Patricia Giudice

Na semana que passou, milhares de médicos de todos os estados da federação foram às ruas protestar contra a importação de 6.000 profissionais cubanos sem que antes façam a prova do Revalida, que é uma avaliação do diploma de medicina. Em Minas, no meio das centenas de profissionais, alguns contaram suas histórias e explicaram por que preferem ficar na capital.
Além da falta de estrutura na saúde, Alexandre relatou quadros de falta de saneamento e muita miséria. Já na capital, continuou no serviço público e se deparou com outro entrave: a violência. Hoje, atende na UPA Pampulha, mas é testemunha de brigas e agressões de pacientes contra agentes de saúde no local. “BH tem carências básicas, as pessoas ainda ficam na fila um ano para conseguir um exame, por exemplo.”
Uma das especialidades em falta no mercado é a pediatria. Maria Tereza Mantovani é pediatra desde 2007 e ficou decepcionada quando entrou no serviço público. Em Santa Luzia, onde ficou em um pronto atendimento por um ano e meio, foi atraída por um bom salário, mas o pagamento começou a atrasar no terceiro mês de trabalho. Em Ribeirão das Neves, entrou em 2010 e saiu no mês passado. A violência foi o que mais pesou na decisão. “Já tivemos que nos trancar dentro de uma sala, porque entrou um rapaz armado”, contou.
Maria Tereza trabalhava na UPA Justinópolis, local que considera exemplar, com equipes médicas completas e um bom funcionamento. Mas, por isso mesmo, é sobrecarregada. “Se a gente recebia 300 fichas, conseguia atender 90, o restante ficava sem. Isso me frustrou muito. Nunca tinha a sensação de dever cumprido, tudo que eu fazia nunca era suficiente”, lamentou.
Quem está na residência tem esperança de que, quando completarem a especialização, a situação no interior será mais atrativa. Milton Henrique Guimarães faz clínica médica e quer ser cardiologista. Recebe uma bolsa mensal de R$ 2.100 para se dedicar 60 horas semanais ao curso e ainda atende nos hospitais Risoleta Neves, em Venda Nova, e das Clínicas, ambos da UFMG, onde ele estuda. “Hoje, o interior paga bem, mas o médico tem que fazer tudo sozinho, sem nenhum suporte. É uma experiência que quero ter. Espero que esteja melhor no futuro. Não quero ser um espectador da miséria humana”, resumiu.
SOFRIMENTO Enquanto as prefeituras disputam os doutores e eles pedem mais estrutura, quem sofre são os usuários do sistema público. E não apenas nos rincões mais afastados do estado, mas até mesmo perto dos grandes centros urbanos. Na sexta-feira, Kênia Aparecida Souza, de 34 anos, chegou às 5h30 à Unidade Básica de Saúde São Cosme, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de BH. Ela levou o pai, Raul Venâncio, de 63, para se consultar. Por volta das 10h30, eles saíram do posto com uma receita de antibiótico nas mãos, em falta no local. Dali, iriam em busca do medicamento na farmácia do município, que fica no Bairro São Benedito, a uma distância percorrida em 40 minutos a pé. Raul, que é ajudante de obra, estava com princípio de pneumonia.
“Tudo demora muito e falta. Falta remédio sempre, nunca tem médicos de algumas especialidades, como ginecologia e pediatria. Eram quatro médicos aqui. Agora só tem uma e eu aposto que ela não vai demorar a sair”, disse Kênia. A doutora Amanda, como foi identificada pelos moradores, está no São Cosme há dois meses, segundo eles, e é considerada bastante atenciosa com os pacientes. A Prefeitura de Santa Luzia não autorizou que a médica conversasse com o Estado de Minas. Rapidamente, uma enfermeira da equipe disse que todas as pessoas são atendidas e o posto está em seu funcionamento normal.
No posto de saúde Tia Lita, no Palmital, também havia uma só médica para atender todos os pacientes que esperavam do lado de fora. Warley Pereira de Carvalho, de 37, é cabeleireiro e aguardava para vacinar a filha Aléxia, de 6 meses. Ele contou que antes de a esposa saber que estava grávida de Aléxia, foi ao posto sentindo dores por conta de uma infecção urinária. O médico que a atendeu, contou Warley, receitou remédios e pediu um ultrassom, porque suspeitava de um cisto no ovário. “Não conseguimos o exame com a urgência que ele indicou e eu decidi fazer na rede particular. Aí descobrimos que não era um cisto, mas sim um bebê”, afirmou.
Pai de três crianças, uma delas internada na Santa Casa de Belo Horizonte após ter feito uma cirurgia no coração, Warley reclamou que no posto de saúde Tia Lita não tem pediatra. “Tenho que levar minhas filhas ao pronto-socorro do São Benedito. É mais longe e também demora, mas lá consigo atendimento”, contou.
A Secretaria de Saúde de Santa Luzia informa que vem tentando contratar quatro médicos, com salários de R$ 15 mil para oito horas diárias. Disse ainda que busca junto ao governo do estado parcerias para melhorar a saúde do município.
“Problema é financiamento”
O plano do governo de chamar médicos para ocupar os rincões tem méritos, segundo a especialista Ana Maria Costa, presidente do Centro de Estudos Brasileiros em Saúde. Mas ela lamenta que o pacote tenha deixado de fora um aspecto que, em sua avaliação, é decisivo na qualidade do sistema público: o financiamento. “O problema do SUS é falta de dinheiro. Em relação à vinda de médicos, é importante lembrar que faltam dentistas, enfermeiros, nutricionistas, entre outros. Se for benfeita, a atenção básica é capaz de resolver mais de 80% dos problemas da saúde.” (Julia Chaib)
