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Estado de Minas

Agricultores amargam efeitos da lama mesmo depois de 17 meses da tragédia de Mariana

Produtores rurais de áreas atingidas pelo rompimento ainda sofrem com efeitos do desastre. 'O terreno ficou pior', lamenta agricultora


postado em 04/04/2017 06:00 / atualizado em 04/04/2017 07:03

A agricultora Lia Mol Carneiro relata angústia com piora do terreno para cultivo(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)
A agricultora Lia Mol Carneiro relata angústia com piora do terreno para cultivo (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)
Mariana – Cada enxadada na terra é uma porção menor de lama e de ervas na lavoura de cana da senhora Lia Mol Carneiro, de 62 anos, moradora de Paracatu de Baixo, distrito de Mariana (Região Central de Minas). Com uma camisa ao avesso presa à testa para se proteger do sol, a mulher passa os dias capinando com uma enxada gasta para garantir o pasto das criações. “Quem tinha de capinar a cana aqui era a Samarco. Só que, se deixar por eles, o serviço não sai quando precisa, não é feito direito. Não dá mais para esperar, a gente está tendo de suar para sobreviver”, relata.


Desde que uma onda de lama e rejeitos de minério de ferro da mineradora Samarco escapou com o rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, em 5 de novembro de 2015, propriedades rurais como a da agricultora acabaram soterradas e se tornaram improdutivas. Pelo Termo de Transação de Ajustamento de Conduta (TTAC) firmado entre a Fundação Renova – criada pela mineradora para cuidar dos impactos e reparos do acidente – e o poder público, a recuperação das áreas é responsabilidade da fundação, mas ao longo das áreas afetadas é comum encontrar pessoas atingidas se esforçando, mesmo com métodos arcaicos, para tentar voltar a produzir. A Fundação Renova afirma que desenvolveu medidas emergenciais e garantiu que restabelecerá condições ambientais e socioeconômicas dos produtores (veja matéria nesta página)

De acordo com o Ibama, 40 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos escaparam no acidente que matou 19 pessoas e produziu o pior desastre socioambiental do país. Segundo o órgão ambiental, a área total afetada chega a dois mil hectares, sendo que 102 quilômetros dos Córrego Santarém e dos rios Gualaxo do Norte, do Carmo e Doce tiveram suas margens destruídas. Outros 120 córregos, ribeirões e cursos d’água foram contaminados ou soterrados. A contrapartida prevê 40 mil hectares recuperados em toda bacia, sendo 10 mil por plantio e 30 mil por regeneração natural.

As áreas mais severamente atingidas pela lama ficam entre a barragem rompida, em Mariana, passando por Barra Longa, Santa Cruz do Escalvado e Rio Doce, onde a represa de Candonga praticamente foi entupida, segurando o avanço da lama mais concentrada. Nesses locais, a paisagem aos poucos vai mudando com as intervenções corretivas da Fundação Renova. Margens destruídas em Mariana e Barra Longa, por exemplo, estão recebendo o revestimento de biomantas para fixar novamente uma vegetação ciliar. Arrimos e estruturas de escoamento de água das chuvas dificultam o ingresso de parte da lama depositada nas margens para dentro dos recursos hídricos. Vastas propriedades antes encobertas pela lama de rejeitos foram aradas, receberam fertilização e algumas já produzem cana-de-açúcar e capim. Outros espaços ainda são apenas revegetados com espécies de leguminosas para que suas raízes ajudem a recuperar o solo.

Reclamações Mesmo nas áreas com algum tipo de recuperação, porém, ainda há problemas. “O terreno ficou bem pior, não produz como antes. Também deixaram a cana mole toda na beira da rodovia, ali tinha de ficar a dura para os outros não chuparem tudo”, reclama a agricultora Lia Mol Carneiro. Em Paracatu de Cima, a lama devastou o canavial e a capineira do agricultor João Celestino Arcanjo Filho, de 55. Só neste mês a Fundação Renova plantou uma roça de cana e uma de capim numa pequena fração do terreno que ele tem na várzea do Rio Gualaxo do Norte. No restante do terreno foram plantadas culturas para recuperação do solo degradado e o fazendeiro ainda recebe silagem para alimentar o gado. “É uma agonia muito grande você ter de receber a comida do gado, sem saber até quando”, afirma. O produtor rural conta que chegou a pedir para a Samarco deixá-lo plantar capim braquiária na área de recuperação, para que pudesse complementar a dieta do gado, mas não obteve a permissão. “Comprei dois sacos de sementes e plantei mesmo assim. Essas plantas que colocaram aqui não servem para nada. O gado não come, ela morre, nasce de novo e fica tudo igual estava antes”, reclama.

O pecuarista Clodoaldo Carneiro Cerceu, de 45 anos, também se lamenta. Antes do desastre, seu esquema de plantio de cana e capim garantia três cortes por ano. “Usava esterco do curral e irrigava com a água do rio (Gualaxo do Norte). Ia comprar um trator para aumentar a plantação e comprar mais bois, já estava tudo certo no banco. Não pude fazer isso e agora estou sobrevivendo da silagem que eles (Fundação Renova) estão trazendo”, lamenta.

Monitoramento da qualidade da água

A recuperação da qualidade da água dos rios Gualaxo do Norte, do Carmo e Doce conta com uma importante fonte de pesquisa. O monitoramento que o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) fez nessas bacias se transformou em base de informações sobre a composição da água. A documentação fotográfica desses trechos de rios também é importante para se saber qual a extensão da degradação em diferentes posições. Na última sexta-feira a Fundação Renova iniciou o monitoramento em tempo real da qualidade da água do Rio Doce em três estações automáticas – em Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Sem Peixe. Outras 19 unidades devem entrar em operação até o final de julho ao longo da bacia. Serão analisados parâmetros como turbidez (transparência), oxigênio dissolvido e pH, transmitidos por sondas que farão a análise de hora em hora e permitirão uma atuação mais ágil e precisa da Fundação Renova e dos órgãos ambientais nas ações de recuperação da região. Das três primeiras estações, duas foram instaladas na área da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves e uma no município de Sem Peixe, a cerca de 45 quilômetros da hidrelétrica.

'Essas plantas que colocaram aqui não servem', diz o agricultor João Celestino(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)
'Essas plantas que colocaram aqui não servem', diz o agricultor João Celestino (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)

Fundação promete 'restabelecer condições para os produtores'


Até o final de 2018, a Fundação Renova pretende concluir todos seus projetos de recuperação ambiental e socioeconômica nas 237 propriedades rurais diretamente atingidas pela lama de rejeitos que vazou da Barragem de Fundão em novembro de 2015. A informação é do engenheiro Álvaro Pereira, gerente de implantação de projetos da área ambiental I, trecho afetado pelo rejeito entre o reservatório que se rompeu, passando por Barra Longa, Santa Cruz do Escalvado e Rio Doce, onde fica a represa de Candonga. “Desenvolvemos medidas emergenciais inicialmente. Porém, a implantação das ações estruturantes depende de um diagnóstico aprofundado, com planejamento, para a execução do projeto”, justificou.

De acordo com Álvaro Pereira, no período emergencial foram distribuídas 8 mil toneladas de silagens para alimentação do gado. “Foram 237 propriedades atendidas, das quais em 105 foi realizado o replantio das pastagens, com cana e capim, em terreno não atingido pela lama, além do cercamento das áreas afetadas, que receberam leguminosas para sua recuperação”, explicou.

O engenheiro se disse surpreso com as queixas de agricultores. “A fundação tem um ótimo relacionamento com eles, atendendo às suas reivindicações. Além do telefone gratuito (0800-031 2303), temos sistematicamente técnicos, entre veterinários e agrônomos, dando assistência aos proprietários rurais no local. “Podem ter ocorrido falhas, de comunicação ou no atendimento técnico, mas estamos prontos a resolvê-las”, disse o gestor. Ele afirma que, como a comunidade não está 100% atendida em suas particularidades, pode haver ansiedade entre alguns produtores.

Compensação Pereira diz que o projeto de reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem prevê compensações para os produtores da área atingida, em Paracatu de Baixo e outras comunidades. “O problema central, o impacto maior, não tem como pagar. Mas vamos restabelecer as condições socioeconômicas e ambientais desses produtores, com melhorias das pastagens, manejo do gado e da genética da raça”, garantiu.

Segundo Álvaro Pereira, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater–MG) foi encarregada dos diagnósticos para apontar as ações estruturantes. A empresa se encarregou do registo eletrônico obrigatório do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a integração ao sistema de Indicadores de Sustentabilidade em Agroecossistemas (ISA), para elaborar o Plano de Ação Socioeconômico e Ambiental (Pasea), que visa a execução de medidas que restabeleçam a produtividade local de forma sustentável. Um ganho para os 237 produtores é que a Renova vai realizar todas as intervenções necessárias, como replantio nas APPs, para que a propriedade atenda ao Programa de Regularização Ambiental (PRA).

Somente nos imóveis vizinhos aos rios Alto Gualaxo e Carmo, como Paracatu de Baixo, a previsão é de recuperação de pelo menos 200 nascentes, do total de 5 mil ao longo da Bacia do Rio Doce. Entre a área do desastre até a foz do Doce serão reparadas 40 mil árvores, 10 mil de plantio direto.

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