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Estado de Minas

BHTrans venderá crédito por celular para coibir desrespeito no uso do Rotativo

Com taxa de desobediência às regras de uso das vagas na capital próxima dos 75%, BHTrans vai adotar venda de créditos por telefone para eliminar cambistas e fazer valer regulamento


postado em 03/11/2014 06:00 / atualizado em 03/11/2014 07:08

Guilherme Paranaiba e Pedro Rocha Franco

Agente da Guarda Municipal fiscaliza carro na Região Centro-Sul: corrida diária contra flanelinhas que preenchem talões assim que avistam fiscais(foto: FOTOS: BETO MAGALHÃES/EM/D.A PRESS)
Agente da Guarda Municipal fiscaliza carro na Região Centro-Sul: corrida diária contra flanelinhas que preenchem talões assim que avistam fiscais (foto: FOTOS: BETO MAGALHÃES/EM/D.A PRESS)
Usar o Estacionamento Rotativo da forma correta virou exceção em Belo Horizonte e a tecnologia surge como última esperança de acabar com cambistas de talões e reverter uma taxa de desrespeito que beira os 75% no sistema da capital. Atualmente, com a fiscalização frouxa e a presença generalizada de flanelinhas nos 813 quarteirões regulamentados, prontos a avisar sobre a chegada repentina das equipes de trânsito, a maioria dos motoristas ignora o tempo de parada nas vagas públicas. O Estado de Minas percorreu ruas da capital para checar o uso dos talões e confirmou que a obediência às regras é atitude de uma minoria. Em 278 vagas e oito quarteirões conferidos, praticamente três a cada quatro carros estavam estacionados de forma irregular, sendo passíveis de multa.

A BHTrans confirma o desrespeito: segundo dados oficiais da empresa, apenas 28% dos motoristas que usam as 21.231 vagas físicas do sistema na capital obedecem as normas. A maior aposta para mudar esse quadro é a combinação de fiscalização mais ostensiva com um sistema eletrônico inovador. Até o fim de 2016, segundo a empresa, o condutor vai comprar créditos, por celular, para o ponto onde quer estacionar. O fiscal poderá consultar um banco de dados para saber se determinado carro está habilitado no sistema e emitir a autuação em caso de irregularidade.

Segundo a empresa municipal, o sistema eletrônico vai acabar com a figura do atravessador do talão do Rotativo, além de eliminar a desculpa usada por motoristas, segundo a qual é difícil encontrar uma folha para o estacionamento na correria do dia a dia. Como essa tecnologia sozinha ainda demandaria a presença dos fiscais, a empresa diz estar reajustando as vistorias por áreas da cidade. O objetivo é fazer com que equipes visitem os locais mais visados duas vezes por dia. Está em estudo ainda um método de fiscalização que também usa tecnologia para reduzir a necessidade da presença de agentes de trânsito.

De acordo com o superintendente de Implantações e Manutenção da BHTrans, José Carlos Mendanha Ladeira, já está previsto no planejamento estratégico da prefeitura até o fim da gestão do prefeito Marcio Lacerda o funcionamento do novo sistema eletrônico de validação de créditos via celular. “Dessa forma, acabamos com a intermediação. A negociação do motorista é feita diretamente com o computador. Isso já foi pensado e agora estamos definindo como fazer a contratação”, afirma.


CONIVÊNCIA

Mas, enquanto a tecnologia não vira realidade, o festival de desrespeito se espalha pelas ruas, patrocinado principalmente pela presença de flanelinhas e pela conivência da população e de autoridades com as normas ditadas pelos “donos das ruas”. Segundo a BHTrans, o sistema foi projetado para dar oportunidade de estacionamento a 98.532 motoristas. As normas para cada quarteirão variam entre uma, duas ou cinco horas em que o estacionamento é permitido com a mesma folha, vendida por R$ 3,40 em bancas de jornal e pontos comerciais.

O problema é que o talão é facilmente encontrado nas mãos dos lavadores de carros. Como eles estão em praticamente todos os quarteirões onde há vagas, os motoristas acabam optando pela facilidade. Em muitos casos, condutores entregam as chaves para que o próprio flanelinha coloque a folha, o que normalmente só ocorre quando aparece a fiscalização.

Na Rua dos Guajajaras entre as ruas Paracatu e Ouro Preto, atrás do Fórum Lafayette, no Barro Preto, Região Centro-Sul da capital, depois que a equipe de reportagem do EM verificou a situação de quatro carros, um flanelinha logo interveio para saber qual era o motivo do trabalho. “Anotando as placas?”, perguntou, para saber se os “clientes” seriam multados. Não satisfeito com a resposta, o “dono da rua” ameaçou chamar a polícia.

Dez minutos foram suficientes para que três policiais ficassem postados nas grades do fórum. Quando o repórter retornava da missão de conferir, um por um, o uso do talão de Rotativo nos carros, os militares se aproximaram. Colocando a mão sobre as armas, questionaram sobre a consulta: “Você trabalha para a BHTrans ou é algum tipo de pesquisa pessoal?”, questionou um deles. “Segunda opção”, foi a resposta que encerrou o diálogo. No local em que os PMs estavam preocupados em fiscalizar o trabalho da equipe de reportagem, para cada carro estacionado dentro das normas, havia no mínimo dois com alguma irregularidade.

Na última quinta-feira, o Estado de Minas encontrou uma equipe da Guarda Municipal fiscalizando o Rotativo na Rua Mato Grosso, no Bairro Santo Agostinho, Centro-Sul de BH. O inspetor João Marinho explicou que a cena mais frequente nessa situação é a correria dos flanelinhas. “É comum encontrarmos vários carros marcados com o mesmo horário, o que indica que foi o flanelinha quem anotou os dados na folha e a colocou quando viu a fiscalização chegar”, afirma. “Não podemos multar se a folha está preenchida. Mas, se conseguirmos flagrar o flanelinha colocando a folha, podemos emitir a autuação”, completou.

Apesar do desrespeito generalizado, a BHTrans sustenta que o Rotativo cumpre seu papel, já que das 98 mil possibilidades criadas pelo uso alternado das vagas físicas, a taxa de ocupação diária chega a 75,8%, com 74.708 veículos.

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