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Estado de Minas

De Neymar caindo a mensagens positivas, grafites colorem tapumes da Praça da Liberdade

Mais de 50 artistas fizeram painéis retratando cenas urbanas, do campo, de pássaros e personagens do cotidiano. Um dos grafites que a população poderá ver nos próximos quatro meses é uma brincadeira com o atacante


postado em 23/07/2018 06:00 / atualizado em 23/07/2018 08:13

Alexandre Júnior grafitou o tombo de Neymar, numa brincadeira em referência à polêmica que envolveu o jogador na Copa do Mundo 2018 (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Alexandre Júnior grafitou o tombo de Neymar, numa brincadeira em referência à polêmica que envolveu o jogador na Copa do Mundo 2018 (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)


O fechamento da Praça da Liberdade, cartão-postal de Belo Horizonte, evidenciou uma de suas características. O que lhe dá vida e ainda mais charme são as pessoas. Vista de cima, vazia, os tapumes instalados no início do mês escondem um local quase morto, clamando por cuidados, com terra à vista no lugar do gramado. A vegetação restante está seca. E a imagem lembra fotos antigas da capital, num tom amarelado, sem ninguém por ali. Ontem, foi dia de quebrar esse cenário e, hoje, um dos símbolos da capital mineira amanhece como de hábito: colorida e viva. Não pelo fim das obras, previstas para durarem até novembro. Mas, por outro tipo de intervenção: a da arte.

Os tapumes, de 7,7 metros x 2,2 metros em sua maioria, viraram painéis com cenas diversas, grafitados por 54 artistas. Foi momento de conectar e reconectar a praça mais charmosa de BH com a população, num evento para todas as idades que integrou cores, tintas e sprays à gastronomia e brinquedos de crianças.

As alamedas da Educação e da Segurança, onde hoje estão o Memorial Vale, Museu das Minas e do Metal (MM Gerdau) e o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) foram fechadas para que as pessoas pudessem circular e ver o trabalho sendo feito e ainda curtir a programação do dia. Foodtrucks, brinquedos infláveis e pula-pula fizeram a alegria de quem ontem visitou o local. A iniciativa foi idealizada e organizada em apenas 10 dias pelo Instituto Amado (cujo objetivo é reconectar a cidade com os moradores por meio da arte pública e da educação), a Galeria de Arte Quartoamado e profissionais individuais, com apoio da Prefeitura de BH (PBH). “Alguém deu a ideia de um festival de grafite para colorir o principal cartão-postal da cidade. Procuramos a Prefeitura de BH (PBH), que apoiou a ideia”, conta um dos organizadores, Gustavo Ziller. “Este é o maior museu temporário a céu aberto da América Latina”, afirma.

O chamamento dos interessados ficou disponível on-line por cinco dias. Dos 259 artistas inscritos, 54 foram escolhidos, sendo 23 mulheres e 31 homens. No ato da inscrição, eles mandaram uma amostra da obra a ser grafitada com a justificativa. “Temos a diversidade absoluta, mas tendo como princípio a qualidade dos trabalhos”, ressalta o organizador. Foram convocados ainda 10 artistas excedentes, dos quais dois foram chamados, vistos que a quantidade de painéis foi um pouco maior do que a estimativa inicial. Foi convidado ainda para integrar o grupo o grafiteiro paulistano Dois, de Santo André. A curadoria do festival é do artista, grafiteiro e historiador de arte urbana Binho Barreto, da grafiteira e integrante do coletivo Minas de Minas Carol Jaued, e da ativista e produtora cultural Sara Moreno. “Uma coisa é ver um grafite num muro ou num viaduto. Outra, é ver 54 grafites na Praça da Liberdade”, destaca Ziller.

Nayara Géssica Moreira, a Nica, trabalhou com as letras estilizadas que são sua marca registrada(foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Nayara Géssica Moreira, a Nica, trabalhou com as letras estilizadas que são sua marca registrada (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)


Uma das artistas é a grafiteira Nayara Géssica Moreira, a Nica, que trabalhou com as letras estilizadas que são sua marca registrada. No fundo, palavras como amor, paz e reciprocidade transmitem mensagens positivas para quem passar na Alameda da Educação. Na outra alameda, está o trabalho do artista Rodrigo Scalabrini, o Kaos Scalabrini, cujo painel valoriza o meio ambiente. “A ideia é fazer com que as coisas mais simples sejam mais vistas. O cotidiano desse mundo consumista é corrido e as pessoas deixam de prestar atenção ao que temos de mais valor. Às vezes, a pessoa só lembra que respira ar quando está numa maca de hospital com um balão de oxigênio”, diz.

Já o grafiteiro Alexandre Júnior apostou no humor ao desenhar Neymar caindo, numa referência à polêmica que envolveu o jogador brasileiro na Copa do Mundo 2018.

CONTEMPLAÇÃO Para quem passou pela Praça da Liberdade, foi oportunidade de contemplação. A administradora Marília Castro, de 57 anos, mora fora de Belo Horizonte há mais de 20 anos e esta semana está na capital para vistar a mãe. Fazendo caminhada, ela aproveitou para tirar fotos e guardar de recordação. “Levei um susto com a Praça fechada. Sempre que venho a BH faço questão de me hospedar próximo daqui. Aproveito para correr e caminhar. Amo esse lugar”, conta. Para ela, a proposta de interação foi o ponto alto da iniciativa. “As pessoas ainda têm preconceito com o grafite. Mas, quando se põe o grafiteiro junto com o pula-pula, a bolinha, o sanduíche, quebra esse efeito. Juntar as famílias a esses artistas foi o melhor para mim”, afirma.

A revitalização completa do complexo turístico é tocada pela prefeitura, pelo governo do estado, por meio do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG), e por uma empresa privada. A praça vai passar por uma renovação do sistema de iluminação, restauração do coreto, da estátua Ninfa e do piso da pista de caminhada, reinstalação das placas de monumentos e a reformulação do mobiliário. Ela vai receber equipamentos com padrões arrojados de design com a renovação de bancos e lixeiras. O espaço foi inaugurado em 1897 e foi tombado como patrimônio há 40 anos pelo Iepha.

Os tapumes, de 7,7 metros x 2,2 metros em sua maioria, viraram painéis com cenas diversas. Intervenções artísticas realizadas ao longo do dia de ontem chamaram a atenção de quem passava pela praça (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Os tapumes, de 7,7 metros x 2,2 metros em sua maioria, viraram painéis com cenas diversas. Intervenções artísticas realizadas ao longo do dia de ontem chamaram a atenção de quem passava pela praça (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)


Na tarde de ontem, o prefeito Alexandre Kalil (PHS) visitou os painéis de grafite que cercam a Praça da Liberdade. O prefeito conversou com alguns grafiteiros, tirou fotos com pessoas que passam pela cidade e ouviu pedidos por mais apoio a eventos culturais da capital mineira. Sobre o projeto “Mural da Liberdade”, o prefeito  elogiou a parceria de órgãos municipais com entidades privadas e movimentos artísticos da cidade.

Sem citar nomes, ele afirmou que já espera críticas de vereadores “que só sabem achar defeitos e brincar de internet”. “Esse projeto vai ficar legal e alegrar a cidade. É mais um ato de gentileza na cidade. Sabemos que virão críticas, vai ter oportunista de internet que vai falar mal. Os vereadores de projeto zero vão falar mal na internet. Mas é muito legal e tudo que essa equipe faz na prefeitura é com muita paixão”, afirmou Kalil.

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