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Estado de Minas

Furtos de celulares, trânsito ruim e crimes violentos desafiam organização do carnaval de BH

Prefeitura comemorou números, como o aumento de 18% de turistas em relação a 2018, mas sensação de segurança precisa melhorar para o ano que vem


postado em 13/03/2019 06:00 / atualizado em 13/03/2019 14:10

Detalhe do Então, brilha!, um dos maiores blocos da cidade: total de foliões cresceu 13% na capital(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Detalhe do Então, brilha!, um dos maiores blocos da cidade: total de foliões cresceu 13% na capital (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


A maior festa de carnaval já vista em Belo Horizonte recebeu 4,3 milhões de foliões, um crescimento de 13% em relação ao ano passado. Mesmo abaixo dos 20% de expansão projetados pela Belotur, autoridades comemoraram os resultados, embalados por 410 blocos em 23 dias do período oficial da festa momesca. O número de turistas na cidade chegou a 204 mil – aumento de 18% em relação ao ano passado. Mas, na contramão da diversão e da alegria, o grande número de furtos de telefone, o tráfego travado e os crimes violentos desafiam os organizadores, ainda que a Polícia Militar aponte queda na comparação com 2018, e a Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) avalie como positivas as soluções viárias deste ano.

De acordo com a pesquisa feita pela Prefeitura, com aplicação de 1.133 questionários entre participantes em 20 blocos de rua, de 1º a 6 março, a maioria dos visitantes (79,6%) e dos moradores (80,2%) avaliou que o evento superou ou atendeu plenamente as expectativas. Entre os visitantes que declararam ter participado em edições anteriores, 68,4% afirmaram que melhorou, e 88,4% têm intenção de voltar em 2020. A avaliação geral, em uma escala de 0 a 10, atingiu 8,8 pontos na opinião do turista e 8,5 para os moradores da capital. A pesquisa ainda mostrou que houve aumento da sensação de segurança: entre os moradores, a nota média foi 7,4. Para os turistas, o nível foi 8.

Mas a sensação de segurança ainda pode melhorar. Em eventos diretamente relacionados à festa houve pelo menos três mortes, três baleados e quatro esfaqueados. No ano passado, nenhum caso grave de agressão ou homicídio foi divulgado pela imprensa. Porém, números da Polícia Militar mostram o contrário: redução dos crimes registrados durante o período de folia. A PM informou que houve queda de 40,8% dos crimes violentos em comparação com o mesmo período de 2018, passando de 1.087 para 644. “A redução dos crimes violentos foi muito significativa, considerando a magnitude do evento. Ocorreram fatos pontuais e isolados que merecem atenção, tais ocorrências são avaliadas em todas as suas especificidades pontualmente, para futuros planejamentos”, informou a corporação. Responsável pelo Comando de Policiamento da Capital, o coronel Anderson de Oliveira pontuou que, com o grande volume de pessoas, o número de infratores aumenta, mas que a corporação conseguiu coibir crimes. Segundo ele, os números devem ser “comemorados”. Homicídios caíram de 20 para 17. 

VIOLÊNCIA
Era fácil encontrar um folião que tivesse perdido o celular em meio à festa. Mesmo assim, de acordo com a PM, houve queda de 41% nos roubos (de 688 para 405) e 2,5% nos furtos, de 2.662 para 2.596. No caso específico dos aparelhos celulares, houve diminuição de 41,1% (de 688 em 2018 para 405 em 2019). Foram registradas 326 ocorrências com apreensão de drogas, 117 de armas de fogo, 76 de armas brancas e 29 de simulacro de arma.

Outros episódios que chamaram a atenção foram os de estupro. Na Praça da Estação, onde a prefeitura montou um palco, ocorreram pelo menos três casos. Porém, os números oficiais mostram redução: seis ocorrências, contra oito de 2018. Não foi informado quantas pessoas foram presas por crimes deste tipo. A Polícia Civil não detalhou a procura da Delegacia Especializada de Mulheres para denunciar agressões, estupros e importunações sexuais.

 

Melhorar trânsito é uma das missões


 

Um dos principais desafios para o próximo ano será dar conta do fluxo de veículos durante a folia. E a comunicação sobre fechamento de vias e a criação de bolsões de interdição durante o Carnaval deverá ser revista para o próximo ano. Segundo o presidente da BHTrans, Célio Bouzada, este ano “foi insuficiente”. De acordo com ele, os agentes deviam informar aos moradores que o acesso poderia ser feito nos momentos em que desfiles não estavam ocorrendo e reconheceu problemas. Inclusive, os critérios e procedimentos para fechamento de vias serão discutidos em audiência pública, em 28 de março. De acordo com o vereador Jair Di Gregório (PP), requerente da audiência, moradores ficaram impedidos de sair de suas casas e de tirar carros das garagens. A avaliação da autarquia, no geral, foi positiva em relação aos bolsões. “Não há outra forma de trabalhar para evitar que pessoas fiquem presas no meio do tumulto”, afirma Deusuite Matos, diretora regional de operação do órgão. A estratégia deve permanecer no Hipercentro, na Praça 7, e na Savassi.

Já na opinião do presidente da Belotur Gilberto Castro, muito precisa ainda ser avaliado quanto a novas estratégias para o carnaval de 2020. Ele já antecipa que a demanda de banheiros químicos (que passaram de 14 mil para 15 mil) não foi suprida. “Melhorou muito, mas ainda recebemos críticas. Continuamos focados a esse quesito e todos os outros para que a gente entenda o que foi bom e o que foi ruim”, declarou. “Acreditamos no crescimento orgânico para manter bom serviço. Não queremos que a festa tenha um ápice e depois desça ladeira abaixo. Queremos manter no topo o maior tempo possível”, acrescentou.

“Muito planejamento e construção precisa ser feito”

 

Ouvido pela reportagem do EM, o idealizador, cantor e coordenador do bloco Baianas Ozadas, Geo Cardoso, também fez um balanço do carnaval 2019 na capital. Para ele, ainda há vários aspectos que precisam ser melhorados na folia de Belo Horizonte. 

 

“De público tem sido sucesso nos últimos anos, pois cresce. Mas será que só o crescimento de público é o que desejamos a cada folia?”, questionou. “Pela proporção que tomou, sendo hoje o maior evento da cidade, muito de planejamento e construção precisa ser feito. Se neste 2019 a  segurança pública foi uma das principais questões, não podemos esquecer que hoje Belo Horizonte é o maior carnaval do estado e o poder público estadual ainda não participa do carnaval nem com representatividade do turismo e nem da cultura”, comentou. 

 

Na segunda-feira de carnaval, o cortejo do Baianas Ozadas quase não chegou à Praça da Estação, ponto de encerramento do desfile do bloco desde 2013. Ainda na Avenida Afonso Pena, eles foram surpreendidos por uma ordem que, segundo ele, partiu do Centro de Integrado de Operações de Belo Horizonte (COP-BH) por parte dos produtores culturais da Belotur, para que os foliões não fossem até o ponto turístico. “Até o dia do desfile o trajeto que o bloco já realiza há três anos havia sido aprovado, utilizando desde 2017 também o mesmíssimo trio elétrico. Por que mudar? Em parte do trajeto fomos atestar que nada do que apontamos um mês atrás por um 'Relatório de Visita Técnica'solicitado pela Belotur não tinha sido feito. Não foram feitas podas de árvores nas vias, não foram reposicionadas placas e semáforos como em anos anteriores e algumas novas fiações em posição baixa não foram suspendidas ou reposicionadas. Ficou claro que houve um aumento de exigências e burocracias, mas na prática pouca coisa evoluiu”, detalhou Geo. 

 

“Se a administração municipal aposta no crescimento do carnaval, deve ter uma postura diferente da atual, deve pensar o carnaval de forma legal, com uma legislação construída a partir de um diálogo franco e aberto com a sociedade civil, organizadores de blocos, artistas da música e produtores culturais. Para assim pensar a sustentabilidade da festa e da cidade com um fomento responsável do mercado e toda cadeia produtiva que o carnaval envolve”, pontuou.

o em.com.br entrou em contato com a Belotur e aguarda resposta

 

 

Arrastão da folia


 

4,3 milhões de foliões foram às ruas 
410 blocos 
447  cortejos em dias de festa 
80,1% moradores de Belo Horizonte 
19,9% visitantes  
204 mil turistas, aumento de 18% em relação a 2018  

Ocorrências mais graves 


Noite de sábado 

» Estupro de uma mulher de 19 anos na Praça da Estação 
Noite de Domingo  
» Morte de um homem de 18 anos numa briga generalizada no Bairro Castelo
» Três pessoas baleadas na Savassi em ocorrências distintas. Na esquina das ruas Professor Moraes e Santa Rita Durão, após briga de dois grupos de jovens, um deles levou um tiro no abdômen. Na esquina das avenidas Cristóvão Colombo e Getúlio Vargas, uma mulher e um homem ficaram feridos, mas com menos gravidade.
» Duas mulheres, de 19 e 21 anos, foram vítimas de abusos sexuais na Praça da Estação 

Madrugada e noite de segunda  

» Uma mulher de 32 anos foi esfaqueada no abdômen nas proximidades da Praça da Estação 
» Dois franceses foram esfaqueados após tentativa de assalto, na Avenida dos Andradas, no Santa Efigênia.  

Noite de terça-feira 
 
» Uma mulher de aproximadamente 30 anos foi encontrada morta durante a festa na Praça da Estação, com sinais de estrangulamento 

Noite de quarta-feira

» Adolescente de 16 anos encontrado morto na Avenida Afonso Pena, próximo à Praça Sete 
» Homem foi ferido com canivete no pescoço após briga na Rua Espírito Santo, no Centro 
» Adolescente de 14 anos foi vítima de abuso sexual na Praça da Estação

 

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