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Estado de Minas NOSSA HISTÓRIA

Conjunto Califórnia é berço de arte e sabor

Conjunto Califórnia 1, na Região Noroeste de Belo Horizonte, chama a atenção pelas ruas com nomes de instrumentos, a feira diversificada e a hospitalidade de interior


postado em 10/08/2013 06:00 / atualizado em 10/08/2013 07:14

Construído em terras da antiga Fazenda Coqueiros, próximo à BR-040 e ao Anel Rodoviário, bairro foi inaugurado em 1979 e hoje tem cerca de 5 mil habitantes(foto: CRISTINA HORTA /EM/D.A PRESS)
Construído em terras da antiga Fazenda Coqueiros, próximo à BR-040 e ao Anel Rodoviário, bairro foi inaugurado em 1979 e hoje tem cerca de 5 mil habitantes (foto: CRISTINA HORTA /EM/D.A PRESS)

Quem chega ao Conjunto Califórnia 1, na Região Noroeste de Belo Horizonte, logo percebe que quase todas as ruas foram batizadas com nomes de instrumentos musicais: Clarins, Harpas, Violões, Cornetas, Cítaras, Sanfonas, Bandolins, Guitarras... Apenas uma, a Manoel Aramuni, parece destoar da regra. Apenas parece: o senhor Aramuni, um dos primeiros moradores do bairro, falecido na década de 1980, era apaixonado por música. Por aquelas bandas, dizem que ele foi um maestro dos bons. Dizem mais: que por causa disso o mapa do Califórnia lembra uma orquestra completa.


Essa é apenas uma das muitas curiosidades sobre o conjunto inaugurado em junho de 1979, bem na “quina” da BR-040 com o Anel Rodoviário, a cerca de 10 quilômetros da Praça Sete. A associação dos moradores, a Amccali, estima que a população local oscile de 4,5 mil a 5 mil pessoas. O bairro é uma floresta de concretos: cinco torres de 11 andares, dezenas de prédios de três e quatro pavimentos e um punhado de casas construídas com base na mesma planta. Claro que também há padarias, sacolões, posto de combustível, salões de beleza e outros tipos de comércio.

Mas o lugar já foi mato puro. Para quem não sabe, o conjunto e outros bairros da Noroeste foram erguidos em terras da Fazenda Coqueiros, da família Camargos – daí a origem de outro bairro da região. Ainda é possível flagrar, tal qual naquela época, cenas pitorescas. De vez em quando, por exemplo, passa alguém no lombo de um cavalo. E, ó, com chapéu de couro, botas com espora e outros acessórios típicos de quem não abre mão da montaria. A hospitalidade dos moradores é o mesma de muitas cidades dos rincões de Minas.

Os coloridos jardins tanto das áreas internas dos condomínios e casas quanto dos canteiros públicos também lembram um pedacinho do interior. Aliás, os moradores levam a preservação do verde tão a sério que, em 2012, o jardim ao longo da Clarins, entre Bandolins e Castanholas, venceu, na categoria canteiro central, o prêmio Cidade Jardim, organizado pela prefeitura. No mesmo local, nas noites de sextas-feiras, ocorre a tradicional feirinha, fundada em outubro de 1980, onde são vendidos comida, bebidas, artesanato e produtos industrializados.

A jogadora amadora de vôlei Iara Lúcia de Oliveira Porto Silveira, de 52 anos, gosta de passear com o marido no lugar. “Jogamos conversa fora. Aproveito para comer um salgado, um doce…” Lá tem muito mais: muitos sabores de caldos, porções de batata e de mandioca, churrasquinhos, sucos, refrigerantes e cervejas. Os feirantes ainda lucram com saborosas iguarias, como cumbucas com angu à baiana – prato de fubá com suã.

Depois das aulas, alunos da Escola Estadual Clóvis Salgado batem ponto no local. A instituição de ensino foi fundada em 1955 no vizinho Bairro Alto dos Pinheiros. Sua transferência para o Califórnia ocorreu em 1979, pois a unidade ocupava uma área que, posteriormente, precisou ser desocupada para obras da BR-040 e do Anel Rodoviário.

 A escola homenageia o político mineiro natural de Leopoldina, na Zona da Mata. Clóvis Salgado da Gama (1906-1978) foi diretor do Hospital das Clínicas, um dos fundadores da Cruz Vermelha no estado e se elegeu vice-governador na chapa de Juscelino Kubitschek (1902-1976). Ele assumiu o Palácio da Liberdade em 1955, quando JK renunciou para disputar a Presidência da República.

 

 

RESPIRANDO CULTURA

No sossego do jardim que venceu concurso municipal e abriga também a feirinha semanal, o poeta Júlio César Teixeira e o músico Lúcio Araújo Ribeiro declamam sua paixão pelo conjunto(foto: CRISTINA HORTA /EM/D.A PRESS)
No sossego do jardim que venceu concurso municipal e abriga também a feirinha semanal, o poeta Júlio César Teixeira e o músico Lúcio Araújo Ribeiro declamam sua paixão pelo conjunto (foto: CRISTINA HORTA /EM/D.A PRESS)
O Califórnia também respira cultura. O conjunto é berço de muitos músicos, como Lúcio Walter Araújo Ribeiro, de 44. Morador da Rua dos Bandolins e experiente tocador de violão, ele resume seu sentimento pelo bairro: “É tudo para mim”. Seu amigo Júlio César Teixeira, de 51, poeta e contista, já dedicou um artigo ao bairro no jornal local.

Natural de São João del Rei, Júlio compara o ambiente do conjunto ao de sua terra natal: “Quando eu estava me acostumando com o ritmo da cidade (São João del-Rei), minha família mudou-se para o conjunto. E, sem que eu soubesse, estava voltando para o interior”. Há dois anos, Júlio é um dos organizadores do Viola, causos e versos. O evento, promovido em agosto, difunde a cultura no bairro. “Já é considerado um encontro tradicional”, diz Outros eventos são realizados nos condomínios, como um de carros antigos, que teve sua primeira edição em abril.

O Califórnia 1, porém, também tem problemas. Assim como em grande parte da região metropolitana, o transporte público é alvo de críticas. A linha 4501 (Califórnia/São Paulo) parece uma lata de sardinha nos horários de pico. Quem deixa ou chega do bairro no próprio carro também costuma ter dor de cabeça, pois as retenções no Anel Rodoviário e na BR-040, as duas principais vias de acesso ao conjunto, são frequentes.


LINHA DO TEMPO

Década de 1920: Donos da Fazenda Coqueiros começam a lotear a propriedade rural
1979: Inauguração, no mês de junho, do Conjunto Califórnia
1980: Transferência da Escola Clóvis Salgado para o conjunto, em agosto
1980: No mês de outubro, implantação da feira livre às sextas-feiras
2012: Primeira edição do Viola, causos e versos, a partir do mês de agosto
2013: Acontece no mês de abril o encontro de carros antigos

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