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Estado de Minas O LEGADO DE ZÉ ARIGÓ

Exposição relembra história de médium mineiro que atendeu mais de 4 milhões de pessoas

Mostra em Congonhas reúne fotografias, objetos e publicações em jornais e revistas que contam a história de Zé Arigó


postado em 29/08/2015 06:00 / atualizado em 29/08/2015 07:46

O médium chegou a atender 1 mil pessoas por dia sem nunca cobrar: acusado de curandeirismo por padre de Congonhas, ele recebeu indulto de Juscelino Kubitschek(foto: Arquivo EM)
O médium chegou a atender 1 mil pessoas por dia sem nunca cobrar: acusado de curandeirismo por padre de Congonhas, ele recebeu indulto de Juscelino Kubitschek (foto: Arquivo EM)

Um homem, sua vida, seus mistérios e uma história que apaixona, intriga e não perde a força com o tempo. Nascido em Congonhas, na Região Central, José Pedro de Freitas (1921-1971) se tornou Zé Arigó no coração do povo e, principalmente, na esperança de milhões de pessoas, em busca de cura, que o procuraram em 21 anos de mediunidade. Para contar essa trajetória, a terra natal faz uma exposição no Museu de Imagem e Memória, no Centro Histórico (veja abaixo), com fotografias, objetos e publicações em jornais e revistas. Merece destaque um espaço recriando o local onde ele recebia os doentes, com mesa, máquina de escrever, um quadro de Cristo e cartas psicografadas. À frente da organização, está a Fundação Municipal de Cultura, Lazer e Turismo de Congonhas (Fumcult).

Passados 44 anos da morte de Zé Arigó, muita gente ainda visita a “cidade dos profetas” querendo conhecer essa história, diz o presidente da Fumcult e curador da exposição, Sérgio Rodrigo Reis. “Foi um personagem muito importante para Congonhas. Entre as décadas de 1950 e 1970, a economia daqui era movida pelo Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos, que ocorre tradicionalmente de 7 a 14 de setembro com milhares de romeiros, e pela multidão que vinha atrás de Zé Arigó”. A estimativa é de que mais de 4 milhões de brasileiros e estrangeiros tenham procurado o médium, que chegava a atender de 200 pessoas a 1 mil por dia, sem cobrar um centavo.

Zé Arigó costumava fazer orações antes de iniciar os trabalhos(foto: Arquivo O Cruzeiro/EM)
Zé Arigó costumava fazer orações antes de iniciar os trabalhos (foto: Arquivo O Cruzeiro/EM)
“Ele foi um fenômeno, um médium ostensivo de alto grau que chocou o mundo”, avalia Leida Lúcia de Oliveira, de 67 anos, autora dos livros Arigó, o 13º profeta (2012) e Cirurgias espirituais de Zé Arigó (2014), editado pela Associação Médico-Espírita de Minas Gerais. Residente em Campinas (SP), Leida era filha de José Nilo de Oliveira, falecido em 1987, que ajudava o médium no Centro Espírita Jesus Nazareno, fundado em 1959, e diante do qual se formavam longas filas. “Eu o conheci muito bem, também trabalhei no centro durante 13 anos. Era um homem simples, humilde, de pouco estudo e coração enorme, tanto que nunca se incomodou com o apelido”, conta a escritora. Foi na década de 1930, ao ingressar na Companhia de Mineração de Ferro, que José Pedro começou a ser chamado de Arigó, sinônimo de “simplório, jacu ou gente da roça”.

INFÂNCIA MEDIÚNICA Segundo as pesquisas, os dons mediúnicos de Zé Arigó se manifestaram ainda na infância, mas a família católica não entendia ou aceitava a situação. “Meu pai tinha quase 9 anos nessa época e chegou a ser encaminhado por um padre católico a um psiquiatra. Constatada a perfeita saúde física e mental, ele se submeteu a um ritual de exorcismo”, conta o aposentado Sidney Wenceslau de Freitas, de 64, quarto filho, da prole de sete do médium. “O maior legado do meu pai é a bondade, a caridade. Nunca sentávamos à mesa sozinhos, havia sempre alguém de fora conosco para almoçar. A casa vivia cheia, ele encontrava um mendigo na rua, entregava a toalha e indicava o banheiro. Depois dava o alimento”, afirma Sidney.

Ao compreender sua missão, já mais velho, Zé Arigó começou a atender gente de todo canto. Os relatos de sucesso nos atendimentos corriam o Brasil de Norte a Sul e despertavam a atenção de políticos, artistas e outras personalidades. Não demorou muito para que o médium – ele incorporava o espírito do médico alemão Adolf Fritz, morto no fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) – fosse questionado pelas cirurgias. Em 1957, se tornou alvo do primeiro processo judicial, sob acusação de curandeirismo, após denúncia de um padre de Congonhas, mas recebeu indulto do presidente Juscelino Kubitscheck (1902-1976) e saiu livre. JK o visitou mais tarde e, segundo testemunhas, era-lhe grato pela cura da leucemia da filha. Em 1961, no segundo processo, dessa vez movido pela Associação Médica de Minas Gerais, ficou preso sete meses por exercício ilegal da medicina.

Em entrevista ao ESTADO DE MINAS, Zé Arigó informou que creditava ao Dr. Fritz todas as cirurgias. “Eu não sabia de nada. As operações vinham sendo feitas em transe mediúnico, inteiramente à minha revelia. Depois de algum tempo – um bom tempo –, um jornalista de São Paulo me mostrou um filme feito aqui no centro, me mostrando em ação. Apenas nessas horas, fiquei sabendo, e quase caí de costas”. Sidney conta que o pai, quando Dr. Friz se manifestava, conversava horas a fio em alemão, sem nunca ter estudado essa língua.

Nascido em Congonhas, ele deu fama à cidade por suas curas(foto: Arquivo EM)
Nascido em Congonhas, ele deu fama à cidade por suas curas (foto: Arquivo EM)
SEM ANESTESIA Com a grande visibilidade internacional, Congonhas recebeu a visita de pesquisadores norte-americanos interessados em conhecer e registrar os métodos de trabalho de Zé Arigó. Veio até um médico e cientista Henry Puharich, da Nasa (agência espacial norte-americana). Sidney se lembra muito bem desse dia. “Quando criança, eu era muito magro, tinha asma, e um caroço feio no braço direito. Meu pai o tirou no centro espírito. No dia em que Henry veio, meu pai lhe disse que ele também tinha um lipoma no braço, embora não pudesse vê-lo, pois o homem vestia um paletó. No Centro Espírita Jesus Nazareno, fez o mesmo procedimento e o tirou”, recorda-se Sidney. Mais tarde, o médico chegou novamente a Congonhas acompanhado de uma equipe de 40 especialistas, mas nada ficou provado contra o Zé Arigó ou sobre os diagnósticos de Dr. Fritz.

Nos 13 anos em que atuou no centro espírita, Leida presenciou muitas cirurgias e nada tão impressionante como a “materialização de órgãos”, o que permitia, por exemplo, a uma mulher que não conseguia engravidar, receber um novo útero e dar à luz. “Ele abria o abdômen, tirava o câncer, sem anestesia ou assepsia. E, ao final, dizia: ‘Cristo não quer sangue’”.

LINHA DO TEMPO

1921 – Em 18 de outubro, José Pedro de Freitas, que ficou conhecido como Zé Arigó, nasce em Congonhas. Já na infância, com quase 9 anos, sua mediunidade começa a se manifestar

1930 – Zé Arigó é encaminhado por um padre católico a um psiquiatra. Constatada a perfeita saúde física e mental, é submetido a um ritual de exorcismo. Já adulto, se submete a novo ritual

Década de 1930 – José Pedro ingressa na Companhia de Mineração de Ferro. Nesse período, ganha o apelido “Arigó”, que significa “simplório, jacu ou gente da roça”

1943 – Em 18 de setembro, Zé Arigó se casa com Arlete Soares de Freitas e, juntos, os dois se dedicam a obras de caridade

1957 – É alvo de processo judicial por curandeirismo, após denúncia de um padre de Congonhas, mas recebe indulto do presidente Juscelino Kubitscheck

1959 –
Zé Arigó, em quem se manifesta o espírito do médico alemão Adolf Fritz, funda o Centro Espírita Jesus Nazareno, em Congonhas, e começa a atender doentes do Brasil e de outros países

1961 –
É alvo de um segundo processo judicial e fica preso sete meses, dessa vez acusado pela Associação Médica de Minas Gerais de exercício ilegal da medicina

1971 –
Em 11 de janeiro, Zé Arigó morre num acidente na BR-040, no trecho entre Congonhas e Conselheiro Lafaiete


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