
Em meio ao descontentamento de moradores e comerciantes com a mudança de nome por meio de lei municipal, a Alameda da Serra – agora , Oscar Niemeyer – pede socorro. O traçado estreito de quilômetro e meio da Avenida Seis Pistas, como é popularmente conhecida, no Vale do Sereno, em Nova Lima, Região Metropolitana de Belo Horizonte, é endereço de assaltos, asfalto ruim, caos no trânsito, má iluminação e falta de passeio para pedestres. “Essa mudança de nome vem de uma lei completamente inútil. O que a alameda precisa é de segurança, luz e recapeamento”, critica o empresário Ricardo Chalfun, de 32 anos.
O comerciante propõe ação pública para reverter a Lei Municipal 2.326, de 26 de abril de 2013, que faz homenagem ao arquiteto carioca. Segundo Ricardo, a alteração na denominação da via implica custos que não estavam no orçamento. “Uma alteração contratual custa pelo menos R$ 1 mil, fora todos os outros transtornos e despesas que essa decisão arbitrária provoca. Vou ter de refazer embalagens, cartões de visita e material de divulgação. Por que? Para que? Para homenagear uma pessoa que nada tem a ver com a região”, indigna-se.
O empresário lamenta as “preocupações de gabinete” e chama a atenção para as medidas emergenciais de que o traçado carece. “Temos, aqui, a maior contradição: uma região de alto poder aquisitivo, que atrai novos investidores, nessa situação. É muito absurdo. Os fiscais, por exemplo, cuidam do estacionamento rotativo, de olho nos parquímetros, mas não fazem nada contra o desrespeito às garagens”, diz.
Lúcio Oliveira, de 34, reforça as criticas de Ricardo. Para o engenheiro, já há muito tempo, a Alameda da Serra precisa de cuidados. “Temos dois hospitais importantes. É um desrespeito. Muita gente vem aqui e não encontra nem passeio para andar com segurança. Olhe só aquilo ali…”, diz, apontando para o buraco de terra em frente ao Biocor. O estabelecimento da família do engenheiro é vizinho ao hospital. Ele, também morador de Nova Lima, conta ter sido assaltado à noite, no ano passado, ter tido o carro arrombado e diz ter socorrido uma senhora, “acidentada em buraco que estava onde deveria ser passeio”.
Outro investidor que vê na mudança do nome da alameda um problema menor é Gustavo de Lima Andreotti Tasca, de 31. Empresário de grande casa de shows, com inauguração prevista para este mês, ele espera que, com o nome de Niemeyer, venha também bom gosto, segurança e mais cuidados com a alameda. “Esta região é a extensão da Zona Sul de Belo Horizonte. É atraente, especialmente por isso. A alameda precisa ficar bonita. Investimos muito por causa da localização. O que falta aqui é atenção ao espaço público”, ressalta.
No traçado,entre o Hospital Biocor e a Faculdade Milton Campos há um caminho de roça, de barro e mato. O estudante Emílio Gonçalves Ribeiro, de 22 anos, critica duramente a passagem. “Estou com uma tia doente e vou muito ao Biocor com a minha mãe. Isto aqui é um perigo.” Daquele lado da pista, naquele trecho, não há um só poste de luz. “Já soube de carro roubado e largado aqui. Nos horários em que posso visitar a minha madrinha, a gente tem muita dificuldade para estacionar, tenho de parar longe e correr o risco”, diz.
Jordana de Souza Araújo, de 24, moradora da Região do Barreiro, trabalha há mais de um ano no Vale do Sereno. Para a porteira, as pessoas do prédio de oito andares em que ela trabalha já começam a se conformar com o novo nome, “mas, pelo que ouço, acho que ninguém gostou da mudança”. Jordana destaca o transtorno das mudanças em documentos e cadastros. “É mais trabalho para os donos dos escritórios essa alteração no endereço”, explica. O lojista Alysson Matos dos Reis, de 38, diz nem querer tocar no assunto do nome. “Prefiro nem falar. Com tanta coisa para ser feita eles mudam o nome da rua.”
Do outro lado das portarias luxuosas, o asfalto é recorte da falta de cuidado. Na Rua do Campo, esquina com a alameda, um triângulo malcuidado de barro e sem meio fio delimita mão e contramão na rotatória. Um motorista profissional, em frente ao Hospital Vila da Serra, observa a reportagem. Parece querer falar. “O que o senhor acha desta alameda?” “Ruim demais. Parece Ribeirão das Neves”, diz. Pedro Henrique Assis, de 27, diz não entender uma via tão descuidada em área tão nobre.
