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Estado de Minas

Minas tem apenas quatro fiscais para vistoriar barragens e não há previsão de concurso

Em meio à crise deflagrada pela catástrofe de Mariana, departamento encarregado de vistoriar mineradoras fica sem diretor-geral e deve perder mais 40% dos servidores em dois anos


postado em 19/11/2015 06:00 / atualizado em 19/11/2015 14:09

Parede erodida em dique da Samarco: estado tem o maior número de empresas do setor, mas só um servidor para cada 80 represas. Muitos não estão sequer na lista de vistorias(foto: Corpo de Bombeiros/divulgação )
Parede erodida em dique da Samarco: estado tem o maior número de empresas do setor, mas só um servidor para cada 80 represas. Muitos não estão sequer na lista de vistorias (foto: Corpo de Bombeiros/divulgação )

Faltam funcionários, a verba é apenas 13% da prevista e o diretor-geral entregou ontem sua carta de demissão. O quadro do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) – ligado ao Ministério de Minas e Energia e responsável por fiscalizar barragens da mineração – é de penúria e a tendência é só piorar. A estimativa do procurador Frederico Munia Machado, da Advocacia-Geral da União que atua junto ao departamento, é de que 40% dos servidores ativos devem se aposentar nos próximos dois anos e não há perspectiva de concurso público. “Isso é um temor de todos dentro do DNPM. Os mais jovens ficam apavorados ao saber que os mais experientes vão embora e que eles ficarão sozinhos”, afirma o vice-presidente do Sindicato Nacional das Agências de Regulação (Sindiagências), Osvaldo Barbosa.

O sindicalista informa que o DNPM tem um quadro de 800 funcionários, sendo que 200 respondem pela fiscalização e, destes, só quatro responsáveis por Minas Gerais. Ontem, o diretor-geral do departamento, Celso Luiz Garcia, deixou o cargo. A decisão foi anunciada 13 dias após o rompimento da Barragem do Fundão, da Samarco (controlada pelas gigantes da mineração Vale e BHP Billinton),que deixou 11 pessoas mortas, 12 desaparecidas e mais de 600 desabrigadas, a maior parte dos subdistritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, em Mariana.

Comunicado do Ministério das Minas e Energia informou que o ministro Eduardo Braga recebeu a carta de demissão acompanhada de um laudo médico. Celso Luiz Garcia é funcionário de carreira do departamento e já havia sido superintendente do DNPM em Minas Gerais. A indicação dele, empossado em junho deste ano, partiu da bancada federal do PMDB, com influência do deputado federal Leonardo Quintão, relator da novo Código da Mineração, e do deputado federal Mauro Lopes, ambos do PMDB mineiro. Depois da demissão, o geólogo Telton Elber Correa foi indicado para ocupar a diretoria-geral interinamente.

Caixa-preta

Das 317 barragens em Minas de conhecimento do DNPM, 95 sequer constam no Plano Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). O órgão admitiu que 37% das estruturas fora do plano – e que por isso não são fiscalizadas – apresentam risco de alto a médio. A penúria da estrutura do departamento, em que faltam pessoal, equipamentos e verbas, é alvo de alertas do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Sindiagências.

Em Minas, para cada um dos quatro fiscais de barragem do DNPM, há cerca de 80 estruturas a serem monitoradas. Osvaldo Barbosa, do Sindiagências, entende que o número de servidores do departamento incumbidos de vistorias no estado – que concentra 40% das mineradoras do país – é baixo justamente por causa da concorrência das empresas do setor. “O fiscal vai fiscalizar uma mineradora e recebe proposta para trabalhar lá, ganhando três vezes mais”, entende o representante do sindicato.

Ele explica que as dificuldades do DNPM persistem há 20 anos. “Os 200 fiscais são responsáveis por elaborar mais de 9 mil relatórios de lavra por ano, além de fiscalizar 70 mil locais com alvará de pesquisas em todo o país”, afirma. “Não posso afirmar que se houvesse mais fiscais não teria ocorrido o rompimento da barragem em Mariana, mas se a fiscalização fosse mais eficiente, poderíamos ter mais segurança”, acrescenta. O ideal, de acordo com estimativa do sindicato, é que fossem 3,6 mil funcionários, 1,2 mil deles responsáveis apenas pela fiscalização.

Além do déficit de funcionários, o ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, já admitiu que o DNPM só gastou 13,2% do valor previsto em fiscalização, por “contingenciamento”. “Mas isso não significou descumprir a fiscalização”, acrescentou. Porém, de acordo com a ONG Contas Abertas, o departamento reduziu a verba prevista pela Lei Orçamentária em 2015 para o programa de fiscalização das atividades minerárias. O montante investido em vistorias foi de R$ 1,3 milhão até outubro deste ano, o que representa menos da metade dos R$ 3,6 milhões até o mesmo mês de 2014.

O tamanho da penúria

Números de um departamento sucateado

Funcionários

O real

Servidores    
800

Fiscais    
200

Fiscais em Minas    
4

O ideal

Número desejável de servidores    
3,6 mil

Número desejável de fiscais    
1,2 mil

Orçamento

13%

do previsto gasto em fiscalização

Déficit de atuação

37%


das barragens de rejeitos não fiscalizadas têm risco de médio a alto, estimado pelo próprio departamento

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