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Estado de Minas

Derrubada de florestas explica a redução do volume de água do Rio Pará

Terceira reportagem da série sobre devastação das matas ciliares mostra por que o manancial foi um dos mais afetados pela crise hídrica, comprometendo o abastecimento em grandes cidades. Eucalipto, que já sugou lagos marginais, engoliu também a vegetação original


postado em 07/06/2016 06:00 / atualizado em 07/06/2016 12:52

Rio Pará conta apenas com uma faixa estreita de vegetação protegendo o manancial. Clareiras na mata aparecem bem próximo das margens do curso d'água (foto: Leandro Couri/EM/D.A PRESS)
Rio Pará conta apenas com uma faixa estreita de vegetação protegendo o manancial. Clareiras na mata aparecem bem próximo das margens do curso d'água (foto: Leandro Couri/EM/D.A PRESS)
Cristiano Otoni, Martinho Campos, Pompéu e Resende Costa – As plantações de eucalipto – que já ocupavam as áreas de várzea e drenaram as lagoas marginais que serviam à reprodução dos peixes – se voltaram agora contra a mata ciliar. Árvores de troncos retilíneos e esguios plantadas em fileiras para serem carbonizadas nas carvoarias vêm comprimindo a já estreita faixa vegetal do Rio Pará, no Centro-Oeste de Minas Gerais, tornando-o um rio desnudo desde a nascente até a foz, no Rio São Francisco.

A derrubada das florestas, que já vinha ocorrendo para expandir pastos é, segundo especialistas, uma das principais causas para a redução do volume de água no manancial durante a estação seca. E a última estiagem foi implacável. No auge da temporada sem chuvas, em agosto do ano passado, o volume do leito ficou duas vezes abaixo da vazão mínima semanal medida na última década, fazendo com que todas as grandes cidades banhadas e abastecidas pelo curso tivessem decretada restrição de uso.

Os municípios de Divinópolis, Carmo do Cajuru, São Gonçalo do Pará, Nova Serrana e Conceição do Pará reduziram a captação para abastecimento humano e animal em 20%, para irrigação, em 25%, e para mineração, em 30%, afetando 360 mil consumidores.


O Rio Pará é também o curso d’água que detém a menor faixa de mata ciliar entre os 14 acompanhados pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) durante a crise hídrica do ano passado. Segundo levantamento feito pela reportagem do Estado de Minas com base em dados de satélites da ONG Global Forest Watch (GFW), que quantificaram a extensão vegetal nas áreas de matas ciliares, o Rio Pará apresenta 6.638 hectares (ha) de área de calha e florestas, dos quais apenas 922 ha (13,8%) eram compostos de mata até 2014. O índice é 4,8 vezes menor que a média de 67% obtida com a aplicação da razão entre largura de rio e faixa vegetal preconizada pelo Código Florestal.

“A principal causa de devastação das matas ciliares é a supressão da vegetação nativa para atividades agrícolas ou para uso como biomassa, a exemplo de carvoarias, indústria ceramista, entre outros. Isso não somente nas margens do São Francisco, mas também nas dos seus afluentes. Somam-se a isso os processos agropecuários e a desertificação. E, em grau mais moderado, os processos erosivos”, afirma o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Anivaldo Miranda.

O desmatamento começa já na nascente do Pará, em Resende Costa, na Região Central. Pelos dados dos satélites internacionais que municiam o programa da GFW, em um espaço de 1 ha dos morros onde brotam as primeiras águas do manancial já foi derrubado um quarto da vegetação. De acordo com o Código Florestal, as nascentes devem ser resguardadas por um raio de 50 metros, que compreende área de preservação permanente (APP), na qual não é permitido cortar árvores. Mas moradores e trabalhadores de fazendas da região sequer sabem que o rio nasce naquelas terras. Para chegar até a origem do curso é preciso atravessar um labirinto de plantações de milho, sem estradas ou trilhas, até a fonte de água cristalina.



Terra arrasada próximo à foz


Mas a extensão de mata ciliar mais devastada fica entre os municípios de Martinho Campos e Pompéu, no Centro-Oeste, a apenas três quilômetros da foz no Rio São Francisco. Em uma das fazendas de eucalipto, a equipe do EM encontrou uma área de seis hectares, em que quase toda a mata ciliar foi removida para plantio da matéria-prima da indústria carvoeira. Naquele ponto, o Pará chega a ter 100 metros de largura, o que lhe garantiria uma extensão mínima de cobertura de florestas nativas de outros 100 metros.

Mas, naquele ponto não há mais do que 20 metros de área verde original (80% menos que a margem legal). Como a reportagem do EM mostrou no último domingo, a tática dos desmatadores é a mesma empregada no Rio São Francisco, onde uma estreita fileira de árvores nativas é deixada na margem e as motosserras e tratores devastam o verde original no espaço vizinho, dificultando a percepção de fiscais e as denúncias de quem se desloca pelo leito.

De acordo com o biólogo Ricardo Motta Pinto Coelho, coordenador do Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios da UFMG, as matas ciliares podem ser recompostas por formas naturais e técnicas de reflorestamento.

“Temos na área de ecotecnologias um rosário de técnicas já testadas no Japão, Estados Unidos, Canadá e Alemanha para replantio, biorremediação de solos e contenção de focos erosivos. Mas considero que seja importante também uma mudança de legislação, trabalhar mais com prefeitos, investir em educação ambiental com as elites econômicas e capacitação das prefeituras na área ambiental”, afirma.

Como estrangular um rio

O Estado de Minas publica, desde o domingo, sequência de reportagens sobre a devastação nas matas que deveriam proteger os principais cursos d’água mineiros. A primeira matéria revelou que os órgãos do meio ambiente praticamente desconhecem essa pressão, promovida pelo agronegócio, pela mineração e pela ocupação desordenada. As consequências são a redução da disponibilidade de água, o assoreamento e as agressões à fauna, enquanto as multas por esse tipo de crime recuaram mais de 90% entre 2014 e 2015. Ontem, o EM mostrou que, além de vidas e comunidades, a lama que vazou da barragem da Samarco em Mariana consumiu extensa faixa de vegetação marginal do Rio Gualaxo do Norte e contribuiu para agravar a devastação do Rio Doce até sua foz no Atlântico.


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