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Estado de Minas

Um mês após protestos, lembranças do vandalismo estão presentes na memória


postado em 22/07/2013 00:12 / atualizado em 22/07/2013 07:23

Paula Sarapu

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press


Quase um mês depois das manifestações que tomaram as ruas das cidades brasileiras, os reflexos dos protestos ainda estão espalhados pela capital mineira. As delegações estrangeiras já deixaram o Brasil, as forças de segurança não estão mais mobilizadas e o perímetro da Fifa deixou de ser a preocupação. Belo Horizonte, no entanto, ainda junta os cacos da quebradeira. A polícia continua atrás dos vândalos mascarados e muitos dos personagens que vivenciaram aquelas noites de confronto não esquecem as cenas embaçadas pelas bombas de efeito moral. São a favor das manifestações e têm uma lista grande de reivindicações. A preocupação, porém, é a mesma: como será em 2014, quando o Brasil recebe a Copa do Mundo?

“Perdemos negócios, tivemos que contornar a decepção de clientes que compraram carros que acabaram destruídos pelos vândalos infiltrados nas manifestações. Nosso prejuízo foi da ordem de R$ 1 milhão e as vendas caíram 70%. Só agora começamos a voltar ao trabalho e estamos tranquilos até a Copa”, diz Hideo Alexandre Takahashi, gerente geral da concessionária Osaka, da Toyota, atacada na Avenida Antônio Carlos. Para ele, 2014 será um ano em que os protestos vão retornar. “O Rio, por exemplo, continua sofrendo com as depredações porque recebe a Jornada Mundial, um grande evento com a presença da mídia internacional. E aqui como vamos fazer para evitar esses mesmos problemas no ano que vem?”, questiona.

Na mesma calçada, outras concessionárias mantêm os tapumes e apelam às faixas de “estamos funcionando” para seguir a rotina. Do outro lado da avenida, o segurança Luiz Henrique Ferreira, de 24 anos, passa dias solitários no terreno praticamente abandonado pela Hyundai. Ele esteve ali nos dias de confronto e as lembranças continuam vivas e assustadoras. “Vi o menino cair do viaduto e não pude fazer nada. Tinha também um maluco querendo incendiar o posto de gasolina”, relembra. “Sinceramente, eu tive medo. Ele gritavam que iam incendiar tudo com os seguranças dentro. Ficamos acuados num canto, só olhando”, completa o segurança.

Luiz Henrique trabalha 12 horas em pé, pega o ônibus às 5h e volta para casa no início da noite. Com os coletivos lotados, ele não consegue sentar. Como muitos, continua querendo o fim da corrupção e melhorias na saúde e no transporte público e acha que a população deve se unir nas ruas, sempre que estiver insatisfeita. “Tem muita coisa que precisa melhorar no Brasil, isso tudo não era só pelo preço da passagem. Sei que os manifestantes estavam aqui por mim também. Acho a quebradeira errada, mas a gente vive reclamando pelos cantos e não se expõe. Os que vieram por bem fizeram a diferença e já serviu para alguma coisa”, acredita ele.

CASA VAZIA Longe do palco das reivindicações, a casa da doméstica Neide Caetano de Oliveira, de 43, também continua vazia, de certa forma abandonada. Ela esperava em Curvelo, Região Central, o filho voltar de mais uma manifestação, no dia da semifinal do Brasil na Copa das Confederações, mas viu pela televisão o resgate do jovem de 21 anos, que caiu do Viaduto José Alencar. As investigações ainda não foram concluídas, mas amigos dele contam que Douglas tentou pular de uma pista para a outra e caiu em um vão que separa os dois lados. Das pessoas procuradas pelo Estado de Minas, ela é a única que não consegue pensar em 2014. “Francamente, todos os dias de manhã, quando acordo, peço força a Deus para aguentar”, desabafa.

Neide ainda está muito abalada e chora ao falar do filho, que postou fotos da manifestação horas antes do incidente, em 26 de julho. Ele trabalhava de carteira assinada numa transportadora e estava feliz com o plano de saúde. Até então, Douglas não tinha conseguido marcar uma cirurgia eletiva para corrigir a adenoide que atrapalhava sua respiração. Antes de sair de casa, naquele dia, disse à mãe que não dava mais para aceitar a situação da saúde no país. “Existem 25 horas por dia? Se existissem, seria o tempo que penso nele. Se fosse pela tristeza, pela saudade e pela dor que sinto, não sairia da cama”, diz.

 

 


Mudanças sem baderna


Professora e empresária, Ana Paula Rabelo de Freitas, de 44 anos, até agora não sabe como conseguiu convencer os jovens mascarados a não invadir, depredar e incendiar sua pequena confecção, na Avenida Antônio Carlos. De mãos para o alto, ela se ajoelhou chorando entre os vândalos agressivos, pedindo “por favor” que não destruíssem o que ela e o marido haviam construído com tanto esforço. “Não sei como eles me ouviram. Talvez, pelo fato de ser mulher, pela surpresa de ter aparecido ali chorando, mas não os enfrentei”, diz ela, que tem consciência que seu prejuízo foi mínimo diante de tudo o que podia ter acontecido. Ela participava da manifestação e ficou muito assustada com tudo o que via pelas ruas do seu bairro. Esclarecida, conta que seu pensamento sobre tudo o que ocorreu está amadurecendo, embora considere que faltou ação da polícia. “Vi a polícia se abstendo de interferir, como aconteceu no Rio, quarta-feira. Para mim, era claro que eles se negaram a agir.”

Ela também acredita que, se nada mudar no país, as manifestações continuarão ocorrendo e os vândalos continuarão atacando. “Sei que há uma linha muito tênue na ação policial, mas não podem deixar que essa baderna aconteça”, diz. “Eles não viraram vândalos naquele momento. Por coincidência estavam juntos, mas a segurança é uma das coisas que precisamos rever”, acrescenta.

A manifestação da semifinal de certa forma atrapalhou o aniversário do marido da vendedora Cibele Lobato Maciel Breschia, de 43, que não conseguiu reunir os amigos em casa. Pelo contrário, eles abriram as portas do prédio para ajudar as pessoas que passavam mal com o efeito do spray de pimenta e das bombas de gás lacrimogêneo. Em casa, nos dois primeiros dias de jogos, até o cão da raça border collie sofreu, espirrando, com os olhos avermelhados. “Ficamos sem enxergar, com dificuldade para respirar. No último jogo, mantivemos as janelas fechadas, mas minha nora ficou mais assustada porque ainda não tinha visto aquelas cenas de perto”, conta. A lição que fica, para Cibele, é de que o povo unido pode conseguir mudanças. “Mas os baderneiros precisam ser coibidos com presteza, o que não vi acontecer. Quem sabe não dá tempo de pensar melhor numa estratégia para a Copa?”


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