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Estado de Minas

'Vem pra rua, vem maluco', canta população no Dia Nacional da Luta Antimanicomial

Desfile, que começou na Praça da Liberdade, até a Praça da Estação, contagiou mais de quatro mil pessoas durante cortejo


postado em 18/05/2018 19:55 / atualizado em 18/05/2018 20:40

(foto: Beto Novaes/EM/DA Press)
(foto: Beto Novaes/EM/DA Press)
Pelas ruas de Belo Horizonte, um pedido comum: "Vem pra rua, vem maluco!". Os gritos ecoaram pelo Centro da capital na tarde de ontem, durante o 21º desfile da Escola de Samba Liberdade Ainda Que Tam Tam. O evento, que desde 1997 mobiliza usuários do serviço de saúde mental, familiares, amigos e simpatizantes, ocorre pontualmente a cada 18 de maio – Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Somadas ao batuque, as cores das seis alas fizeram uma sexta-feira comum, tornar-se "louca" por alguns momentos. Até no trânsito.

Mas o destaque de todo o desfile são mesmo eles. Conforme Sílvia Ferreira, integrante da Associação dos Usuários dos Serviços de Saúde Mental de Minas Gerais (Asussam), fundada por pessoas engajadas no Movimento de Luta Antimanicomial em 1994, o desafio para quem milita na área não está somente nos hospitais psiquiátricos. "Uma sociedade sem manicômios precisa ser um sonho coletivo. Na verdade, a forma manicomial não está somente nos serviços de saúde. É uma forma de tratar, de lidar com a diferença, com o louco. Dessa maneira, há dificuldades na escola, no trabalho", explica Sílvia, fantasiada com as vestes de uma das alas do cortejo.

Confira: "Além dos muros", reportagem especial do Estado de Minas


Para que o cortejo aconteça sempre aos dias 18 de maio, todos os agentes participantes do desfile começam a se reunir meses antes da esperada data. Segundo Soraia Marcos, psicóloga, militante do movimento e integrante do Fórum Mineiro de Saúde Mental, no entanto, os destaques são os usuários. "Eles são os grandes protagonistas desta festa. Eles a ocupam de forma belíssima. Ajudam na construção, tempos antes, e trazem familiares. Brilham e nos ensinam o tempo todo a não recuar diante das dificuldades", avalia Soraia.

Participação


"A luta é de todos nós", complementa a também integrante do fórum Marta Soares, terapeuta ocupacional, coordenadora da Associação Suricato e gerente do Centro de Convivência São Paulo. De acordo com ela, os trabalhadores e os usuários do serviço de saúde mental superaram barreiras, tiveram conquistas, mas ainda há muito a ser feito. "Há que se empoderar os usuários, as pessoas. Os desfiles propõe temas muito densos, pesados, mas necessários. Mesmo com a poética que conseguimos imprimir, foi um desfile corajoso, bonito, importante", esclarece.



Para Dalcira Ferrão, presidente do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), um dos pontos importantes a serem levantados nessa ocasião é o que se refere aos 30 anos da Carta de Bauru, quando 350 profissionais da saúde assinaram um manifesto reivindicando mudanças na política manicomial. "Temos vivido tempos em que direitos que já foram instituídos estão passando por mudanças. A liberdade é terapêutica", afirma.

Samba



"Vem K, vem K. Vem pra rua, vem maluco. LGBTQ sofre. Vem o negro, vem o pobre", diz um trecho do samba proclamado pelas seis alas que coloriram as avenidas João Pinheiro e Afonso Pena, até chegarem à Praça da Estação, onde fizeram o tradicional grande círculo, em comemoração pelo desfile feito e já pensando no próximo ano. Ainda na música, os usuários de saúde mental fizeram uma homenagem a Marielle Franco, vereadora assinada em março deste ano no Rio de Janeiro: "Marielles em cada morte, atentas e fortes, tantãs sem temer a sorte, pois o nosso norte é o voto de contragolpe".

Enquanto isso...

Em Belo Horizonte, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde , há três centros de Referência em Saúde Mental - Álcool e outras Drogas (Cersam-AD), nas regionais Pampulha, Barreiro e Nordeste. Além disso, a capital mineira conta com dois centros de Referência em Saúde Mental Infantil (Cersami), nove centros de convivência, quatro equipes de Consultórios de Rua, duas unidades de acolhimento transitório, uma delas voltada para adultos e outra para crianças. A pasta informou também que Belo Horizonte conta com o Centro Mineiro de Toxicomania, que pertence à Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig).

* Estagiário sob supervisão do editor Roney Garcia

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