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Estado de Minas

'Depois da 1ª lista de resgatados, só achamos corpos', diz bombeiro sobre Brumadinho

Tenente Pedro Aihara, porta-voz do Corpo de Bombeiros, conta como foi sua chegada na área devastada pela lama da Vale


postado em 25/02/2019 06:00 / atualizado em 25/02/2019 07:52

Militar conta que as primeiras 24 horas de trabalho foram ininterruptas(foto: Gladyston Rodrigues/Em/D.A press - 2/2/19)
Militar conta que as primeiras 24 horas de trabalho foram ininterruptas (foto: Gladyston Rodrigues/Em/D.A press - 2/2/19)

Tenente Pedro Aihara - porta-voz do Corpo de Bombeiros

O trabalho ia bem. Vários assuntos sendo resolvidos numa sexta-feira com agenda cheia para depois do serviço. Até o telefonema que faria a vida dos militares – e de muitos outros – virar pelo avesso: rompimento de barragem. Sem detalhes sobre danos, vítimas, nada. Não se confirmava nem mesmo a veracidade da informação, mas era preciso partir imediatamente. A bordo da segunda aeronave que aterrissou em Brumadinho, o tenente Pedro Aihara, do Corpo de Bombeiros, se viu novamente em um mar de lama como o de Bento Rodrigues, em Mariana, três anos atrás. As informações foram chegando aos poucos, bem como a percepção das dimensões da tragédia. Ali, ainda sem saber sequer a quantidade de pessoas envolvidas, era preciso tomar decisões rápidas. Nas primeiras horas, ele participou de tudo, da operação à acolhida a familiares. Com a chegada de um contingente maior, foi naturalmente direcionado ao posto de comunicação sobre o desastre. Chamou para si a responsabilidade de lidar com parentes e a imprensa. Não houve pausa nas primeiras 24 horas de trabalho. Nem haveria por muitas outras. Até ali, influenciado por estatísticas de desastres naturais, acreditava na possibilidade de encontrar mais sobreviventes debaixo dos rejeitos, além das 182 pessoas resgatadas nas primeiras horas. O duro golpe de constatar que isso não seria possível veio logo na manhã do dia seguinte. A partir dali, só se encontrariam corpos.

 

A NOTÍCIA

Era pouco mais de meio-dia e eu estava na Cidade Administrativa, quando o subcomandante abriu a porta e chamou os sete oficiais que estavam lá. Contou que havia acabado de receber uma ligação dizendo que uma barragem tinha se rompido. ‘Não sabemos a dimensão nem se é verdade, mas temos de ir. Agora.’ Eu disse a ele: ‘Preciso estar na primeira aeronave, porque estive em Janaúba (no incêndio da creche Gente Inocente, em 2017) e sei que a demanda de imprensa vai ser grande’. Peguei algumas coisas, celular e equipamento para filmagem, e fui com a roupa do corpo para o Batalhão de Operações Aéreas, na Pampulha.

O DESLOCAMENTO
De BH a Brumadinho é bem rápido de helicóptero, uns 15 minutos. A aeronave passa por uma serra e depois vem a cidade. Quando olhei para baixo, vi exatamente a mesma cena de Mariana: passava a montanha, vinha o mar de lama. Vi que casas estavam destruídas no limite com os resíduos e, na minha inocência, falei: não tem tantas vítimas. Não sabia que, na verdade, havia  muitas casas já soterradas. Do alto, tentamos ver uma área para pouso e localizamos o campo de futebol, junto à área inundada. Pousamos na mesma hora em que a major Karla (Karla Lessa, piloto do helicóptero, que fez um dos salvamentos mais impressionantes da tragédia) chegava com a primeira vítima para estabilização.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Fazendo o sobrevoo, vi o pontilhão rompido, o trem retorcido e comecei a perceber que a dimensão era bem maior. Fomos para o salão comunitário e chegaram alguns representantes da Vale. Essa foi a hora mais complicada, porque não havia informações. Estabelecemos as prioridades: achar sobreviventes e restabelecer serviços essenciais. Pegamos os documentos que a empresa nos mostrou, para ver o que tinha sido atingido. As primeiras informações eram de que 100 pessoas estavam na área do rompimento. Quando começamos a ver os mapas e identificar as áreas, peguntamos do que se tratavam certos pontos e nos apontaram o refeitório. Como o evento se deu na hora do almoço, a dinâmica seria diferente. As pessoas provavelmente estariam concentradas no mesmo local. Logo na primeira hora, um mundo de bombeiros começou a ir a campo e a ver a dimensão da tragédia humana, que era muito maior que a de Mariana. Ali, já nos preparamos para semanas de trabalho.

TAREFAS
Precisávamos ficar no posto de comando e a população estava exaltada, ameaçando invadir o salão comunitário. Quarenta minutos depois do resgate feito pela major Karla, os veículos de imprensa começaram a chegar. Um homem invadiu uma entrevista ao vivo que eu dava à televisão. O sistema de comando de operações tem estrutura dinâmica e, por isso, fazíamos de tudo um pouco na primeira hora. Por eu ser especializado na área de desastres, também atuei na operação. Depois, quando chegou um aparato maior de militares, fui ficando mais responsável pelo contato com familiares, para evitar que invadissem o local, além do contato com a imprensa. Mas, em momento algum houve uma designação formal para isso.

LISTA DE SOBREVIVENTES
Até a noite, havíamos resgatado numa das saídas da mina 182 pessoas, que conseguiram fugir para outros locais. Por volta das 22h, subi numa cadeira de plástico para ler cada um dos nomes dos sobreviventes. Via a ansiedade e a angústia nos rostos das pessoas. Houve um silêncio sepulcral, porque todo mundo queria ouvir. Foi o único momento em que não houve burburinho. Depois, tive que responder a questionamentos de um grupo de 60 a 70 pessoas. Foi um alívio ler a lista. Pelo menos, 182 pessoas estavam vivas. Em termos de esperança, significava que ainda dava tempo de salvar mais gente.

CONSTATAÇÃO CRUEL
Tentamos resgatar pessoas de madrugada. Não conseguimos. Até 48 horas depois, mas, principalmente, nas primeiras 24 horas, a possibilidade de encontrar sobreviventes é muito grande. Depois disso, cai exponencialmente. Não há uma doutrina específica para lama, que é bem mais cruel, mas, em terremotos, que tem espaço vital isolado e bolsões de ar, a chance de sucesso é de 92% a 94% nas primeiras 24 horas. Nas 48 horas depois, cai para 7,8%. No sábado também passamos a manhã tentando achar alguém com vida. Mas os 182 tinham sido os últimos. A partir dali, só achamos corpos.

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