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Estado de Minas

Cresce o uso de ônibus no tráfico de drogas em Minas Gerais

Reflexo da intensificação das blitze da PRF, número de apreensões de entorpecentes nas BRs de Minas dispara em 2017 e revela novo perfil de traficante: os 'aventureiros' no crime


postado em 22/08/2017 06:00 / atualizado em 22/08/2017 08:34

Flagrante de transporte de substâncias ilegais na bagagem: polícias querem mais vigilância em rodoviárias(foto: PRF/Divulgação)
Flagrante de transporte de substâncias ilegais na bagagem: polícias querem mais vigilância em rodoviárias (foto: PRF/Divulgação)

A intensificação da abordagem pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) a ônibus que circulam em BRs de Minas Gerais revela que o tráfico de drogas tem usado os coletivos como frequente ferramenta para escoar e distribuir a produção de drogas pelo estado. Enquanto em todo o ano passado os agentes se depararam com apenas dois casos de drogas levadas por passageiros em Minas, de janeiro até ontem já são 25 casos – aumento de 1.150% – três deles só na última semana. Ainda não há a contabilização final do material recolhido em todas as ocorrências, mas em apenas 15 dos 25 casos já foi possível tirar de circulação 291 quilos de maconha, 45 quilos de cocaína e 1,1 quilo de crack. Nas outras 10 ocorrências há somente o número de unidades apreendidas, que somam mais 114 tabletes de maconha, 18 de cocaína e 533 pinos e porções da mesma droga. Para a PRF, quem se arrisca nesse tipo de situação normalmente leva uma quantidade menor de entorpecente, com o objetivo de chamar menos a atenção e minimizar perdas caso seja descoberto. A Polícia Civil acredita que o flagrante, que tem ocorrido na média de uma vez a cada nove dias, revela um perfil de traficante que está se aventurando e normalmente é novato no crime.

Em março do ano passado os policiais da PRF em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, apreenderam 222 papelotes de cocaína e cinco buchas de maconha dentro de um ônibus parado na BR-116. Oito meses depois, em novembro, houve nova apreensão na mesma BR-116, desta vez em Leopoldina, na Zona da Mata. Dois passageiros foram presos com 660 gramas de cocaína e 100 gramas de maconha. Enquanto essas foram as duas únicas ocorrências enquadradas como tráfico dentro dos coletivos em 2016, somente na última sexta-feira dois casos mobilizaram a PRF nas BRs 262, em Araxá (Alto Paranaíba), e 116, em Teófilo Otoni (Vale do Mucuri).

No primeiro deles, um passageiro de um ônibus que saiu de Foz do Iguaçu (PR) com destino a Salvador (BA) foi preso na BR-262, em Araxá, com 12 quilos de maconha. Ele informou ter comprado a droga no Paraná, e que revenderia o material em Belo Horizonte. No mesmo dia, um ônibus que seguia de Campinas (SP) para Salvador foi parado na BR-116, em Teófilo Otoni, e cinco sacolas com substância análoga a cocaína, totalizando cinco quilos, foram apreendidas. A passageira, de 36 anos, disse ser moradora de Itapetinga (BA).

Segundo a inspetora Flávia Cristina, chefe do Núcleo de Comunicação da PRF em Minas, em 2016 houve uma concentração de atividades da PRF no Rio de Janeiro, devido aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, o que contribuiu diretamente para o baixo número de flagrantes nos coletivos. Neste ano, todo o trabalho de fiscalização foi intensificado pela corporação, o que se refletiu no aumento das apreensões de drogas em ônibus.

Ainda segundo Flávia Cristina, a estratégia da PRF é continuar capacitando seus servidores com treinamentos técnicos específicos de fiscalização de drogas em veículos. A inspetora acrescenta que seria muito importante que nas rodoviárias houvesse fiscalização mais rigorosa de bagagens. “Se pudesse ser como o controle dos aeroportos, seria excelente. A simples identificação de a quem pertence a bagagem já ajuda”, afirma.

O pesquisador da Fundação João Pinheiro Marcus Vinicius Cruz, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que, apesar do aumento de apreensões em 2017 em relação a 2016, o número ainda é muito pequeno se considerada a quantidade de viagens de ônibus nas BRs de Minas. “A melhor forma de combater esse problema, além de controle da bagagem dos passageiros, seria o uso de cães farejadores com frequência, seja no embarque, desembarque ou nas paradas de ônibus”, destaca o especialista em segurança pública. Para ele, outra estratégia deveria ser o investimento em inteligência, no sentido de mapear as principais rotas. “Com isso, seria possível lançar operações conjuntas entre todas as organizações voltadas para esse fim. Não apenas o tráfico, mas outros delitos que também podem ser cometidos, como roubo de carga e roubo dentro dos ônibus”, afirma.

Passageiros do risco


Para o delegado que comanda o Departamento Estadual de Combate ao Narcotráfico (Denarc) da Polícia Civil, Wagner Pinto, o trabalho de inteligência e a coleta de informações sobre essas ocorrências mostra um perfil de quem leva drogas em ônibus. “São pessoas mais aventureiras, menos organizadas no padrão do tráfico de drogas, com um certo amadorismo. São praticamente iniciantes, pessoas descapitalizadas, com menos quantidade de recursos para investir”, afirma. Ele ressalta que uma característica comum a esses “passageiros do crime” é que, como têm menor poder aquisitivo, estão buscando se estruturar como traficantes. “Eles pegam o ônibus e se aventuram. Colocam na mochila ou na mala e firmam um contrato de risco”, disse.

O delegado informa que não há uma regra sobre a área de atuação dessas pessoas. “Na rodoviária de BH, volta e meia há informações de pessoas trazendo drogas. Quando fazemos a abordagem, verificamos que a denúncia procede”, conta. Wagner Pinto defende maior fiscalização nas rodoviárias por meio de aparelhos de raios x, a exemplo do que ocorre nos aeroportos, e do cadastramento de passageiros, não apenas em nível interestadual, como ocorre atualmente. “É importante associar a bagagem ao passageiro. A gente encontra quantidade de drogas, mas quem é o dono? A pessoa joga fora o bilhete e a fiscalização não encontra quem está de posse do material”, afirma, acrescentando que o procedimento ajudaria também em outras situações, como o porte ilegal de arma.

O titular do Denarc ressalta ainda que a falta de procedimento para identificação de passageiros e bagagem dificulta o trabalho de fiscalização, pois a malha rodoviária é muito grande e o quantitativo de transporte intermunicipal e interestadual é gigantesco. “Sendo assim, a abordagem da PRF, por exemplo, é aleatória ou embasada em informações preliminares. É difícil esse controle”, afirma. O policial destaca que Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, é um grande centro de aquisição de maconha. Mas vários outros pontos atraem traficantes, como Mato Grosso (referência em maconha e cocaína) e Paraná. “São várias as rotas para as drogas chegarem até a capital e o interior de Minas”, completa.

Procurada, a Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT) informou que sua Resolução 1.432, de 2006, estabelece que, havendo indícios que justifiquem a verificação, agentes de fiscalização poderão pedir a abertura das bagagens por passageiros, nos pontos de embarque, e das encomendas, nos locais de recebimento. Além disso, “as transportadoras são obrigadas a manter controle de identificação das bagagens despachadas nos bagageiros e de sua vinculação a seus proprietários”, afirma, acrescentando: “Em uma abordagem de fiscalização, o motorista deve, quando solicitado, mostrar as vias dos tíquetes de identificação de bagagem devidamente vinculadas aos passageiros”. A agência informa que a não vinculação de malas com seus donos é passível de punição.

 

300kg de maconha em fundo falso de carreta


Uma fiscalização de rotina da Polícia Rodoviária Federal  erminou na apreensão de mais de 300 quilos de maconha na tarde de ontem na BR-262, em Florestal, na Região Metropolitana de BH. A droga estava escondida no fundo falso de uma carreta. O motorista foi preso, mas não deu detalhes do destino do material ou quanto recebeu para fazer o transporte.

Clique para ampliar(foto: Arte EM)
Clique para ampliar (foto: Arte EM)

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