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Estado de Minas

Flanelinhas contam com influência de clientes e estabelecem relações de benefício ilícito

Alguns clientes são funcionários de órgãos públicos e até da Polícia Militar


postado em 12/08/2012 07:16 / atualizado em 12/08/2012 09:40

Cabo da PM aconselhou reportagem a entrar em acordo com a lavadora que cuida dos carros na região onde militar trabalha(foto: Mateus Parreiras/EM/DA Press)
Cabo da PM aconselhou reportagem a entrar em acordo com a lavadora que cuida dos carros na região onde militar trabalha (foto: Mateus Parreiras/EM/DA Press)
O loteamento das vagas de estacionamento nas ruas da capital mineira é sustentado por esquemas diferentes. Enquanto alguns flanelinhas agem como reis dos espaços públicos, outros se aproveitam da influência dos clientes, alguns deles de órgãos públicos e até da Polícia Militar, e estabelecem relações de benefício ilícito e conivência. Foi isso que ocorreu no segundo dos quatro dias em que o EM esteve no trecho licenciado pela PBH para lavar carros, na Rua Rio Grande do Norte, entre Rua Aimorés e Avenida Afonso Pena.

Ao abordar um dos fregueses dos flanelinhas vizinhos, a reportagem enfrentou a primeira demonstração da relação viciosa entre a clientela e os lavadores. O homem de camisa alinhada e gravata que chegou num Polo prata e disse trabalhar no Tribunal de Justiça Militar se sentiu incomodado. Frisou várias vezes que era funcionário do tribunal e que já era cliente da mulher cadastrada na Rua Aimorés.

Em troca de exclusividade, essa flanelinha dá um desconto a funcionários do Tribunal de Justiça Militar, no Funcionários(foto: Mateus Parreiras/EM/DA Press)
Em troca de exclusividade, essa flanelinha dá um desconto a funcionários do Tribunal de Justiça Militar, no Funcionários (foto: Mateus Parreiras/EM/DA Press)
Minutos depois, o engravatado foi ao tribunal, a menos de 50 metros de onde parou seu carro, reuniu a flanelinha e um policial militar que fazia a guarda do edifício. Os três gesticulavam e apontavam para o veículo. Não demorou muito para o policial atravessar a rua e se aproximar da reportagem. “Bom dia, irmão. E aí? Belezão mesmo? É o novo companheiro aí de lavar carro?”, diz o cabo. “Você mais a dona ali (flanelinha) já chegaram a um acordo?”, pergunta, direto. A resposta foi a explicação de que a atividade naquele quarteirão é permitida e registrada na PBH: a mulher é cadastrada na Rua Aimorés e a reportagem na Rua Rio Grande do Norte. “Tem muito tempo que ela (a flanelinha) trabalha aí. Ela estava falando se vocês não entram num acordo. Às vezes o cliente dela estaciona aqui e o seu pode estacionar lá”, sugere o militar. “Então, vocês entram num acordo”, insiste de forma áspera, esperando ter deixado claro que essa era a solução.

Motoristas entregam as chaves dos carros para os flanelinhas e acabam sendo vítimas de roubos, como a reportagem presenciou(foto: Mateus Parreiras/EM/DA Press)
Motoristas entregam as chaves dos carros para os flanelinhas e acabam sendo vítimas de roubos, como a reportagem presenciou (foto: Mateus Parreiras/EM/DA Press)
Quando a reportagem procurou a flanelinha foi que o esquema se revelou. A mulher reserva vagas em vários quarteirões para os funcionários do Tribunal de Justiça Militar, em troca de lavar para eles os carros por um preço camarada. “De quem vem de fora, a gente cobra R$17, R$18 e R$ 20 para lavar. Do tribunal tem de ser R$ 15”, informa.




Extorsão em qualquer via de Belo Horizonte

Antes que terminasse de estacionar o carro, o administrador Willian de Jesus Dias Ribeiro, de 31 anos, foi cercado por um homem de camisa verde, poucos dentes na boca e um odor forte de álcool. “Deixa um trocado para vigiar o carro aí, patrão”. Incomodado com a intimidação, o administrador tentou se desvencilhar do flanelinha, ignorando-o. Mas isso não impediu o homem de insistir, indo para cima do motorista e da namorada dele até conseguir alguns trocados e voltar para seu posto de observação na esquina. O fato, corriqueiro em várias partes da cidade, ocorreu na Rua Contendas, cruzamento com a Avenida Silva Lobo, no Grajaú, Região Oeste de Belo Horizonte. “Me senti constrangido e tive medo de o rapaz (flanelinha) tentar fazer algo contra meu carro. A gente paga Faixa Azul e depois fica na mão desses informais. Estamos desprotegidos”, desabafa Willian.

A Região Oeste não tem nenhum lavador ou guardador de carros cadastrado, mas suas vias mais movimentadas estão infestadas de flanelinhas como o que extorquiu dinheiro do administrador. Na avenida, o território é explorado ilegalmente por outro lavador. O jovem passa o dia sentado numa cadeira de plástico no canteiro central da Silva Lobo. Só se levanta quando alguém manobra para estacionar ou inicia a retirada do carro parado. “Pode vigiar aí, patrão?”, pergunta aos berros quando a pessoa sai antes de ser aborada. Se tem tempo de chegar perto, cerca o condutor , tenta ajudar nas manobras mesmo quando não é requisitado. “Pode deixar qualquer coisa. Não sou desses que ficam dizendo quanto pode dar. Paga quanto quiser”, diz para mostrar que não importuna os motoristas.

Os seis flanelinhas que ocuparam a Rua Tabaiares, na Floreste, Região Leste da capital, não tentam intimidar os clientes e chegam a ser educados, mas desrespeitam a lei de outra forma. Recebem de R$ 2 a R$ 5 de cada pessoa que deixa com eles as chaves dos carros e vão espremendo os veículos, estacionando uns na frente de garagens, outros em locais proibidos.

Na quarta-feira, surpreendidos por uma fiscalização do Batalhão de Trânsito e da BHTrans, que multou cinco carros parados em fila dupla, os flanelinhas correram para avisar os clientes e tentar remover os veículos, mas não tiveram tempo. Um dos motoristas multados, Raimundo Libânio Xavir, de 49, tentou se justificar. “Deixei a chave com os guardadores na fila dupla, rapidinho, enquanto buscava documentos num prédio. Fazer o que, né?”.

Assista o vídeo com o flagrante da reportagem do EM



Nada errado

Procurada pelo EM, a Secretaria Municipal de Administração Regional Centro-Sul não encontrou as irregularidades apuradas pela reportagem. Segundo a regional, não havia nenhum flanelinha terceirizado trabalhando para credenciados. ARegional Leste não respondeu os questionamentos e a Oeste informou que iria enviar fiscais aos locais para verificar a ilegalidade. A PBH não se pronunciou sobre os problemas constatados pela reportagem. APolícia Militar, por sua vez, informou que abriu procedimento administrativopara apurar a conduta do cabo que intimidou o repórter. Em nota, disse que “em se confirmando, juridicamente,o militar será punido administrativa e penalmente pela falta cometida”


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