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Estado de Minas EXTREMOS GERAIS

Conheça as três cidades que disputam o título de centro geográfico de Minas

Quinta reportagem da série que percorre Minas de norte a sul de bike revela a disputa pelo título de centro geográfico mineiro, reclamado por Curvelo, Corinto e Morro da Garça


postado em 17/11/2016 11:00 / atualizado em 17/11/2016 08:02

Marco entre palmeiras diante da rodoviária de Curvelo registra a localização que é reivindicada por outros dois municípios e sobre a qual não há consenso(foto: Túlio Santos/EM/DA Press)
Marco entre palmeiras diante da rodoviária de Curvelo registra a localização que é reivindicada por outros dois municípios e sobre a qual não há consenso (foto: Túlio Santos/EM/DA Press)
Traçar um roteiro para percorrer de bicicleta Minas de norte a sul, unindo os extremos do estado à força de pedal, curiosidade e determinação, implica passar pelo coração de um território pontuado pela diversidade e onde se abrigam personagens incríveis. Mas o aventureiro que se entregar a essa missão enfrentará, na hora de marcar seu roteiro no mapa, uma dificuldade improvável: afinal, onde fica exatamente o centro de Minas, e como chegar até lá? Em tempos de alta tecnologia, o viajante descobrirá, após muita pesquisa e alguma surpresa, que a exata localização do ponto central do território mineiro dependerá de qual seja a origem de seu interlocutor, pois nada menos que três cidades disputam o título que só pode ser dado a um ponto geográfico.


Socorrendo-se de dados históricos, literários e geográficos adotados segundo a conveniência de cada um, os municípios de Curvelo, Corinto e Morro da Garça, na Região Central, reclamam a condição de coração de Minas Gerais. “Uns falam centro geodésico, outros centro geográfico”, detalha Paulo Dayrell de Oliveira, de 80 anos, duas vezes prefeito de Curvelo e hoje assessor no Acervo Municipal. Para marcar o título que sustenta ser seu, a cidade mandou erguer em frente à rodoviária, em 1986, uma mistura de monumento e caixa d’água que serve como marco do que seria o ponto central do estado. A torre exibe na base um mapa com um triângulo vermelho ao centro. Escondidas entre plantas mais altas, as palavras decretam: “Centro geográfico de Minas Gerais – Curvelo”.

“Foi feito um levantamento, mas a marca oficial está na igreja”, acrescenta Paulo, mencionando a Paróquia Imaculada Conceição, do outro lado da rua. “Lá você encontra uma placa”, avisa. Já o taxista e voluntário Fausto de Almeida Nascimento, de 67, se lembra de que o antigo marco no terreno da igreja foi apagado. “Tiraram há mais ou menos 10 anos”, conta ele, apontando um canteiro agora vazio. No acervo da cidade, um livro antigo e sem capa exibe a foto da pequena estrutura, com cerca de um metro de altura, descrita na legenda como o marco geodésico central de Minas.

A medição teria sido realizada por cientistas alemães de passagem pela região, na segunda metade do século 19. Valeu à cidade de Curvelo, o antigo Arraial de Santo Antônio da Estrada, o título de coração de Minas. “Gerou até briga”, lembra o ex-prefeito, referindo-se à rivalidade saudável com a vizinha Corinto. “Eles vão falar que é lá, mas, na verdade, o centro é aqui”, antecipa-se Paulo Dayrell.

“Realmente, era Curvelo”, defende, distante 41 quilômetros, Renato de Oliveira, assessor  da Prefeitura de Corinto. “Porém, com a emancipação, esse local passou a fazer parte de Corinto”, acrescenta. Para reforçar a afirmativa, ele apresenta carta de 1989, do hoje extinto Instituto de Geociências Aplicadas (IGA), então responsável pelas medições oficiais do estado, que apontava o centro geográfico de Minas na cidade. O documento teria, inclusive, sido incorporado ao regimento da Câmara Municipal. “O local exato é Corinto”, assevera Renato, mais precisamente “na Fazenda Prosperidade”. Justamente pelo simbolismo, o proprietário teria doado um hectare do terreno ao município.

Área da cartografia que estuda e realiza medições sobre territórios, a geodésia se vale de cálculos complexos e resultados que admitem variações em função de avanços na tecnologia empregada em diferentes épocas. Segundo Antônio Santana Ferraz, professor-associado da área de engenharia de agrimensura e cartografia da Universidade Federal de Viçosa, “muitos autores consideram coordenadas geográficas e geodésicas como sinônimos”. “O que pode variar, além de possíveis movimentações na Terra, é o avanço na tecnologia de obtenção dos valores das coordenadas”, explica.

O marco da pirâmide

Distante 45 quilômetros de Corinto fica o local que é cenário e personagem do conto O recado do morro, de João Guimarães Rosa, e que acrescenta polêmica à histórica disputa pelo título de coração das Gerais. O Morro da Garça orienta tropeiros e viajantes há séculos, impondo-se com seus cerca de mil metros de altitude como marco geográfico natural. “Lá estava o Morro da Garça: solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide”, registra passagem do texto escrito há 60 anos. Também emancipado de Curvelo, Morro da Garça foi elevado à categoria de município em 1962. Outra medição realizada pelo IGA em 2011, determinando então o centro geodésico de Minas Gerais, o localizou nos limites da cidade. Apesar de a medição ter sido realizada há cinco anos, para o atual prefeito, José Maria de Castro Matos – que já chegou a visitar o marco “rival” na fazenda de Corinto e que até ontem não tinha conhecimento de outras medições –, foi uma surpresa, recebida “com muita alegria”.

A pequena cidade, ele afirma, tem “a cultura como carro-chefe”, com visitantes do Brasil e exterior atraídos pela paisagem ligada à literatura e pela Casa de Cultura do Sertão, instalada em 2008 com o objetivo de promover o legado da obra roseana. “O atrativo aqui é Guimarães Rosa. Muita gente até acha que ele nasceu aqui”, completa, lembrando que a verdadeira cidade natal do autor se encontra a cerca de 85 quilômetros, em Cordisburgo. Curiosamente, na junção do latim “cordis” com o alemão “burg”, o nome do município significa justamente Cidade do Coração. Mapeando a alma mineira, a obra do mestre Guimarães Rosa acertava também o coração de Minas.

Revitalização em Barra do Guaicuí inclui poda a gameleira que se incorporou a ruínas de igreja(foto: Túlio Santos/EM/DA Press)
Revitalização em Barra do Guaicuí inclui poda a gameleira que se incorporou a ruínas de igreja (foto: Túlio Santos/EM/DA Press)
Onde natureza e história se fundem

Visitar a barra do Rio das Velhas é conhecer uma das esquinas mais importantes na história de Minas Gerais, afirma o historiador e curador do patrimônio municipal Moisés Vieira Neto, enquanto acompanha a poda da árvore enraizada sobre a também histórica Igreja de Bom Jesus de Matozinhos, no distrito de Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma. O trabalho faz parte de um projeto de revitalização que contempla também o entorno das ruínas, tombadas em 1985. “É uma das gameleiras mais famosas do mundo”, comenta ele, informando que a semente germinada no topo da igreja foi provavelmente depositada por um pássaro, com a argamassa de cal comprimida na pedra servindo para retenção de umidade e contribuindo para o crescimento da planta.

Sem datação exata, segundo o historiador, a construção em estilo português, com janelas como guaritas militares, na confluência do Rio das Velhas com o Velho Chico, teve início na segunda metade do século 17. “Grandes enchentes corriam com as populações e eram seguidas de surtos de febres palúdicas, especialmente a malária. Por isso a obra não foi concluída, ficou incompleta”, explica. Mais acostumado a aparar do chão os jardins e praças sob responsabilidade da prefeitura, o podador Márcio José Lima Martins brinca ao descer de mais uma sessão entre os galhos mais altos da gameleira: “É outro clima lá em cima”.

Vistoria técnica realizada há pouco mais de um ano pela Gerência de Ação Preventiva do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) orientou, além da poda, a execução de um projeto paisagístico pelo município.  Algumas das alterações incluem melhorias na iluminação e a viabilização do acesso a pessoas com necessidades especiais. Está prevista também a contratação de vigias.

NOTAS DO PEDAL

Arte popular ameaçada

Expressão original da cultura popular às margens do Rio São Francisco, os carranqueiros de Pirapora temem a extinção da arte entalhada na madeira. Falta de apoio e desinteresse das novas gerações reduzem número de artesãos a cada ano. Um galpão aberto dividindo o telhado com uma casa simples de paredes azuis abriga o local de trabalho da Associação dos Artesãos de Pirapora, fundada em 1987. Sentados sobre toras ou no chão coberto por uma camada de lascas de madeira, artistas populares entalham peças de tamanhos variados. São Francisco, Jesus Cristo, Nossa Senhora de Fátima e as tradicionais imagens de longos caninos são talhadas com paciência. Em cerca de dois dias termina-se uma peça média de até quatro palmos. Em duas semanas ficam prontas as peças grandes, com até um metro de altura.

(foto: Túlio Santos/EM/DA Press)
(foto: Túlio Santos/EM/DA Press)
Da carranca ao WhatsApp
Para Valdir Pereira (foto), de 43 anos, a arte do entalhe é tradição de família. Com aprendizado iniciado aos 8 anos, aos 11 já tinha técnica aperfeiçoada, tendo como mentor artesão respeitado, conhecido como Tio Sabido, fundador da Associação dos Artesãos de Pirapora. “As carrancas de embarcação olhavam para o rio, para espantar as más energias”, ele informa. Atualmente com cinco integrantes, no auge das atividades, nos anos 90, a entidade já chegou a reunir 56 artistas. Esculpindo detalhes com uma faca, Luzia Carneiro, de 60, única mulher do grupo, avalia que este ano registrou o menor volume de vendas. Segundo ela, o trabalho manual dos jovens hoje se resume a dedos sobre smartphones. “É só WhatsApp”, comenta, ao lado de uma criança com olhar fixo na tela.

DIÁRIOS DA BICICLETA

A primeira gota de chuva

Se as distâncias entre as pequenas cidades no Norte de Minas criam dificuldades logísticas para quem segue de bike, as estradas vazias compensam o esforço. Saindo de Coração de Jesus, onde fiquei na casa de um contato feito através do
Couchsurfing – rede social que conecta viajantes, sofás e quartos vagos pelo mundo –, a mesma pessoa me consegue acomodação com uma amiga em São João da Lagoa, próxima cidade no trajeto. Para minha surpresa, o endereço é de uma das duas pousadas da cidade, mas o pernoite com café da manhã sai gentilmente de graça. Saio cedo e me preparo para encarar 23 quilômetros de terra até a LMG-674, trecho que se prova difícil, com momentos de areião e sol forte em céu sem vestígio de nuvens. Do alto do último morro se revela o Vale do São Francisco. De volta ao asfalto, tento esticar até Barra do Guaicuí antes do fim do dia, mas, na mistura de cansaço, falta de sinalização e desinformação, tomo caminho errado. Caindo a noite na BR-365, o tráfego pesado assusta. Ligo farol e alerta. Na porteira de uma fazenda, com o desvio somando mais de 15 quilômetros e um total de 100 quilômetros pedalados ao longo do dia, aceito a oferta do vaqueiro Waldimar e pernoito numa casa vazia da propriedade. Saio com o sol nascendo e passo pela Igreja de Pedra em Barra do Guaicuí, alcançando Pirapora no início da tarde. Deixo a cidade três dias depois, pela BR-496, rumo à Região Central de Minas. A paisagem começa a adquirir tom mais verde. Em Várzea da Palma, pedindo informações, um motorista me oferece acomodação em Lassance, que me foi útil à noite. Chegando a Corinto num domingo, vejo a primeira gota de chuva em toda a viagem. Em Curvelo, outro contato me oferece uma casa recém-alugada, para a qual se mudaria em alguns dias. Hora de contar a história sobre o disputado coração de Minas.

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