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Estado de Minas MARCAS DA DOR

Mariana figura em lista da vergonha de Spotlight

Ao listar as cidades no mundo em que padres cometeram crimes de pedofilia, filme que concorre ao Oscar toca em ferida que marca a trajetória de jovem em Mainart, distrito de Mariana


postado em 08/02/2016 11:57 / atualizado em 08/02/2016 12:08

Igreja de São Guilherme, no distrito de Mainart, onde Buzzi celebrava missas. Crime cometido no lugarejo levou Mariana a figurar na lista internacional da vergonha(foto: Túlio Santos/EM/D.A. Press)
Igreja de São Guilherme, no distrito de Mainart, onde Buzzi celebrava missas. Crime cometido no lugarejo levou Mariana a figurar na lista internacional da vergonha (foto: Túlio Santos/EM/D.A. Press)
Mariana – Desde 2001, José (nome fictício) carrega na memória as chagas de um menino vítima de pedofilia, aos 9 anos, por um padre em Mainart, distrito de Mariana. À época, o caso repercutiu em todo o país. Uma década e meia depois, o crime levou a cidade colonial a figurar na lista internacional da vergonha, exibida ao fim do filme Spotlight – segredos revelados, em cartaz em várias salas brasileiras desde janeiro passado. A lista reúne os municípios de todo o globo onde houve denúncias de que homens de batina molestaram sexualmente crianças e adolescentes.

Spotlight – segredos revelados, dirigido por Tom McCarthy e estrelado por Michael Keaton, Mark Ruffalo e Rachel McAdams, foi indicado a seis categorias do Oscar. O filme, eleito o melhor de 2015 pela National Society of Film Critics (Associação Nacional de Críticos de Filme dos Estados Unidos), narra a história de como a spotlight, a editoria de repórteres especiais do americano The Boston Globe, desvendou como a Igreja Católica encobertou crimes de pedofilia cometidos por quase uma centena de padres em Boston.

A reportagem rendeu ao periódico o Pulitzer, o mais importante prêmio de jornalismo do mundo. Ao fim do filme, enquanto o público se prepara para ir embora, surge a lista da vergonha. Quatro cidades brasileiras figuram nela: Rio de Janeiro, Franca (SP), Arapiraca (AL) e Mariana.

Tanto no Brasil quanto em Minas Gerais, não há estatísticas desse tipo de crime praticado por religiosos. Mas a pedofilia, independentemente do perfil do autor, anda em alta no estado. Segundo dados da Secretaria de Defesa Social (Seds), foram 2.646 casos entre janeiro e novembro de 2015, no último mês de balanço fechado.

José completará 24 anos em maio próximo. Pai de uma menina, ele mora no sítio da família em Mainart, povoado fundado por dois irmãos italianos há mais de um século. O rapaz sobrevive de bicos na agropecuária. Não assistiu ao filme. Nem deseja: “Nem sei se o padre está preso. Tomara que sim”, desabafou.

Cena do filme Spotlight - segredos revelados: jornalistas desvendam como a Igreja Católica encobertou crimes de pedofilia cometidos por padres em Boston(foto: Kerry Hayes/Sony Pictures/Divulgação)
Cena do filme Spotlight - segredos revelados: jornalistas desvendam como a Igreja Católica encobertou crimes de pedofilia cometidos por padres em Boston (foto: Kerry Hayes/Sony Pictures/Divulgação)
O religioso em questão é Bonifácio Buzzi, um catarinense que tinha 41 anos em 2001. Ele participava de um projeto social em Mainart e, numa tarde, convidou José para pescar no Gualaxo do Sul. Numa das margens, fez sexo oral na vítima. Buzzi já havia sido acusado de molestar dois meninos em Santa Bárbara, também no interior de Minas. Há suspeita de que ele teria cometido o mesmo crime em Santa Catarina.

Condenado, Buzzi foi encaminhado para o hospital psiquiátrico de Barbacena. Depois, transferido para a delegacia daquela cidade. O religioso também cumpriu pena na penitenciária de Juiz de Fora. Em julho de 2015, obteve o alvará de soltura. Buzzi, cujo paradeiro é ignorado pela Arquidiocese de Mariana, está proibido de exercer as funções de padre. Um processo que deve desligá-lo dos quadros da Igreja tramita no Vaticano.

“Tomara que ele não volte a importunar ninguém”, deseja a mãe de José. À época, ela foi alertada pela professora do filho de que o menino apresentava um comportamento estranho em sala de aula. Perguntado sobre o que o incomodava, ele contou à família o que ocorreu numa das margens do Gualaxo do Sul.

INDENIZAÇÃO O rio, que corta o lugarejo, fica a menos de 100 metros da igreja São Guilherme, onde Buzzi celebrava as missas. O templo, que está em reforma, foi erguido em frente à praça homônima, cartão-postal do povoado e onde a meninada gosta de passar boa parte dos dias de folga da escola. Enquanto alguns conversam nos bancos feitos com madeira grossa e resistente, outros pedalam e empinam bicicletas numa disputa que chama atenção dos adultos.

Os jovens que já conseguiram a carteira nacional de habilitação também costumam lavar seus carros na praça. José fez o mesmo muitas vezes. Ele comprou o primeiro veículo com a indenização que recebeu da igreja Católica. O rapaz não revela o valor, mas amigos contam que foi algo entre R$ 35 mil e R$ 45 mil. Procurada, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não comentou o assunto. Já Buzzi não foi encontrado pela reportagem.

• NÚMEROS QUE ASSUSTAM

Depois de três altas anuais consecutivas, o número de crimes de pedofilia tende a cair em 2015 em Minas Gerais. De janeiro a novembro, no último mês de balanço fechado pela Seds, foram 2.646 ocorrências. No mesmo período, foram apurados 2.021 em 2012, 2.432 em 2013, e 2.721 em 2014.

A Seds considera os seguintes atos como pedofilia: adquirir foto ou vídeo com sexo pornô com crianças menores, constranger crianças por prática de ato libidinoso, divulgar fotos ou cenas de sexo com criança ou adolescente, estupro de vulnerável, favorecer prostituição, exploração sexual de vulnerável, fotografar ou publicar cena de sexo com menor de idade, prostituição, exploração sexual de menor de idade, lascívia na presença de crianças ou adolescentes, simular participação de criança ou adolescente em cena de pornô.

A reportagem encaminhou perguntas à Polícia Civil, mas não obteve resposta até o fechamento dessa edição.


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