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Estado de Minas

Trabalho na Vereda da Prata mostra que é possível reverter degradação

Trabalho de recuperação mantido na cidade batizada em homenagem ao rio mostra que é possível reverter processo de degradação e secamento de nascentes que sufoca a bacia


postado em 25/09/2017 11:00 / atualizado em 25/09/2017 12:10

Amâncio Mendes da Silva, pequeno produtor que tem terreno ao lado de onde a água voltou a aflorar: testemunho de que salvação é possível(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
Amâncio Mendes da Silva, pequeno produtor que tem terreno ao lado de onde a água voltou a aflorar: testemunho de que salvação é possível (foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
São Francisco – Ainda é possível aumentar a vazão do Rio São Francisco, diante do assoreamento avançado e das estiagens severas? Embora estudo elaborado pelo Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos e pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) proponha como medidas a transposição de águas de outros manaciais para o Velho Chico e a construção de mais represas, a solução passa também por iniciativas pequenas e que precisam ser disseminadas por toda a bacia, como a recuperação de nascentes, veredas e de pequenos córregos. É uma espécie de “trabalho de formiguinha”, que precisa ser multiplicado, já que são exatamente as milhares de pequenas nascentes e cursos d’água que ajudam a garantir o volume do canal principal.



O exemplo dessa possibilidade de ação salvadora do Rio da Unidade Nacional pode ser conferido na cidade batizada com o nome do rio, no Norte de Minas. No município de São Francisco foi lançado um projeto que estimula o plantio de árvores, o cercamento de veredas e de nascentes que secaram devido à degradação ambiental. O trabalho foi implantado junto a pequenos produtores rurais na sub-bacia do Rio Pajeú. A iniciativa é Comitê da Bacia do Médio São Francisco e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

O técnico Márcio Passos Ribeiro, da Secretaria de Meio Ambiente de São Francisco, destaca que, com a implantação das ações, após um período de quatro anos nascentes ou córregos antes considerados mortos podem voltar a ter água. O exemplo dessa recuperação está na Vereda da Prata, na região de Bom Jardim, no município de São Francisco.

Márcio conta que há alguns anos, a vereda, que alimenta um afluente do São Francisco, secou completamente como consequência de uma série de ações humanas, incluindo o desmatamento do cerrado em suas proximidades, o pisoteio do gado e a abertura de estradas vicinais. A partir de uma ação conjunta, que envolveu também a comunidade, a vereda foi cercada e houve até a suspensão de atividade produtiva perto dela.

A equipe do Estado de Minas foi até o local, onde é possível conferir o renascimento da nascente da Vereda da Prata. “Realmente, estava tudo seco. Depois que a área foi cercada, a água voltou a brotar”, comemora Amâncio Mendes da Silva, pequeno produtor que tem um terreno ao lado de onde aflora a água da vereda. Na localidade vivem cerca de 80 famílias, que dependem da água do córrego alimentado pela Vereda da Prata, seja para o consumo próprio ou para manter seus animais.

PROJETOS OFICIAIS A Codevasf, cujos técnicos participaram do diagnóstico que quantificou o soterramento do Rio São Francisco, informou que vem adotando uma “série de intervenções para conter os processos erosivos, promover a revitalização e proteger o meio ambiente na Bacia do Rio São Francisco”. “São ações de recuperação hidroambiental que buscam intensificar a infiltração da água no solo e reduzir o carreamento de sedimentos por meio de enxurradas”, informa, acrescentando que os investimentos oficiais em ações na bacia somam R$ 68 milhões.

De acordo com a Codevasf, as ações incluem ainda a implantação de terraços, bacias de captação de águas pluviais (conhecidas como barraginhas) e estradas ecológicas, além da contenção e da estabilização de voçorocas, o reflorestamento e a proteção de matas ciliares e topos de morros. “Associado a isso, há o esforço continuado de promover educação ambiental. Esses trabalhos são realizados diretamente pela Codevasf e também em parcerias com estados, prefeituras, comitês de bacias e sociedade civil”.

Ainda segundo o órgão, o trabalho de recuperação ambiental e controle erosivo é feito com o uso de diferentes métodos. Entre eles estão revegetação, cercamento e proteção de nascentes, matas ciliares e topos de morro, readequação de estradas vicinais e estabilização de margens, entre outros. “Uma das principais finalidades dessas iniciativas é captar e acumular águas pluviais, aumentando sua infiltração no solo e promovendo o abastecimento dos lençóis freáticos”, enfatiza. A Codevasf informa que desde o inicio das ações, em 2005, foram cercadas e protegidas 1.238 nascentes na Bacia do Rio São Francisco.

O enterro de um santo


O Estado de Minas publica desde ontem a série “São Francisco soterrado”, que mostra o processo de assoreamento que vem matando, lenta e continuamente, o chamado Rio da Integração Nacional. A primeira reportagem revelou resultados de estudo inédito feito em conjunto pelo Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos e pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), que mapeou as causas do processo. Segundo o trabalho, a cada ano o leito principal vem sendo entupido com nada menos que 23 milhões de toneladas de sedimentos, a maior parte reflexo de ações humanas na bacia, como a remoção da vegetação nativa, a urbanização e a retirada de água para consumo e irrigação.

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