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Estado de Minas

Estudantes levam temas das manifestações para as escolas


postado em 22/06/2013 00:12 / atualizado em 22/06/2013 07:33

Clarisse Souza e Valquiria Lopes

 

No Colégio Marista Dom Silvério, professores de química e matemática colocaram o debate nas disciplinas(foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)
No Colégio Marista Dom Silvério, professores de química e matemática colocaram o debate nas disciplinas (foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)

As manifestações que tomam conta das ruas de todo o país e repercutem mundo afora são também o principal assunto discutido nas escolas de Belo Horizonte. O interesse em tentar entender o que está acontecendo no Brasil parte dos próprios estudantes, que abordam o tema durante as aulas e promovem um debate sobre mobilização social, democracia e política. Surpresos com o interesse dos alunos, professores do ensino médio deixaram de lado por alguns dias o conteúdo previsto na grade curricular e abordaram amplamente a onda de protestos em vários estados. A principal preocupação dos educadores é promover uma reflexão sobre o momento, que já é considerado histórico.

Na turma do 2º ano do ensino médio do Colégio Marista Dom Silvério, no Bairro São Pedro, Região Centro-Sul de BH, até mesmo professores de química e matemática acabaram entrando no debate sobre as reivindicações dos últimos dias. Ao perceberem que o movimento iniciado em São Paulo pela redução da tarifa de ônibus chegava a Belo Horizonte e ganhava o restante do país, muitos adolescentes não se contentaram em assistir ao que estava acontecendo: quiseram discutir e até mesmo participar de forma ativa das manifestações.

“Vi que a causa era interessante. Não se trata de R$ 0,20, mas de uma insatisfação geral da sociedade pela corrupção e falta de investimentos em saúde, educação e outros serviços”, defende Hélcio Valentin, de 16 anos, que participou de protestos na Praça Sete e na Avenida Antônio Carlos. Como ele, outros estudantes da turma foram às ruas e levaram para a sala de aula conteúdo que fomentou uma discussão sobre um novo posicionamento da juventude em relação à política nacional. Ainda sem entender o que fez com que, de repente, tantas pessoas decidissem ocupar o espaço público para cobrar ações, os adolescentes se dizem orgulhosos do sentimento patriota que tomou conta do país nesta semana. “Durante mais de 20 anos sofremos com a inércia do brasileiro. Mas agora o jovem percebeu que tem um Estado caro e ineficiente e foi para as ruas contra isso porque descobriu que tem voz e pode ser ouvido”, acredita a estudante Luíza Moscoso, de 16.

Agora, eles se preocupam com o rumo das discussões entre os movimentos sociais e o governo. “A maioria das reivindicações é importante, mas falta uma unidade, uma pauta definida para debater com os governantes. Pedir melhoria na saúde e educação é fácil, mas é preciso propostas mais sólidas”, observa o aluno do 3º ano do ensino médio do Colégio Santa Maria Daniel Belo Nunes, de 17. Para Laysa Souza, de 17, não estabelecer um planejamento nos próximos dias pode enfraquecer o movimento nacional. “A falta de uma pauta vai acabar servindo de desculpa para os políticos não resolverem nada. Vão dizer que é só uma bagunça e que não conseguiram descobrir o que os manifestantes querem”, teme.

Entre os professores, a preocupação é ajudar os alunos a entender o que está acontecendo nas ruas do país. “A política está invadindo a vida deles muito rápido e o que estamos tentando é esclarecer quais são os interesses que estão em conflito e o que está sendo discutido, para que eles não se sintam despreparados e para que a discussão não perca o foco da democracia”, explica o professor de história do Colégio Santa Maria Thiago Peixoto Gonçalves.

FORMAÇÃO No Colégio Marista, o professor de sociologia Jonas José Santana também ressalta a importância do momento para a formação dos jovens. “Tem uma novidade e uma certa inquietude da juventude em relação à condução da política e o papel da escola é refletir sobre os ganhos que movimentos como esse podem trazer para o país.” Segundo Santana, além de debater o que está sendo reivindicado, é importante questionar os métodos. “É preciso discutir o planejamento. O movimento é expressivo, mas quem é a voz? Estamos trabalhando em sala de aula a importância de formar bons líderes, além de mostrar que ir para a rua é o último passo, quando não há mais condições de dialogar”, ressalta.

Orgulhoso ao perceber o interesse espontâneo dos alunos, o professor Thiago deixou de lado o conteúdo que vinha sendo trabalhado em sala de aula para se dedicar aos protestos no Brasil. “Não tem como ignorar, porque é um momento histórico.” O estudante Daniel defende a atitude de sua geração, mas teme que a comoção nacional não dure até as eleições de 2014. “Estão todos falando de mudança de mentalidade agora. Mas o Brasil disse isso no impeachment do Collor e depois todo mundo se esqueceu do que aconteceu. Se for para esse movimento ficar só nos livros de história, não adianta.”


Mudança no currículo


As aulas previstas nos livros e na grade curricular vão sendo substituídas e os alunos, além de discutir, estão indo às ruas. O que seria uma explanação sobre a democracia na Grécia mudou para uma aula sobre o atual momento social e político brasileiro. Foi o que aconteceu no Colégio Arnaldo, no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul de BH na aula do professor de filosofia Romildo Calixto Amaro Júnior para os alunos do 2º ano do ensino médio. Ele inseriu clássicos de Platão e Aristóteles para debater conceitos como polis, justiça e democracia.

Do grupo de 35 alunos presentes na aula de ontem, 11 estão acompanhando as manifestações não só pela televisão e redes sociais. Eles estão indo para as ruas protestar. Foram movidos por um desejo de mudança, de revolução, como dizem. E já se preparam para os atos marcados para hoje e quarta-feira na capital. Um deles, Caio Augusto Macedo, de 16 anos, defende que chegou a hora de os brasileiros mostrarem para todo o mundo que não estão satisfeitos com a atual situação do país. “Muitas coisas estão erradas. Os serviços de saúde, educação e transporte são mal administrados e precários. E pode parecer clichê, mas não dá mais para aceitar tanta corrupção”, afirma. O que ele espera é que os atos surtam efeito positivo. “Espero um Brasil diferente”, ressalta.

A colega de sala de Caio Andressa Silva, de 16, aprovou a ideia de debater os protestos em aula. Para ela, é importante que todas as gerações se envolvam para cobrar dos governos o que está sendo feito do dinheiro público. “Foram gastos altos valores para as cidades brasileiras receberem os jogos da Copa, enquanto as pessoas estão morrendo na fila dos hospitais por falta de atendimento. Por outro lado, os políticos recebem altos salários e a qualidade da educação é ruim”, reclama. A adolescente participou da manifestação de quarta-feira na Praça Sete e já é presença confirmada no ato de hoje. A aprovação para protestar vem de casa, onde os pais são a favor dos manifestos. “Assim como eu, só não aprovam o vandalismo e a violência”, diz.

 

Na ponta da língua

No colégio Magnum, no Bairro Silveira, Região Nordeste de Belo Horizonte, as portas também se abriram para as manifestações. Com o assunto na ponta da língua, os alunos estão tendo aulas de democracia e cidadania para aprofundarem no entendimento dos protestos. De acordo com o coordenador do 2º ano do ensino médio, Herberton Sabino, a preocupação da escola é que a legitimidade dos atos seja mantida. “Explicamos aos alunos que as propostas devem respeitar as diferenças e se opor a qualquer estrutura excludente, como as situações de miséria e má prestação dos serviços públicos”, afirma.

A abertura de espaço para a discussão do tema em sala de aula agradou aos colegas de classe Yuri Maia, Letícia Caldeira e Bruno Santos, todos com 16 anos. Apesar da pouca idade, eles estão cientes do movimento que tomou conta das ruas do país. “Esse é um fato histórico para o Brasil. Há muito tempo o povo não vai às ruas para exigir seus direitos”, destacou Letícia. Para Yuri, as manifestações são uma oportunidade para ter um país mais justo. Apesar de aprovar a realização dos atos, Bruno faz ressalvas. “O excesso de causas enfraquece o movimento. É preciso ser objetivo e estabelecer o que se espera em cada caso, assim como foi na redução do preço das passagens”, diz.


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