Publicidade

Estado de Minas

Crianças e adolescentes manifestam traumas após tragédia de Brumadinho

Às vésperas do rompimento da barragem completar um mês, especialistas alertam sobre danos do estresse pós-traumático e abordam risco de cicatrizes emocionais


postado em 24/02/2019 06:00 / atualizado em 24/02/2019 10:45

O pai de uma das crianças que sofreram perdas em Brumadinho: apoio dos adultos é fundamental, embora eles mesmos estejam abalados(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A press)
O pai de uma das crianças que sofreram perdas em Brumadinho: apoio dos adultos é fundamental, embora eles mesmos estejam abalados (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A press)

Imagine, de um dia para outro, ficar sem pais, perder outros integrantes da família, amigos, não ter mais sua casa, seus bichos, o rio em que nadava e pescava, livros, o quintal para brincar... Ficar sem seu mundo, inesperadamente, é um trauma que afeta qualquer ser humano, mas fica ainda mais difícil quando é enfrentado por crianças e adolescentes. Tudo o que os menores de Mariana viveram depois da tragédia da Samarco, há três anos, os de Brumadinho também já sofrem. O rompimento das barragens do Fundão, em 2015, e a da Mina Córrego do Feijão, que completa um mês amanhã, deixarão marcas profundas, que ainda vão repercutir por anos entre os que estão apenas começando a vida.


Josefa Josenilda Evangelista Braga, de 38 anos, mãe de Francisco, de 7, Maria Vitória, de 12, e Paulo César, de 14, moradora do Bairro Córrego do Feijão, que viu a lama de rejeitos parar na porta de casa, revela ter notado a mudança de comportamento dos pequenos. No dia da tragédia, ela conta que todos escutaram os gritos de quem estava na barragem da Vale. “Subimos um morro, para nos proteger. Francisco, coitado, é gordinho e custou a subir correndo. Ele, aliás, é o mais sensível. Chora muito, grita, em outra hora está muito agressivo... Também custa a dormir”, conta. Preocupação que assola a mãe, que já detectou mudanças também na atitude dos mais velhos: “Os adolescentes estão mais calados. Eles perderam duas amiguinhas com quem estudaram desde os 3 anos, não podemos nem falar o nome delas, porque choram”.

Certamente, os filhos de Josefa vão precisar de ajuda, além do apoio da mãe: “Qualquer barulho eles se assustam, acham que é a barragem de novo. Outra noite, acordaram com o barulho do ventilador, dei um pulo da cama e tive de acalmá-los. Eles ainda não têm acompanhamento psicológico. A Vale ofereceu, pegou o nome e disse que alguém ia na minha casa. Mas ninguém apareceu. Duas psicólogas voluntárias foram {a minha casa, conversaram e disseram que vão estar por aqui, se precisarmos”.

Como as reações são imprevisíveis, Atamaio Ferreira, de 48, segurança, está impressionado com a postura da filha, Larissa Vitória, de 8: “Agradeço a Deus pela força dela. Perdeu duas tias e não se deixou abater. Eu e a mãe temos conversado muito com ela, orientado. Está difícil dormir e lidar com a angústia, já que minha irmã está desaparecida. Mas temos de ter força, esperança e fé. Se é para frente que se anda, vamos andar”.

A tendência ao adoecimento de crianças e adolescentes que convivem com tragédias é comprovada por especialistas. Em 2017, a médica psiquiatra Maila de Castro, pesquisadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais, participou da pesquisa sobre a Realidade de Saúde Mental em Mariana, e fez o diagnóstico das famílias atingidas pelo rompimento da barragem do Fundão. O objetivo foi avaliar a situação de saúde dos indivíduos afetados.

Foram feitas 271 entrevistas completas, 225 entre pessoas com idade superior a 18 anos e 46 entre pacientes de 10 a 17 anos. O diagnóstico de depressão foi fechado em 28,9% dos adultos avaliados. O transtorno de ansiedade generalizada foi diagnosticado em 32% dos entrevistados. O transtorno de estresse pós-traumático, em 12% dos atingidos. Já entre os menores, 82,9% dos entrevistados foram rastreados positivamente para o estresse pós-traumático.

Maila de Castro explica que o mal “se caracteriza por sintomas persistentes de lembranças do evento traumático, comportamentos de fuga de tudo o que lembre o evento e excitabilidade aumentada, após a exposição a um evento traumático. Os sintomas podem se apresentar imediatamente após o episódio, ou tardiamente, depois de seis meses.” É  uma das doenças mentais pós-desastre mais comuns. “A alta taxa de rastreio positivo encontrada no nosso estudo indica um impacto de magnitude clínica relevante, ao qual a população infantojuvenil foi submetida frente à exposição ao evento traumático”, diz a psiquiatra. Ela alerta que todas as pessoas rastreadas positivamente precisam ser avaliadas por uma equipe de saúde mental.

reflexoS Diante do que constatou em Mariana, Maila de Castro prevê que os atingidos de Brumadinho também enfrentarão dificuldades. “Crianças e adolescentes são muito diferentes de adultos, tanto de ponto de vista biológico quanto social. Os danos causados por traumas em cérebros e personalidades em formação são diferentes e podem se apresentar como cicatrizes emocionais na vida adulta. De fato, traumas estão associados ao desenvolvimento de doenças psiquiátricas, cardiovasculares e mortalidade na idade adulta, inclusive por suicídio.”

No entanto, ao avaliar as duas tragédias, Maila de Castro chama a atenção para as particularidades de cada uma: “Acredito que existam diferenças importantes. A primeira é o número de mortos. Em Mariana, houve menos pessoas mortas e um número muito grande de sobreviventes expostos ao trauma. Em Brumadinho, há um número muito maior de óbitos e menor de pessoas expostas diretamente. Isso implicará perfis diferentes de transtornos mentais. O número de pessoas vivendo o luto também é diferente nos dois desastres. Há ainda uma diferença importante no perfil sociodemográfico nas duas populações. No primeiro desastre temos uma população mais rural e, no segundo, mais urbana. Isso muda os fatores de proteção e de risco de cada atingido.”

Três perguntas para...

Ana Christina Mageste,  psiquiatra especializada em crianças e adolescentes, secretária do Departamento de Psiquiatria Infantil da Associação Brasileira de Psiquiatria

 

Quais os principais traumas mentais que o rompimento da barragem em Brumadinho podem ocasionar em crianças e adolescentes? A quais sinais é preciso estar atento?
O principal transtorno mental que ocorre nas crianças após um evento dessa magnitude é o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Cerca de 4% das pessoas com menos de 18 anos estão expostas a algum tipo de trauma que leva a esse transtorno. Segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental (USA), dessas, 7% das meninas e 2% dos meninos são diagnosticados com TEPT. Podem apresentar distúrbios do sono, sinais depressivos, sentir-se nervosas ou em alerta, sendo facilmente assustadas, além de perder interesse em coisas de que gostavam, ter dificuldade em expressar carinho, externar irritabilidade e agressividade, evitar lugares ou situações que tragam de volta memórias do acontecido, vivências em forma de imagens, sons, cheiros ou sentimentos que levam à sensação de estar ocorrendo novamente, dificuldade de concentração, comportamentos regressivos e preocupação com morte prematura. Os sintomas físicos podem ser dores de cabeça ou de estômago. Às vezes, os efeitos dos eventos traumáticos podem ser retardados por seis meses ou mais, mas quando o TEPT ocorre logo após um evento, a condição geralmente melhora após três meses. TEPT em crianças, geralmente, se torna um transtorno crônico.

Como os adultos podem ajudá-las? Até porque parte dessas pessoas também foram atingidas...

Podem ajudar principalmente escutando o que as crianças têm a dizer e percebendo comportamentos diferentes do habitual. Se a criança fizer perguntas, tentar respondê-las de uma maneira adequada à idade. Não adianta mentir nem fingir que nada está acontecendo e que tudo está bem. As crianças da atualidade valorizam o meio ambiente, os cuidados com a poluição, com a água. Sabem que houve destruição, que o rio está poluído, que a rua onde elas passavam não existe mais. É preciso ser empático, mostrar que entendemos o que a criança sente, e que também estamos tristes. Mas sempre mostrar, com exemplos, que amanhã pode ser melhor: a chuva para, o sol nasce, a plantinha brota. Nesse caso de Brumadinho, fico pensando nas crianças que, além de perder alguma pessoa querida ou conhecida, convivem com os “órfãos da Vale”, pois a cidade, e grande parte da população, perdeu a “mãe Vale”, já que é assim que a empresa muitas vezes funcionava no imaginário popular.

O estresse pós-traumático é uma marca que crianças e adolescentes vão carregar para a vida?
No caso de Brumadinho, as possibilidades são grandes, pois as famílias das crianças também estão de luto, o meio ambiente foi devastado e a “mãe Vale” virou madrasta. Mas o TEPT pode ser tratado. A detecção e intervenção precoces são importantes e podem reduzir a gravidade dos sintomas, melhorar o crescimento e desenvolvimento normal da criança, assim como a qualidade de vida. A recuperação é altamente variável e dependente de cada um, das forças internas, habilidades de enfrentamento e resiliência. A recuperação também é influenciada pelo suporte disponível no ambiente familiar. Os pais desempenham papel vital em qualquer processo de tratamento. Mas acredito na capacidade de resiliência das crianças e na ajuda que podemos proporcionar a elas.


Publicidade