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Estado de Minas

Famílias querem filhos em escolas longe de barragem de Congonhas

Indicativos de problemas na estrutura de dique em Congonhas põem em alerta famílias que vivem em comunidades vizinhas


postado em 15/11/2017 06:00 / atualizado em 15/11/2017 07:31

A cozinheira Maria Auxiliadora de Oliveira diz que o fantasma do medo surge com as chuvas e já assombra até as crianças que vivem na região(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press. )
A cozinheira Maria Auxiliadora de Oliveira diz que o fantasma do medo surge com as chuvas e já assombra até as crianças que vivem na região (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press. )

Congonhas – O medo de que a Barragem Casa de Pedra se rompa, em Congonhas, na Região Central de Minas, criou um estado de apreensão tão grande nos bairros suscetíveis a soterramento, que pais de crianças que estudam nessas quatro comunidades declararam que vão tirar os filhos das unidades. Desde 2016, quando a barragem apresentou infiltrações, sua proprietária, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), tenta combater esses indicativos de problemas estruturais. Mas a percepção de que ante os riscos que a estrutura da barragem apresentava a comunidade deveria ser treinada emergencialmente fez com que o governo de Minas Gerais tomasse ações paralelas, com um grupo de ação formado pela Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec), o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar e outras secretarias, como mostrou a reportagem do Estado de Minas da última quinta-feira.

Os problemas identificados na Barragem Casa de Pedra foram localizados no Dique de Sela, um paredão de 80 metros de altura, que auxilia na contenção de 9,2 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro. As ombreiras da construção, que são o seu apoio sobre morros naturais, apresentaram, de acordo com parecer técnico da Central de Apoio Técnico (Ceat) do Ministério Público (MP), fator de estabilidade de 1,3 – o mínimo exigido pela legislação do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) é 1,5. De acordo com a CSN, as obras no dique elevaram o fator de estabilidade para 1,6 e 1,7 nos dois lados do barramento, mas as intervenções continuam. Sob os maciços de terra e rejeitos, na área identificada como suscetível à devastação de um rompimento, foram identificadas 1.367 casas e uma população de 4.800 pessoas nos bairros Cristo Rei, Gran Park, Eldorado e Residencial, alguns com residências a menos de 250 metros da estrutura em obras.

Entre as estruturas na zona sujeita a soterramento estão, a pouco mais de 1 quilômetro de distância do Dique de Sela, a Escola Municipal Conceição Lima Guimarães, que tem 125 alunos do ensino fundamental, e a Creche Municipal Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, onde 130 crianças de 6 meses a 3 anos e 6 meses de idade são diariamente deixadas pelos seus pais que vão trabalhar. A base do Dique de Sela é cerca de 21 metros mais alta que esses dois edifícios vizinhos, do Bairro Residencial, o que mostra uma alta propensão para essa parte ser completamente encoberta por uma onda de rejeitos, a exemplo do que ocorreu em Bento Rodrigues, em Mariana, há dois anos.

Uma das funcionárias da creche, a faxineira Rosilene Martins, de 44 anos, conta que muitos pais estão assustados com a falta de informações e temerosos pela segurança de seus filhos enquanto estão fora trabalhando e por isso pensam em procurar outras creches em locais mais seguros. “Todo mundo está muito assustado. E já conversei com muitos pais que avisaram que estão procurando outros lugares para transferir os filhos e que já no ano que vem vão tirar os meninos daqui”, conta. Ainda de acordo com a funcionária, as pessoas que trabalham na escola e na creche também ficam preocupados com a estabilidade da barragem. “Sempre tem reuniões e já fizeram (a CSN) o recadastramento das pessoas que são suscetíveis a um rompimento. Acho que as providências da CSN estão muito devagar. Falaram que ia ter sirenes, que ia ter placas, mas até agora não vi nada. Nossas vidas não podem esperar por lei nem por nada. Deviam ser uma prioridade”, disse.

A cozinheira Maria Auxiliadora Marciano de Oliveira, de 50, conta que quando chove o pânico toma conta das crianças. “Já ouvi os pequenininhos falando que todo mundo fica com medo aqui no bairro. De tanto ouvir a preocupação dos pais, eles acabam ficando com medo mesmo. Já os ouvi dizendo: 'Nossa Senhora, a chuva vai estourar e a barragem vai entupir a gente aqui em baixo na escola'”, conta.


Exercício e sinalização

Está marcado para o dia 26 um exercício de evacuação organizado pela Prefeitura Municipal de Congonhas e a CSN. Até lá, a empresa afirma já ter parte das cinco sirenes de alerta em funcionamento para serem acionadas aos primeiros sinais de problemas na Barragem Casa de Pedra. Na segunda-feira, a CSN instalou uma das primeiras sinalizações de Ponto de Encontro nas comunidades ameaçadas e, à noite, houve reunião com a comunidade num galpão para falar sobre a evacuação de emergência. Em discurso numa rádio local, o prefeito José de Freitas Cordeiro, o Zelinho, (PSDB), informou que o município está contratando profissionais para auxiliar no monitoramento e que mantém conversas com a mineradora. “Há seis meses estamos em conversas para que a CSN mude a forma de disposição de rejeitos para uma forma sólida, sem água. Estamos monitorando essa situação por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e estamos contratando geólogos e especialistas para nos ajudar a fiscalizar”, disse. Ele cobrou a publicidade das ações para a empresa.


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