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Estado de Minas OURO PRETO

PMs envolvidos em operação que terminou em morte de jovem vão responder em liberdade

Igor Arcanjo Mendes, de 20 anos, foi atingido por um tiro quando o veículo em que estava foi parado por policiais militares. PMs disseram que ele fez 'um movimento brusco'


postado em 18/09/2017 14:18 / atualizado em 18/09/2017 22:39

Corpo de jovem foi enterrado nesse domingo (foto: Reprodução/Facebook)
Corpo de jovem foi enterrado nesse domingo (foto: Reprodução/Facebook)

Os policiais militares envolvidos na operação que terminou na morte de um jovem em Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, vão responder em liberdade. De acordo com a assessoria de imprensa da PM, a corregedoria abriu um inquérito para investigar o que teria ocorrido no dia da morte. O garoto ia para um show de rap com amigos e foi morto depois de militares suspeitarem de "um movimento brusco", quando recebeu a ordem de descer do carro, o que fez com que um dos agentes acreditasse que ele sacaria uma arma de fogo. Nesta segunda-feira, familiares e amigos fazem protestos na cidade.

O caso ocorreu na noite de sexta-feira. Igor Arcanjo Mendes, de 20 anos, estava em um carro junto com amigos e seguia para um show. Ele acabou baleado quando o veículo foi parado em uma operação da PM. “Na hora não vi que foi um tiro. Escutei um estouro e pensei que era uma bomba, foi muito rápido. Mas quando saí do carro, o Igor já estava no chão ensanguentado e sem respirar”, afirma S.C.B, de 17 anos, que estava no automóvel.

Em entrevista ao em.com.br, a jovem contou a versão dada em depoimento à Polícia Civil ainda na sexta-feira. De acordo com S.C.B, o fato ocorreu entre as 21h as 22h, quando militares em uma viatura pediram que o motorista do Fiat Palio em que Igor estava com quatro amigos parasse o carro.

Segundo a jovem, o pedido dos policiais foi atendido, e então começou o conflito. “Nós fomos abordados por um camburão e os policiais, numa tamanha ignorância, já saíram da viatura com as armas em punho e gritando pra gente coisas como 'desce do carro agora', 'mão na cabeça todo mundo'. Nesse momento, as portas do carro travaram e aí o policial apontou a arma para a cabeça do Igor e mandou que ele descesse com as mãos na cabeça”.

De acordo com o relato da jovem, o amigo atendeu ao pedido do policial e abaixou uma das mãos para abrir a porta do carro. “O Igor obedeceu, abriu a porta do carro e levou as mãs à cabeça. Foi nessa hora que escutamos um barulho enorme, como se fosse uma bomba. Quando saímos, e olhei para baixo e vi o Igor com a metade do corpo pra fora do carro, ele estava todo ensanguentado. Eu entrei em desespero e comecei a gritar para minha amiga que o Igor estava morto, pois eu não o vi agonizando ou respirando.”

Após o disparo, S.C.B disse que os policiais mandaram que os amigos guardassem os celulares e não ligassem para ninguém. Pediram também que o grupo deixasse o local, acompanhado por outros policiais. A jovem, no entanto, precisou ser medicada em uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da cidade por causa de estilhaços no pescoço.

“Fomos para a UPA, onde fui atendida sem ter nenhuma notícia do Igor. Voltamos para o local onde ele foi morto e não deixaram a gente sair da viatura, enquanto os policiais fizeram uma rodinha e começaram a conversar bem baixo e olhando para a gente. Nos levaram para o quartel, onde ficamos até as 3h e depois fomos encaminhados para a delegacia, onde um moço sem querer nos contou que ele tinha morrido dizendo: 'Vocês são amigas do menino que morreu né?'. Ficamos arrasados e tivemos de ir com os policiais à casa do Igor para dar a notícia para a mãe dele”.

De acordo com S.C.B, durante a abordagem policial, Igor Mendes não fez nada além do que foi pedido pelos policiais. A jovem também reiterou que ninguém no carro estava usando drogas. “Não tinha droga nenhuma no carro e nem com o Igor. A droga só apareceu depois que ele foi morto. Sempre encontrava com ele e nunca vi ele nem com um cigarro na mão. Trataram a gente como bandido e não somos."

Familiares e amigos fizeram uma manifestação nesta segunda-feira(foto: Reprodução/ Internet/ Whatsapp )
Familiares e amigos fizeram uma manifestação nesta segunda-feira (foto: Reprodução/ Internet/ Whatsapp )


Posicionamento da PM

Em nota, enviada à imprensa no ultimo sábado, a assessoria de comunicação do 52º BPM informou que o Fiat Pálio estava com “lotação superior à permitida, seis ocupantes, e com película escura nos vidros, o que gerou suspeição e acompanhamento da viatura policial.” Ainda conforme a nota, foi dada ordem de parada ao veículo, que não foi obedecida de imediato. O carro só parou, segundo a PM, em um segundo pedido de parada.

“O passageiro que ocupava o banco da frente, no momento da ordem para descer do veiculo, levou as mãos à cabeça e, em seguida, abaixou-se e tirando as mãos da cabeça efetuou movimento brusco com as mãos em direção ao porta-luvas do carro. O comandante da equipe policial, então, verbalizou e efetuou um disparo de arma de fogo na direção do passageiro, pois devido ao movimento brusco do jovem, o mesmo poderia atentar contra a integridade física dele e dos outros policiais militares.”

Ao fim da nota, a polícia informou que dois pinos de cocaína foram encontrados no carro e que uma bucha de maconha foi encontrada no bolso de Igor Mendes, por uma enfermeira da Upa, onde o jovem foi atendido. A Polícia Militar informou que o motorista do carro, de 46 anos, foi detido por prática de transporte irregular dos passageiros que se encontravam no Fiat Palio, que foi apreendido. O caso será investigado pela Corregedoria de Polícia Militar.

A Prefeitura de Ouro Preto divulgou nota sobre o caso e pediu investigação. “A ação policial merece pronta investigação da Corregedoria da Polícia Militar, do Ministério Público e do Poder Judiciário. O Município de Ouro Preto acionará também a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais para acompanhar todas as apurações”, disse. A administração municipal ainda ressaltou que o jovem era conhecido como uma pessoa de boa índole , sem passagem pela polícia, trabalhador e vindo de uma família de bons princípios e valores.

Manifestação

Na manhã desta segunda-feira, familiares e amigos, inconformados com a morte de Igor Arcanjo, protestam em ruasqueligam o bairro onde o jovem morava ao Centro de Ouro Preto. Além de cartazes e faixas, o grupo fez uma barricadacom pneus e impediu o trânsito de veículos.


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