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Estado de Minas

Duplo afogamento em clube e queda de brinquedo alertam para cuidado com crianças

Duas crianças morrem em piscina e uma luta pela vida após ter sido lançada de brinquedo inflável, evidenciando riscos em locais de diversão. Sem alvará, clube foi interditado ontem


postado em 23/01/2018 06:00 / atualizado em 23/01/2018 08:18

O parque passou por perícia ontem: não se sabe se o brinquedo estava devidamente amarrado (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)
O parque passou por perícia ontem: não se sabe se o brinquedo estava devidamente amarrado (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)


O domingo de três famílias, que prometia ser de muita diversão e curtição em pleno verão, terminou em tragédia. Um garoto de 10 anos luta pela vida, após ser internado em estado grave por ter sido arremessado de um brinquedo inflável em um parque itinerante na Esplanada do Mineirão, na Pampulha, e duas primas, de 3 e 4 anos, morreram afogadas em um clube que fica no Bairro Vista Alegre, na Região Oeste. Os incidentes acendem um alerta para a atenção com as crianças em brinquedos e piscinas, mas também apontam indícios de falta de segurança e negligência em estabelecimentos voltados para a diversão. No caso do clube, a Prefeitura de Belo Horizonte já afirmou que o estabelecimento não tem alvará de funcionamento e determinou sua imediata interdição.


“Só quero a vida do meu filho, só quero meu filho bem. Nunca tive confiança nesses parques, e quem mexe com criança precisa saber que está mexendo com o coração da pessoa. Eles podiam ter um pouco mais de atenção, porque se o brinquedo estivesse preso no chão talvez nada disso tivesse acontecido”, lamentou o pai do menino, Junio Senna, de 34 anos. Ele buscava o filho, Guilherme Vinícius Vasconcelos, na casa da mãe a cada 15 dias e costumava ir à Pampulha para andar de bicicleta, patins e patinete. No domingo, infelizmente, foi um pouco diferente. Após andar de bike na Esplanada, junto com um primo de 6, a criança avistou o escorregador inflável e pediu para brincar. O pai concordou e comprou as fichas. Pouco antes das 19h, Guilherme subiu no brinquedo em forma de baleia, quando um vento repentino levantou e jogou o escorregador com o garoto na parte inferior, uma espécie de piscina do brinquedo, para o lado da Esplanada. O garoto foi arremessado, com o brinquedo, de uma altura de 10 metros – o que corresponde a aproximadamente três andares de um prédio. “Encontrei meu filho no chão já inconsciente”, contou o pai, ainda muito emocionado. Funcionários e pessoas que estavam no local prestaram os primeiros socorros ao menino. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) levou a criança ao Hospital Odilon Behrens e de lá ela foi transferida para o Pronto Socorro João XXIII.

Junio Senna, pai do menino ferido: 'Só quero meu filho bem'(foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)
Junio Senna, pai do menino ferido: 'Só quero meu filho bem' (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)


INVESTIGAÇÃO Ontem, o pai acompanhou a perícia feita no parque e relatou o acontecido às autoridades, que iniciaram uma investigação. De acordo com as apurações preliminares do Corpo de Bombeiros, o brinquedo ou não estava amarrado no chão ou a amarração havia sido feita de forma incorreta, sendo que esse tipo de escorregador deveria estar fixo no solo para evitar acidentes. O tenente Herman Ameno, do Corpo de Bombeiros, explica que se tratava de um evento de risco mínimo e que havia autorização dos bombeiros. Ele explicou que não viu o brinquedo montado e, por isso, não soube dizer sobre os riscos aos usuários. “Tudo depende do tipo de equipamento. Quando se trata de brinquedos radicais, é necessário fornecer, por exemplo, capacetes. Mas, não sabemos dizer do caso específico”, comentou. “Porém, é visível a responsabilidade do proprietário do parque, que faltou com a segurança necessária”, afirmou.


A auxiliar de serviços administrativos Adriana de Oliveira Vasconcellos, de 29, mãe do garoto, acompanhou durante todo o dia a recuperação do filho no hospital. Ela informou ao Estado de Minas que o filho permanecia em estado grave, sedado e respirando com ajuda de aparelhos. A criança sofreu uma lesão no pulmão que ocasionou sangramento no órgão e apresentava inchaço e hemorragia no cérebro. Abalada, a mulher disse que a família deve processar os responsáveis pelo brinquedo.


O parque Funny Planet divulgou uma nota lamentando o acidente. “A operação montada na Esplanada do Mineirão conta com todas as autorizações necessárias, conforme legislação vigente e cláusulas do contrato de locação do espaço”, diz a nota da empresa. “Neste momento, os esforços da administração do parque estão direcionados à assistência à família da vítima, bem como a apuração dos fatos junto aos órgãos competentes”, finaliza. O local conta com alvará de funcionamento de evento temporário, concedido pela Prefeitura de BH e o Auto de vistoria do Corpo de Bombeiro (AVCB).

O Mineirão também lamentou o acidente, por meio de uma nota, e informou que o parque tem alvará e licenças de funcionamento. Ainda na nota, o estádio informou que prestará toda a solidariedade à família. *Estagiário sob supervisão da subeditora Rachel Botelho

Piscinas do clube onde as meninas se afogaram: proprietário fugiu depois do acidente(foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)
Piscinas do clube onde as meninas se afogaram: proprietário fugiu depois do acidente (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)

Tumulto, morte e sumiço


As primas Alice Santiago Silva, de 3 anos, e Eloísa Ferreira Silva, de 4, morreram afogadas na tarde de domingo em clube que fica dentro de uma casa no Bairro Vista Alegre, Região Oeste de Belo Horizonte. O Arena Clube Mattos, onde ocorreram os óbitos, está irregular desde 2013 e, no momento dos afogamentos não havia salva-vidas, cuja presença é obrigatória nos clubes conforme a Lei Municipal 9.824, de 19 de janeiro de 2010. Após o acidente, o dono do estabelecimento fugiu. Nem mesmo a perícia pôde ser feita na manhã de ontem. O estabelecimento, que tem três piscinas e áreas de lazer, estava abandonado. Segundo informações da Polícia Militar (PM), a ocorrência foi às 18h13 e o pai de Eloísa contou que estava se preparando para ir embora quando notou uma confusão próxima à piscina e viu que sua filha estava se afogando. Em seguida, familiares avistaram outra criança já no fundo da piscina. Era Alice.


Segundo testemunhas, o clube estava lotado no momento do acidente. Minutos antes, teria ocorrido uma briga dentro do estabelecimento, porém o detalhe não foi relatado à polícia. A confusão chamou a atenção da vizinhança. Entre os gritos, uma mãe desesperada dizia: “Salve minha filha”. Uma testemunha contou que vizinhos tentaram levar as crianças para um hospital mas o dono do estabelecimento teria tentado impedir o resgate.


As meninas foram então levadas para o 5º Batalhão da PM, no Gameleira, na Região Oeste. O intuito era ir para uma unidade de saúde, mas encontraram o batalhão no meio do caminho e decidiram pedir socorro. “As garotas foram colocadas no banco de trás, mas já não respondiam aos chamados. Os pais tentaram fazer massagem cardíaca todo o tempo. Chegando lá, dois policiais prestaram os primeiros socorros até a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Médicos ainda tentaram reanimar as crianças por mais de uma hora, sem sucesso. “Foi uma cena horrível. Ontem, eu não parava de chorar. Nós, que também temos filhos, nos identificamos com o sofrimento dos pais. A imagem das crianças fica na nossa cabeça, é até difícil de dormir”, lembrou uma das testemunhas.


Nenhum responsável pelo Arena Clube Matos foi encontrado. Testemunhas contaram aos militares que os proprietários deixaram o local em um veículo e que não havia salva-vidas no clube quando as crianças se afogaram. A reportagem tentou entrar em contato com os reesposáveis pelo estabelecimento, mas as ligações não foram atendidas. “Ele mora aqui há cerca de 30 anos. Primeiro veio a casa e depois construiu o clube. Nunca vimos nenhum salva-vidas”. Após o afogamento, os frequentadores se revoltaram e ameaçaram de morte o dono do local. Foi então que ele saiu em um carro, contou uma testemunha.

INQUÉRITO A Polícia Civil informou que instaurou um inquérito para apurar o caso e que, ainda nesta semana, todas as partes – responsáveis pelo clube e familiares – serão chamadas para prestar depoimento. Também haverá perícia nesta semana no clube. O Corpo de Bombeiros informou que após uma operação conjunta com a Polícia Militar e Prefeitura de Belo Horizonte o local foi interditado em janeiro de 2013. Na ocasião, não havia Projeto de Segurança Contra Incêndio e Pânico. Em novembro daquele ano, os bombeiros voltaram a vistoriar o local. “Eles já tinham feito a adequação mínima, como extintor de incêndio e saída de emergência e, por isso, o local foi liberado para ser reaberto. Mas, eles precisavam enviar um projeto para emitir o auto de vistoria, em 60 dias, que garante a regulamentação total do local”, contou o tenente Herman Ameno. Porém, após enviar o projeto, o proprietário do clube não pagou a taxa necessária para dar prosseguimento ao documento. Entre novembro de 2013 e janeiro 2018, o local não foi vistoriado. “As vistorias só acontecem por meio de denúncias. Não recebemos nenhuma solicitação”, disse. A Prefeitura de Belo Horizonte informou que o clube não tem alvará de funcionamento e determinou sua interdição.

 

DICAS


Na piscina 

» Crianças não devem permanecer desacompanhadas em piscinas, nem mesmo nas rasas

» Procure sempre local onde exista a presença de guarda-vidas ou do Corpo de Bombeiros Militar

» Não entre em águas poluídas ou em locais onde há aviso de perigo

» Nunca nade sozinho

» Permaneça próximo à margem

»  Nunca salte de locais elevados para dentro da água

» Evite fazer refeições pesadas antes de entrar na água

» Evite permanecer próximo de onde haja embarcações

» Em caso de afogamento, após retirada da água a pessoa deve ser mantida aquecida, sentada, se estiver consciente, ou deitada lateralmente, se inconsciente, até a chegada dos bombeiros

No parque 

» Verificar se o brinquedo tem certificado de segurança

» Verifique se há monitores próximos
aos brinquedos

» Confira se a altura e o peso da criança são adequados para o brinquedo

»  Confira se alguma condição orgânica da criança, como epilepsia, é impedimento para o uso do brinquedo

 

 

Óbito após engasgo


Um menino de 3 anos morreu engasgado quando comia salsicha, no começo da noite do domingo, em São Gonçalo do Sapucaí, Sul de Minas Gerais. A situação do garotinho se complicou, já que a caminho do hospital, para ser socorrido, o carro em que estava se envolveu em um acidente. De acordo com a Polícia Militar Rodoviária (PMRv), familiares levavam a criança para a Santa Casa da cidade, quando na MG-878 o motorista perdeu o controle do veículo, bateu em um barranco e capotou. O menino, quando chegou ao atendimento médico, já havia morrido por obstrução das vias aéreas, segundo informou a polícia. O condutor e a uma passageira tiveram ferimentos leves.

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