilha, composto por pistolas, um fuzil e farta munição, acabou sendo apreendido. Um exemplo de como os militares de Meio Ambiente, antes quase restritos ao combate à degradação ambiental, se tornaram uma poderosa ferramenta de repressão à violência no meio rural.

Enquanto as estradas asfaltadas servem de vias rápidas para o primeiro combate ao crime organizado, sobretudo às quadrilhas fortemente armadas que explodem caixas eletrônicos e são chamadas de Novo Cangaço, outra faceta dessa repressão se encontra num ambiente que antes servia de esconderijo e forma de despistar as autoridades.

"Os policiais receberam armas de alta energia. São fuzis que fazem frente ao grande poder de fogo de que as quadrilhas que atuam nesses crimes dispõem"

Comandante do Batalhão da Polícia Militar de Meio Ambiente, tenente-coronel Marcone do Rosário Pereira



Conhecedores de vias vicinais, das matas e dos relevos acidentados do interior mineiro, os policiais de Meio Ambiente de Minas Gerais passaram a ter também uma função de combate à criminalidade aplicada no meio rural. Enquanto militares nas estradas tentam interceptar a fuga dos bandidos fortemente armados, os policiais ambientais contam agora com equipes reforçadas para estrangular as rotas de fuga pelas fazendas e sertões. Ganharam, também, o reforço dos chamados Grupos Especializados em Policiamento Ambiental. Militares que receberam treinamentos específicos para essa missão e que saem em auxílio aos demais militares.

Além dos militares já treinados para identificar devastações no meio natural, problemas em minerações, barragens, matas, pesca ilegal e tráfico de animais, esses grupos especializados têm poder de fogo e preparo para fazer frente às quadrilhas que promovem ataques a cidades do interior. Cada Grupo Especializado em Policiamento Ambiental conta com uma caminhonete 4x4 capaz de perseguir bandidos em fuga pelas vias mais acidentadas e em alta velocidade. A tripulação passa a ser de três militares, em vez de uma dupla, como era comumente aplicados nas ações de policiamentos ambientais corriqueiras.

Os equipamentos de resposta a agressões também foram reforçados, de acordo com o comandante do Batalhão da Polícia Militar de Meio Ambiente, tenente-coronel Marcone do Rosário Pereira. “Os policiais receberam armas de alta energia. São fuzis que fazem frente ao grande poder de fogo de que as quadrilhas que atuam nesses crimes dispõem”, afirma o comandante. Para se ter uma ideia desse incremento de repressão no interior, na última Operação Alferes, realizada em comemoração aos 244 anos da Polícia Militar, no dia 9, dos 220 presos contabilizados em todo o estado, no último boletim divulgado, 80 (37%) foram detidos em ações de policiamento ambiental atuando ostensivamente em blitzes no meio rural.

Com a nova tática da segurança pública, rotas de tráfico ou de fuga de criminosos estão mais cercadas(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Com a nova tática da segurança pública, rotas de tráfico ou de fuga de criminosos estão mais cercadas (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)


Domínio da área e proximidade


Um dos diferenciais da Polícia Militar de Meio Ambiente para atuar no combate aos crimes na zona rural é o conhecimento adquirido nas patrulhas e fiscalizações ambientais e sua proximidade com a população local. “Esse conhecimento é fundamental para deter as fugas que muitas quadrilhas tentam realizar pela área rural. Nossos policiais conhecem esses terrenos, sabem se deslocar por lá, estão equipados para isso e contam com as informações da população local, o que é fundamental nesse trabalho. Assim, movimentos de pessoas suspeitas acabam sendo notificados para que possamos checar”, destaca o tenente-coronel Marcone Pereira.

O treinamento das equipes também é diferenciado. “Trazemos policiais de meio ambiente de várias partes do estado para realizar treinamentos e capacitações com unidades especializadas, como o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e a Rotam (Batalhão de Rondas Táticas Metropolitanas) para que compreendam melhor as ações táticas e aumentem a sua capacidade operacional e de proteção. Quando os policiais se deparam com situações desse nível (quadrilhas fortemente armadas), devem se proteger também e então neutralizar os criminosos”, destaca o tenente-coronel.

Esse aprendizado diferenciado envolve, também, técnicas de rastreamento em áreas rurais, formas de deslocamento mais eficazes, técnicas de abordagem a veículos, motos, infiltração e uso de camuflagem para facilitar o trabalho utilizando ambiente de matas e florestas para confundir e surpreender os criminosos. Um adereço diferenciado que as unidades vêm testando é o colete balístico flutuante, que além de proteger os policiais de disparos de armas de fogo dos bandidos permite que operem em áreas alagadas e rios, comuns nos meios rurais.

As forças de meio ambiente da Polícia Militar, contudo, mantêm seu trabalho de atendimento a ocorrências no meio natural. “O interior de Minas Gerais tem sido usado como rota de escoamento e produção para quadrilhas de traficantes de entorpecentes. Esse trabalho, agora, visa intensificar a repressão a esses crimes”, afirma o tenente-coronel Marcone Pereira. Como exemplo da ação, ele cita blitz recente numa estrada vicinal do interior de Ipatinga, no Vale do Aço, em que foram localizados em veículo 119 tabletes de maconha pronta para ser entregue a traficantes de drogas. Duas pessoas que estavam no carro foram presas.


Publicidade