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Estado de Minas

No Dia dos Pais, conheça histórias de centenários que ainda aprendem com os filhos

Eles celebram a data com os filhos e encontram no trabalho, no prazer de comer e na família pilares da longevidade


postado em 12/08/2018 07:00 / atualizado em 12/08/2018 08:30

Os três juntos somam mais de 300 anos, algo semelhante à história de Minas Gerais, e, individualmente, têm casos para contar que não cabem neste mundo. Muitas alegrias, sabedoria de sobra, famílias grandes e momentos difíceis que ficaram lá no passado, ganhando o nome de experiência. Neste Dia dos Pais, um trio bem especial de centenários de boa memória – com orgulho, sim, senhor! – recebe o carinho de filhos e demais descendentes e celebra a vida comendo e bebendo do que gosta. Residente numa fazenda em Taquaraçu de Minas, Armando da Conceição, de 102 anos e “meio”, conforme faz questão de ressaltar, encontra no trabalho uma das forças da longevidade.

Na vizinha Santa Luzia,  Vicente de Paula, o cacula, pois acaba de completar um século, ensina que comida boa é aquela acompanhada de angu. E em Lagoa Santa, também na Grande BH, o baiano “mineiro de coração” José Ribeiro dos Santos declara o amor pela mulher Joana, de 85, e se recorda de músicas do tempo da Segunda Guerra. Para os três, que nunca se encontraram, a violência é a pior inimiga do século 21. Vale lembrar que Armando, Vicente e José fazem parte de um grupo seleto de brasileiros. De acordo com o último censo demográfico (2010) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há, no país, 24,2 mil pessoas com 100 anos ou mais, sendo quase 10% em Minas (2,6 mil). Do total nacional, a maioria é de mulheres (16,9 mil), tendência também registrada no estado: 1,9 mil mulheres e 739 homens.


Com 102 anos, seu Armando mostra disposição para trabalhar(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
Com 102 anos, seu Armando mostra disposição para trabalhar (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)

A chegada à Fazenda Aragão, na comunidade rural de Campo de Santo Antônio, em Taquaraçu de Minas, faz bem aos olhos e acalma o coração do visitante de maneira instantânea. Pintada de azul e branco, singela com roseiras em flor no jardim, a casa de Armando da Conceição é um convite ao descanso e à contemplação da natureza. Melhor ainda se for para sentar ao lado dele, deixar-se contagiar pelo bom humor e ouvir histórias. Viúvo há sete anos, Armando foi casado por 74 anos com Maria da Piedade da Conceição, tendo 13 filhos “todos vivos”, 36 netos e 37 bisnetos.

Apoiado numa bengala, por pura precaução para descer escadas ou caminhar pelo amplo gramado, Armando tem certeza de que a saúde se sustenta em três pilares: beber, comer e trabalhar. “Tomo a minha pinga na hora do almoço, gosto de ‘bochechar’, às vezes mais de uma vez por dia. Nunca fez mal. Comer bem também é ótimo. Agora melhor, só um serviço. Hoje não dá mais para agir como antes, então faço o que posso. Sempre fui um homem dos sete ofícios e de 14 de precisão.” Traduzindo: se precisar, se multiplica por dois.

Embora a paisagem conduza ao aconchego, o fazendeiro brinca que usa duas muletas quando precisa ir a Belo Horizonte ou Santa Luzia, onde nasceu na zona rural, em 15 de abril de 1916. “Com uma me apoio, com outra afasto um cachorro, se aparecer”, conta às gargalhadas, sem se esquecer de um detalhe: “Se quebrar um osso, não tem como remendar mais”.

Na varanda, diante do pomar, onde colhe goiabas para fazer doce no tacho, das três pequenas represas e das montanhas, Armando volta no tempo, mais exatamente em 1956, e se lembra de quando era dono de depósitos de material de construção e levava cimento e arame para a construção de Brasília (DF). Em cada viagem bate-volta, transportava 60 sacos de cimento e 20 rolos de arame. “Saía sábado de madrugada e voltava no domingo à noite. Foi assim durante meses, muitas vezes sem ajudante para descarregar o caminhão. Na marmita, levava a farofa que minha mulher preparava.”

CHÁ DE HORTELÃ
Depois da conversa na varanda, Armando sente o aroma do chá de hortelã colhida pouco antes e convida os repórteres para saborear a bebida, na sala, com broa de milho, biscoitinhos e pão de queijo. Nesse ambiente, faz questão de falar o nome de filho por filho: Edson (Dinho), Iraci, Elson (Nica), Elce, Elízio, Elizia Isabel, Ederval Rômulo, Maria Ângela, Eunice Elena, Marcos Geraldo, Alcides Luiz, o Cidinho, Ilza de Fátima e Ângelo Armando. “Para criar tantos filhos, tem que trabalhar muito, né?”, argumenta com o sorriso de quem cumpriu a missão sem reclamar.

Entre um gole e outro de chá, o proprietário da Fazenda Aragão se recorda do seu empenho na construção da capela e de residências no bairro de Nova Granja, em São José da Lapa, na Grande BH. “Trabalhei muito ali também”, revela com o semblante pensativo, sem perder o fio da meada. Por onde passou, o homem de 102 anos e “meio” garante que só fez amigos. “Não tenho inimigos, amizade é importante demais na vida.” No esporte, jogando no meio de campo dos clubes Estrelinha e Santa Helena, na zona rural, era chamado de “matador”. E aí vem uma pontinha de saudade misturada com orgulho do físico, pois, centenário, Armando não ficou careca, nem tem barriga.

Em visita ao avô, o advogado Leopoldo Alves lhe dá um abraço carinhoso e elogia as qualidades. “Um exemplo de vida, caráter e honestidade. A cada dia, aprendo mais com ele. Sem dúvida, um grande homem.” Depois, seguem para dentro da casa, onde, em cada espaço, há memórias e muito ainda para fazer. “Não gosto de ficar parado”, despede-se Armando.

VIDA NA SIMPLICIDADE Os 100 anos de Vicente de Paula foram muito comemorados, no dia 29, e teve mais festa, ontem, véspera do Dia dos Pais, na casa da Rua Silva Jardim, no bairro São Geraldo, em Santa Luzia. A celebração reuniu os sete filhos, 17 netos e 16 bisnetos, além de vizinhos e amigos que não se cansam de tecer elogios ao homem de semblante tranquilo e boa paz. Os comentários são os mais variados: uns ressaltam a memória, outros a disposição e tem os que se impressionam com o apetite. “Comida boa para mim é comida de angu. Não gosto de comida de rico, não! Gosto de comida de pobre”, revela Vicente, que aprecia os pratos da culinária mineira, entre eles o frango ao molho pardo ou com quiabo e outros que combinam com o tradicional alimento feito com fubá de milho.

Na frente da residência, a família mandou pôr uma faixa saudando o centenário de Vicente, viúvo de Maria de Jesus Barros Paula, conhecida como dona Lilia; e ele faz questão, com seu chapeuzinho charmoso, de posar para as fotos perto do portão e da mensagem escrita (Parabéns pelos 100 anos. Que Deus te ilumine e abençoe). “A vida é boa, meus filhos são bons. Nunca deixei faltar o pão de cada dia para eles.” Com a voz mansa, acrescenta que jamais foi de vícios, pois prejudicam a saúde. Lições como essa foram passadas para os filhos Antônio, já falecido, Francisco (Chichico), José do Patrocínio, Maria da Assunção (Nininha), Carlos Santana, João Bosco, Vicente e Messias Eustáquio.

Ferroviário aposentado, Vicente trabalhou na antiga Central do Brasil, principalmente na pedreira na comunidade de Ribeirão da Mata, que fornecia material para as estradas. “Nunca fumei cigarro. Só mesmo para acender o estopim da dinamite para explodir a pedreira.” Aí para e reflete, parecendo percorrer uma estrada do tempo com altos e baixos, mas com a plenitude que um século de vida traz.

HONRA Depois da conversa no portão, é hora de saborear os deliciosos pastéis de carne e queijo oferecidos pela família. Vicente se serve de um e diz que viver é ter força para romper barreiras, em qualquer idade ou época. Nascido em 1918, quando o mundo assistia ao fim da Primeira Guerra (1914-1918) e o Brasil era diferente em todos os sentidos, ele acredita que, além da violência da atualidade, a fome é um dos piores males do mundo. “Já foi muito pior do que hoje, tudo era mais difícil no meu tempo de jovem.”

A menção do conflito é a senha para Vicente se lembrar da convocação para lutar na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Demonstrando intimidade com o tempo e seus personagens, conta que foi dispensado pelo então presidente Getúlio Vargas (1882-1954). “Getúlio me dispensou, pois eu era casado. Servi no Exército em 1940 e, quando chamado em 1942, a realidade aqui em casa já era outra”, recorda-se o homem ao receber um beijo carinhoso dos bisnetos Miguel e Letícia, ambos de 3, Maria Júlia, de 6, e Sofia e Maria Heloisa, de 9, e Camila, de 13.

A convivência em família faz bem a Vicente, paparicado por todos e alvo de gratidão. Mãe de Camila, a neta Darlen Cristine de Paula, de 43, diz que o avô sempre pergunta pela menina. “Fico impressionada com a memória dele.” Para a neta Sofia, Vicente é um exemplo, enquanto Carlos, de 66, garante que ter um pai assim é motivo de honra. “É um vencedor. Criou os filhos e quatro sobrinhos.”

O clima de alegria domina o ambiente e cada um faz uma revelação. Com jeito tranquilo, Vicente dá atenção a todos e segue no seu ritmo. Gosta de ficar perto do fogão a lenha, conversar com os vizinhos e levar os dias sem atropelos. E a despedida serve como lição nestes tempos: “A gente deve evitar o que nos faz mal”.


COMPANHEIROS HÁ 70 ANOS O amor abriu caminhos e continua pavimentando a longa estrada de José Ribeiro dos Santos, que completou 100 anos em 14 de junho e tem sempre ao lado a mulher Joana Alves dos Santos, de 85, com quem está casado há quase sete décadas. “É o grande amor da minha vida”, declara-se o homem que ganhou o sustento como carpinteiro e marceneiro e mora em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Depois de um beijo carinhoso dos dois, José agradece a companhia do filho caçula Rúbenes, solteiro, que mora na residência e seguiu o ofício do pai, com uma oficina no terreno vizinho.


Nascidos em Vitória da Conquista (BA), José, chamado na intimidade de Zeca, e Joana, carinhosamente tratada pelo marido de Ninha, vieram para Minas em 1965 com os filhos Cláudio, Maria Cláudia e Carlos Eugênio, ambos falecidos, Paulo, Elane e Rúbenes, hoje com 54. De início, se estabeleceram em Nanuque, no Vale do Mucuri; 10 anos depois, chegaram a Belo Horizonte e há 18 anos a Lagoa Santa. “Minas é nossa casa”, declara-se mais uma vez o centenário, que ganhou festa de aniversário e vai ver a família reunida novamente neste domingo para festejar o Dia dos Pais. Presentes, os quatro netos.

Orgulhoso por ter a mesma profissão de São José, e de ser xará do pai adotivo de Jesus, Zeca conta, sorrindo, que, nos tempos de jovem, recebeu dos amigos o apelido de Zé Magrinho. Um segundo depois, os olhos se enchem de lágrimas e, baixinho, segreda que anda muito sentimental. Joana enxuga o rosto, acaricia os cabelos fartos, mais parecidos com algodão, e diz que não há dinheiro neste mundo que pague tanta felicidade. “Nós nos casamos em 14 de março de 1950, são muitos anos juntos. E serão muito outros”, alegra-se. “Graças a Deus. Só amei esta mulher, mais ninguém”, completa o marido.

PERFUME Um suco natural de maracujá refresca a tarde e José vai até o jardim, na companhia da mulher e do filho. Ao ar livre, recorda que sempre gostou de perfume na hora de sair de casa e de doce na sobremesa. Joana confirma a predileção, que vem desde Vitória da Conquista. Ao rememorar a juventude, o baiano de coração mineiro volta aos tempos em que se alistou no Exército e acabou não indo para a guerra. E como se tivesse sido ontem, canta por inteiro uma marchinha de um antigo carnaval, que opõe o líder nazista Adolf Hitler (1889-1945) e o então presidente Getúlio Vargas (1882-1954). “Quem é que usa cabelinho na testa/e um bigodinho que parece mosca/Só cumprimenta levantando o braço/Ê ê ê ê palhaço/Quem tem um G que representa a glória/quem tem um V que ficará na história/Com seu sorriso que nos dá prazer/Ê ê ê ê vitória.”

Se o nome de Hitler dava arrepios ao rapaz do interior do Brasil, o de Getúlio Vargas, agora, só traz boas recordações. “A primeira vez que votei para presidente foi no Getúlio. Depois, votei de novo. Fiquei muito triste quando ele morreu. Gostava dele, muitos brasileiros também.” Só para lembrar, leitor, no próximo dia 24 faz 64 anos da morte do ex-presidente.

De repente, José revela o gosto pelo ofício que escolheu e que já não pode mais desempenhar. “Sou do tempo em que a gente trabalhava pegando a madeira no mato e depois serrava ‘de dois’, cada um segurando o gurpião (serrote) de um lado.”

A neta Carolina Ribeiro dos Santos, de 30, advogada, transborda-se de emoção. “Vovô Zeca é velhinho com alma de criança. De poucas, mas sábias palavras, representa o homem forte antigo, com ares de doçura e sensibilidade quase infantil. Pai e avô amoroso, marido irretocável. Sempre incluiu a generosidade e a excelência em tudo o que se propôs. Certamente, meu máximo exemplo! Não há quem eu admire mais, a quem tenha mais a agradecer.”

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