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Estado de Minas

Cinco obras vão remover 4,8 mil casas em Belo Horizonte

Via 710 vai tirar de casa até moradores atingidos por desapropriações do metrô e de outros projetos. Em sete anos, construções deslocaram mais de 5 mil famílias em BH


postado em 01/08/2014 06:00 / atualizado em 01/08/2014 07:51

Vinte anos depois, Alba Lobato terá a segunda casa desapropriada:
Vinte anos depois, Alba Lobato terá a segunda casa desapropriada: "Perguntei se era perseguição" (foto: JAIR AMARAL/EM/D.A PRESS)

A aposentada Alba Ferraz Lobato, de 81 anos, está prestes a viver pela segunda vez a angústia de uma desapropriação. Vinte anos depois de deixar a casa no Bairro Fernão Dias, Nordeste de Belo Horizonte, para dar lugar à linha 1 do metrô da capital, sua residência, que hoje fica no mesmo bairro, está no caminho da Via 710, ligação viária prometida há anos pela prefeitura para conectar as avenidas Cristiano Machado e dos Andradas. “Quando a mulher da prefeitura veio conversar comigo, perguntei se era perseguição. Duas vezes? Não é possível uma coisa dessa”, reclamou. O drama se repete com outros moradores de bairros das regiões Leste e Nordeste, que serão cortados pela nova obra, e é agravado pela demanda crescente de mobilidade e habitação na capital, segundo especialistas.

Levantamento feito pelo EM em 10 obras já concluídas, em andamento ou que ainda não começaram mostra que nos últimos sete anos o poder público tirou de casa pelo menos 5.633 famílias em BH. São 1.097 casos de desapropriação, quando o proprietário é o dono do lote e tem a situação regularizada, e 4.851 de remoção, de quem ocupa áreas sem ser o dono. Ainda está prevista a retirada de mais 4,8 mil moradias e estabelecimentos comerciais, divididos entre as obras da Via 710, da bacia de detenção de enchentes do Bairro Calafate (Oeste), do novo terminal rodoviário, no Bairro São Gabriel (Nordeste), da reforma do Anel Rodoviário e da duplicação da BR-381.

Só na Via 710, 87 famílias já foram embora e 562 ainda terão de deixar suas casas, num total de 649. A estimativa da prefeitura é gastar R$ 70 milhões com a construção da nova avenida e R$ 75 milhões apenas com indenizações a moradores, mas esse valor ainda pode ser revisado por causa de disputas judiciais.

Dona Alba lembra que, em 1994, recebeu R$ 38 mil pela casa própria na Rua Professor Amaro Xisto de Queiroz, no Bairro Fernão Dias. Com o dinheiro, comprou a casa onde vive atualmente, na Rua Dnar Mendes Ferreira, no mesmo bairro, só que do outro lado da linha férrea.

O valor da nova desapropriação está sendo discutido na Justiça. “Vou me mudar para Juatuba (Grande BH). Tenho 81 anos e cansei de ser desapropriada. Belo Horizonte está muito difícil. Sou viúva e sempre fiz tudo sozinha, com muita garra. Comprei a casa, construí o segundo andar, pago os impostos caros e ainda tenho de passar por essa angústia novamente”, desabafa a contadora aposentada. “Vou ter de colocar minhas coisas em um guarda-móveis e mudar para a casa de algum parente até receber o dinheiro”, reclama.

A dona de casa Zélia dos Santos, de 77, e o aposentado Antônio Abraão dos Santos, de 78, que moram na Rua Urutu, no Fernão Dias, enfrentam o mesmo problema. O casal, entretanto, teve mais sorte do que dona Alba. Apenas uma parte do lote teve que ser cedida, sem necessidade de demolir a casa, construída por Abraão após a desapropriação para implantação do metrô, em 1994. “Já passamos por esse perrengue uma vez, mas agora estamos velhos e cansados para repetir tudo. Demos sorte de poder continuar com a casa”, afirma Zélia.


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