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Estado de Minas

Estiagem e consumo sugam o Rio das Velhas, que abastece a Grande BH

No início do período da seca, manancial que abastece 60% da Região Metropolitana da capital já tem, na estação de captação da Copasa, vazões sucessivas abaixo da cota que é considerada estado de alerta


postado em 04/08/2017 06:00 / atualizado em 04/08/2017 07:35

Bancos de areia no leito perto da estação de tratamento de Bela Fama denunciam a baixa no volume e deixam apreensivos representantes do comitê de bacia (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
Bancos de areia no leito perto da estação de tratamento de Bela Fama denunciam a baixa no volume e deixam apreensivos representantes do comitê de bacia (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
O aposentado Ademir Perdigão, de 62 anos, se recorda de quando plantou uma semente de limão que, hoje, se transformou em uma árvore frondosa: “Foi na beirada do Rio das Velhas. A água vinha até aqui. Olha agora como a margem está longe”. O resultado que ele aponta nas barrancas traduz a pouca chuva nos últimos anos em Honório Bicalho, distrito de Nova Lima, que reduziu o leito do curso d’água na altura da estação de tratamento de água (ETA) usada pela Copasa para abastecer cerca de 60% da população da Grande Belo Horizonte.


Na quarta-feira, a vazão atingiu 10,4 metros cúbicos por segundo (m3/s). No dia anterior, 9,7m3/s, configurando estado de alerta. A situação pode se repetir nos próximos dias, devido ao início da temporada de estiagem. Em linguajar técnico, vazão abaixo de 10m3/s está inferior à taxa mínima de sete dias consecutivos em um período de 10 anos, índice chamado Q7,10. Trata-se do coeficiente de referência para concessão de outorgas e definição da situação hídrica no estado.

Questões técnicas à parte, o resultado prático se vê no leito minguado pela estiagem, onde montes de areia se formaram na calha do rio. Marcas nas margens também denunciam que o volume de água que corria por ali já foi bem maior. “De acordo com a Deliberação Normativa 49 (ano 2015), do Conselho Estadual de Recursos Hídricos, estar abaixo do Q7,10 significa entrar em estado de alerta, em que o risco de escassez hídrica, que antecede ao estado de restrição de uso, pode implicar restrições de uso para captações de águas superficiais e no qual o usuário de recursos hídricos deverá tomar medidas e se atentar às eventuais alterações do estado de vazões”, alertou o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas.

Para a entidade, o cenário em Bela Fama, nome da estação em que a água que serve à Grande BH é capitada, é pior abaixo da estação de tratamento. A explicação está no consumo de 6,5m3/S, usado para abastecer os consumidores da região metropolitana, o que contribui ainda mais para reduzir o volume no leito dos Velhas.

O aposentado Ademir Perdigão e o limoeiro que foi plantado onde ficava a margem: 'Dá dó ver o rio assim' (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
O aposentado Ademir Perdigão e o limoeiro que foi plantado onde ficava a margem: 'Dá dó ver o rio assim' (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)


RISCO DE COLAPSO O presidente do comitê, Marcus Vinícius Polignano, destaca que a situação merece atenção por parte de todos os atores da bacia. “Estamos apenas iniciando o período de estiagem e o cenário já é este. Se não quisermos vivenciar um colapso da situação hídrica e do abastecimento da Região Metropolitana de BH em curto prazo, é preciso que todos os atores revejam os modos sobre como estamos usando a nossa água, e também os locais que abastecem nossos mananciais”, adverte.

A estiagem dos últimos anos ajudou a reduzir bastante o volume no leito. Em 2014, considerado o pior ano de escassez de água, o volume de chuva foi de 546 milímetros (mm). Em 2015, ficou em 798mm. Em 2016, 695mm. Nos sete primeiros meses de 2017, a quantidade é de 448mm, segundo informação da Copasa.

A estatal de saneamento informou que a vazão mínima do Velhas está sendo monitorada pelo Convazão, um grupo coordenado pela própria Copasa e composto por representantes da Cemig, Anglo Gold (mineradora que atua na região) e pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas. “O Convazão tem por objetivo tomar medidas que garantam a vazão residual definida em outorga do manancial. O Sistema de Abastecimento de Água Integrado da Região Metropolitana de Belo Horizonte abrange 21 dos 31 municípios atendidos pela Copasa na Grande BH e é constituído de dois grandes sistemas produtores: o da Bacia do Rio das Velhas e o da Bacia do Rio Paraopeba (captação do Rio Paraopeba e reservatórios Rio Manso, Serra Azul e Vargem das Flores)”, informou.

Na prática, o sistema integrado tem flexibilidade operacional, pois é interligado por adutoras que possibilitam a transferência de água tratada entre as redes Velhas e Paraopeba. Por isso, segundo a Copasa, “em uma eventual necessidade de redução de produção de água tratada no sistema Rio das Velhas, em função da queda da vazão do manancial, é possível aumentar a produção de água tratada do Sistema Rio Paraopeba e, por meio de manobras operacionais, abastecer regiões originalmente atendidas pelo Velhas”.

 

Abundância que ficou só na memória

 

Moradores de Honório Bicalho, em Nova Lima, sofrem em ver o Rio das Velhas baixo. Muitos se recordam até da enchente de 1997, quando a força da água derrubou a ponte de madeira que ligava as duas partes do distrito. “A água tampou todo este quintal”, conta seu Ademir Perdigão, que cuida de algumas criações de animais a poucos metros da nova passagem, erguida com cimento e ferro. “Até 2003, eu buscava água com baldes no lugar em que está este pé de limão. Agora preciso andar mais. Acho que a água se afastou de cinco a seis metros. Dá dó ver o rio assim, com montes de areia. Quem o conheceu há mais tempo, como eu, fica triste”, disse Ademir.

O também aposentado Osvaldo Antônio Venceslau, de 67, é outro que tem boas recordações do passado. “Tinha muitos peixes. O pessoal pescava dourados sem grande dificuldade. Hoje só tem peixe pequeno. A gente fica com pesar de ver o Rio das Velhas como está hoje. E pensar que ele já foi navegável.”

Osvaldo Venceslau lembra que as águas já foram fartas em pescado: 'Hoje, só peixe pequeno'(foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
Osvaldo Venceslau lembra que as águas já foram fartas em pescado: 'Hoje, só peixe pequeno' (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
O Comitê de Bacia do Rio Velhas vem adotando medidas para enfrentar a crise e evitar a escassez. Além de ciar o Convazão, que é coordenado pela Copasa, o grupo definiu que usará o Sistema Integrado de Reservatórios do Alto Rio das Velhas – a partir do complexo de reservatórios Rio de Peixe, de propriedade da Anglo Gold Ashanti e da Pequena Central Hidrelétrica Rio de Pedras (sob a responsabilidade da Cemig) – para aportar volumes maiores de água.

“Também está sendo pactuada uma redução na captação de água pelas mineradoras, para diminuir a demanda pelo uso da água. Cabe destacar também a importância da participação da população, fazendo um consumo mais racional da água e evitando desperdícios e usos abusivos, bem como da Copasa em trabalhar na redução de perda de água”, informou o comitê.

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