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Estado de Minas PROVAS DE FÉ

Conheça histórias de romeiros que sobem a Serra da Piedade em devoção a Nossa Senhora

Há quase 250 anos, romeiros de todas as idades sobem os 2,5 quilômetros de serra que levam ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade para cumprir promessas e saudar a padroeira de Minas


postado em 13/10/2015 11:00 / atualizado em 13/10/2015 08:05

Mais de 10 mil fiéis participaram de romaria ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade, no dia da padroeira de Minas, em agosto. No ano são esperados 500 mil peregrinos (foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press - 29/8/15)
Mais de 10 mil fiéis participaram de romaria ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade, no dia da padroeira de Minas, em agosto. No ano são esperados 500 mil peregrinos (foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press - 29/8/15)

No último sábado de agosto, perto das 16h, Mário Eugênio da Mata deu o último bocejo antes de deixar a cama. O agricultor completou 95 anos este ano, mas a disposição para as caminhadas não diminuiu com a idade. De ônibus, ele saiu bem cedo de Sabará para a Serra da Piedade, em Caeté, onde um percurso de 2,5 quilômetros montanha acima o aguardava. Devoto de Nossa Senhora da Piedade, ele tinha um motivo para participar da peregrinação que atraiu perto de 10 mil pessoas ao santuário no dia da padroeira de Minas Gerais: agradecer pela vida.


Como Mário, milhares de homens peregrinavam na mesma romaria para cumprir promessas, agradecer a cura de uma doença grave, o novo emprego, pelo filho que veio depois de muitos anos de espera. Em silêncio ou entoando cânticos, os semblantes de quem sobe a serra são de paz. Na terceira reportagem da série Provas de fé, o Estado de Minas acompanhou a caminhada de milhares de peregrinos ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade.

O público era majoritariamente masculino, formado por jovens, homens de meia-idade – alguns pouco menos idosos que Mário – e até crianças, romeiros de diversas profissões, classes sociais, moradores do campo e das cidades, sozinhos, em família ou com amigos, vindos de vários pontos do estado se moviam em direção a Ermida.

Jardim natural, o santuário ecológico encravado na serra a uma altitude de 1.746 metros inspira mesmo a meditação. Para os romeiros de primeira viagem, a impressão é de que ali, entre o cerrado e a mata atlântica, a paz chega mais rápido, afasta a correria da mente. Muitos afirmam que, à medida que sobem a serra, têm a sensação de estar mais perto de Deus.

Prestes a completar 250 anos de peregrinações, a Serra da Piedade espera receber 500 mil visitantes em 2015, segundo a Arquidiocese de Belo Horizonte. O crescimento das romarias impressiona: em 2010, 30 mil peregrinaram ao santuário, menos de um décimo do total esperado neste ano.

Como se tivesse 20 anos menos, Mário Eugênio se misturou com tranquilidade à multidão. Usando um fino capuz de lã e agasalho que parecia não ser suficiente para um homem de sua idade, ele vencia o vento gelado do início da manhã. Desde bem jovem, o hoje agricultor aposentado é devoto da mãe de Jesus. Segundo ele, foi por um milagre da Santa Maria que ele salvou a vida de uma criança, de cinco anos, no Rio Paraúna, em Diamantina. “Quando a tirei do fundo do rio, ela estava imóvel e praticamente morta. Sua vida certamente foi um milagre realizado por minhas mãos. Naquele dia, eu me senti abençoado e muito feliz”, conta.

Com um sorriso fácil, o fiel acredita que tem motivos para agradecer. “Uma vida com muita saúde. Um casamento feliz, que durou mais de 60 anos. A morte bonita de minha mulher.” Por esse motivo, ele é um peregrino cativo. Só a esse santuário foram mais de 30 romarias.

Aos 95 anos, o agricultor Mário da Mata enfrenta o frio e a subida íngreme para agradecer por estar vivo (foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press - 29/8/15)
Aos 95 anos, o agricultor Mário da Mata enfrenta o frio e a subida íngreme para agradecer por estar vivo (foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press - 29/8/15)
A tradição de seguir em romaria por lugares santos, pagar promessas e não duvidar do milagre como algo certo na vida é antiga. No Brasil, como lembra Rodrigo Caldeira, historiador e professor do curso de Ciências da Religião da PUC Minas, ela desembarcou com os portugueses. Os colonizadores trouxeram para cá a religião católica, muito marcada pelo culto também aos santos e hábito das peregrinações.

Segundo o estudioso, as religiões de modo geral – católica, evangélicas, espírita, as crenças com origem africanas e outras muitas, com menor número de fieis – convivem em harmonia no país e exercem uma função importante de agrupamento social. “Muitas vezes, o Estado não sabe que uma pessoa existe, mas a igreja sabe.”

Falante e animado, o aposentado Adão Moreira, de 57, morador de Lagoa Santa, conta que foi alvo de um milagre da santa. Ele enfrentou um câncer no esôfago, fez tratamentos com quimioterapia e radioterapia e emagreceu mais de 10 quilos em sua batalha pela vida. Curado e bem-disposto, ele lembra que a recuperação aconteceu depois de uma promessa que fez no leito do hospital à Virgem Maria. “Logo depois, comecei a melhorar. Fui atendido e curado, abençoado com um milagre”, diz. A experiência fortaleceu sua fé e ele se tornou um peregrino, participa de grupos semanais de orações e frequentemente percorre lugares considerados santos para renovar sua gratidão pela vida.

Para o arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira, o crescimento das romarias é um sinal de fortalecimento da fé. Ele explica que o milagre descrito pelos fiéis pode ser compreendido como uma força espiritual de conversão e transformação e os centros de espiritualidade são locais para viver essa experiência. “Milagre não é uma mágica, é quando Deus, pela força de sua graça, nos devolve não só uma inteireza física, mas moral e espiritual. Pode, sim, atingir a condição física, mas a grande graça é a cura moral e interior que nos devolve a alegria e o sentido de viver.”

O casal Juliano Wagner Santos, de 41, e Maria Teresa Medeiros, de 36, ambos servidores públicos de Belo Horizonte, acredita que a peregrinação é uma prática religiosa. “Faz parte do convívio com Jesus Cristo. É um sinal de agradecimento pelas graças recebidas todos os dias”, diz Juliano.

Santuário da Serra da Piedade



Um encontro de padroeiras

No encerramento do jubileu da padroeira de Minas, Nossa Senhora da Piedade, uma “convidada” muito especial subiu a Serra da Piedade, em Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Com orações, cânticos e aplausos, centenas de fiéis receberam a imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida, padroeira dos brasileiros, cujo dia foi festejado ontem no país, em especial no santuário nacional dedicado a ela em Aparecida (SP). Durante missa celebrada às 15h na Serra da Piedade, o arcebispo metropolitano de BH, dom Walmor Oliveira de Azevedo, ressaltou que a data é motivo de alegria e de ação de graças. “A devoção a Nossa Senhora é oportunidade de fortalecermos os caminhos que nos levam a Jesus.”

Às 11h, na Igreja Nova das Romarias, o reitor do santuário, padre Fernando César Nascimento, e o vice-reitor, padre Carlos Antônio da Silva, celebraram missa com a presença de três representantes de igrejas de rito oriental: dom Edgar, bispo da Maronita, dom José, da Melquita, e Monsenhor Michel, da Igreja Nossa Senhora do Líbano. Logo em seguida, houve procissão com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, pertencente ao acervo do santuário, seguindo-se um imenso manto branco, carregado por peregrinos, com uma pintura de Nossa Senhora da Piedade.

Durante o jubileu, iniciado em 26 de julho, o Santuário Estadual de Nossa Senhora da Piedade recebeu quase 400 mil visitantes. Ontem, o servidor público Jeyffers Domingues, morador do Bairro São Geraldo, na Região Leste de BH, saiu cedo de casa com a mulher Marília e as filhas Júlia, de 12 anos, Mariana, de 6, e Alice, de 2, para participar das homenagens às padroeiras de Minas e do Brasil. “É a primeira vez que estamos aqui. Tudo é muito bonito, o patrimônio, a paisagem, o lugar. As meninas estão gostando muito”, disse Jeyffers, pouco antes de acompanhar a procissão sob sol forte.

Enquanto esperava uma turma de amigos para seguir viagem, a estudante de letras Vanessa de Santis, de 22, residente em Ubá, na Zona da Mata, admirava a ermida construída no século 18 e que abriga a imagem de Nossa Senhora da Piedade, esculpida por Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1737-1814). “Estávamos passando o feriado no Santuário do Caraça e, na volta, pedimos indicação a umas pessoas sobre outros lugares para conhecer na região. Falaram sobre a serra e valeu a pena”, comentou a jovem. (Gustavo Werneck)

(foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press - 29/8/15)
(foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press - 29/8/15)
Aconteceu comigo

“Há sete anos, desde que nos casamos, minha esposa, Jane de Lourdes, tentava engravidar. A gente sempre quis e desejou ter um filho. Ela perdeu uma criança e chegou a ir para o hospital em estado grave. Minha esposa também teve miomas no útero e passou por duas cirurgias. Os médicos chegaram a dizer que nós não poderíamos ter filhos. Ficamos muito apreensivos com o diagnóstico. Como eu frequento o terço dos homens, decidi pedir uma graça à Virgem Maria. Fiz o pedido com muita fé, há oito meses. Hoje estou aqui, na Serra da Piedade, fazendo essa caminhada em agradecimento, estou cumprindo parte de minha promessa à Virgem. Minha mulher está grávida de quatro meses, tendo uma gestação tranquila e saudável, apesar de tudo o que ela enfrentou. Meu pedido foi atendido, e o bebê deve nascer em 23 de janeiro de 2016. Estou aqui para agradecer esse milagre, agradecer pela criança que vai nascer na nossa família. ”

José Roberto Zanella, de 43 anos – lustrador de móveis, de Governador Valadares, durante romaria na Serra da Piedade

PEREGRINAÇÕES Desde domingo, o Estado de Minas publica uma série especial de reportagens sobre romarias no Brasil. Na estreia, foram mostradas as visitas de multidões de fiéis a Congonhas (MG) e Belém (PA), e, na sequência, a  Aparecida (SP). Amanhã, a viagem segue com as homenagens ao Padre Victor, em Três Pontas, no Sul de Minas, que será beatificado nomês que vem.

 


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