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Estado de Minas

No dia dos avós, conheça a história de dedicação à vida e ao trabalho para a família

Criada desde os 11 anos no pesado trabalho do campo, Idalina Oliveira chega aos 96 com 15 filhos, 26 netos, 60 bisnetos e 4 tataranetos


postado em 26/07/2014 06:00 / atualizado em 26/07/2014 07:12

Idalina entre o neto, Túlio, e a filha, Maria da Penha: xodó da família(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Idalina entre o neto, Túlio, e a filha, Maria da Penha: xodó da família (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Chegar aos 96 anos fazendo quase tudo, quase mesmo, exatamente como fazia na adolescência, é mais que privilégio. São raras as pessoas que chegam a essa idade com lucidez e ainda mais com a consciência de que a vida é melhor se houver continuidade. Idalina da Silva Oliveira é uma dessas raridades. Com 15 filhos (nove vivos), 26 netos, 60 bisnetos e quatro tataranetos, ela é, também por ter superado uma trajetória de enfrentamentos, uma personagem ideal para representar os avós no seu dia, hoje, 26 de julho, data dedicada a Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria e avós de Jesus Cristo. Idalina, literalmente, pinta e borda. E o exemplo que dá à enorme família é o de que não faz sentido parar e esperar o tempo passar se o corpo e a mente ainda pedem ação e movimento.

Para mostrar que não está de brincadeira nesta vida, Idalina recebe o Estado de Minas na varanda da casa simples, no Bairro São João Batista, na Região de Venda Nova, de tinta e pincel nas mãos pintando mais uma toalha de mesa. Desenha flores vermelhas sobre o tecido branco. Singelo, o trabalho. Sobre uma cadeira, roupas de cama bordadas por ela, com agulha e linha à mão. Feitas as apresentações, ela leva os convidados à cozinha para um lanche. Sobre a mesa, broa de fubá que ela mesma preparou, servida com café fresco, quente, e fatias de queijo. Nem parecia que horas antes caminhara três quarteirões, sozinha, até o posto de saúde para uma sessão de ginástica aeróbica.

“Vocês precisam ver o que ela come”, diz, em tom de desafio, Maria da Penha de Oliveira Araújo, de 67, que acolhe a mãe em sua casa. E aponta o fogão a lenha no quintal. Maçã de peito gorda, pé de porco, costela, mocotó, torresmo, sempre com angu. Angu todos os dias. E a saúde sempre acompanhou Idalina. “A única doença que tive foi resguardo”, diz, sorrindo. Parece tratar-se de uma pessoa criada com todos os cuidados, desde a infância, daí a longevidade, sem nenhum mal a incomodar, a não ser uma pontinha de diabetes diagnosticada há pouco. Mas não foi assim.

Filha de lavradores, de Itaipava (ES), Idalina mal completou 11 anos e foi convocada pelo pai para trabalhar na fazenda que ele administrava. “Ele me fez de escrava. Acordava de madrugada, às 4h, e ia para a cozinha fazer café e comida no fogão a lenha para 15, 20 trabalhadores. Panelões de angu, arroz, feijão e carne. Levava o almoço até a roça em tabuleiros grandes. Enquanto eles comiam, eu catava lenha. Depois, tinha que arear as panelas, limpá-las com cinza quente. Precisavam ficar brilhando para agradar os olhos da patroa. Ainda ajudava a lavar a roupa.” A adolescência foi chegando e também a libido. Entre um afazer e outro, uma olhadela para o lado do lavrador Moacir de Oliveira, 11 anos mais velho.

“Ele passava, eu cantarolava para ele. O Moacir era lindo.” Naqueles tempos, namoro era a distância. Nada de conversa, beijinhos e afagos. “Meu pai descobriu que estava enamorada do rapaz e um ano depois nos casamos. Eu estava com 16 anos e ele com 27.” Foram 48 anos um ao lado do outro numa vida de ciganos. Como trabalhadores rurais, migraram para Minas Gerais, pulando de cidade em cidade, de roça em roça, em busca do sustento. “Eu cortava de machado, cortava de foice. Cortava cana, plantava e colhia café. Semeava milho e feijão.”

Entre um roçado e outro, nascia um filho ou uma filha. E Idalina nem sabia que existia hospital, se é que havia algum no caminho dela. Muito menos maternidade. “Às vezes, não dava tempo nem de a parteira chegar. Era correr direto do cafezal para casa.” E na sequência do parto, o que Idalina mais gostava, o resguardo, que exigia comida forte. “Quando nascia menino, eram 40 galinhas para comer durante o resguardo. Se menina, 30 galinhas. Menino exige resguardo mais forte. Mas, logo, logo, eu enjoava de sopa de galinha e pedia torresmo, carne de boi, mandioca e batata doce cozidas.”

Idalina teve 18 filhos. ”Quatro nasceram fora de época (prematuros) e não sobreviveram. E naquele tempo o cartório não registrava menino que nascia fora de época e morria. A gente, então, fazia o batizado em casa pelo menos para não enterrar uma criança pagã.” Os filhos foram crescendo e, gradativamente, mudando para Belo Horizonte. Idalina e o marido, Moacir, vieram atrás, com os mais novos. Ela não parou de trabalhar. Arranjou emprego como doméstica. Em 1972 ficou viúva e hoje vive com a filha, Maria da Penha.

Quase cinco décadas de casamento. “Fui feliz, sou feliz. Não tenho queixa de nada. Não tenho queixa de filhos, de netos, bisnetos.” A família comprou um terreno perto de Sete Lagoas e Idalina já se apresentou para o trabalho. “Eu vou plantar as ramas de mandioca e de batata. Os canteiros, eu vou fazer.” E quando Idalina sai de manhã e anda sozinha rumo à pracinha do bairro para se exercitar nos aparelhos instalados pela prefeitura ou em direção ao posto de saúde para os exercícios da aeróbica, o neto Túlio Francisco, de 47 anos, a acompanha com os olhos, orgulhoso. “Minha avó é um barato!”


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