
Ao abordar um dos fregueses dos flanelinhas vizinhos, a reportagem enfrentou a primeira demonstração da relação viciosa entre a clientela e os lavadores. O homem de camisa alinhada e gravata que chegou num Polo prata e disse trabalhar no Tribunal de Justiça Militar se sentiu incomodado. Frisou várias vezes que era funcionário do tribunal e que já era cliente da mulher cadastrada na Rua Aimorés.


Extorsão em qualquer via de Belo Horizonte
Antes que terminasse de estacionar o carro, o administrador Willian de Jesus Dias Ribeiro, de 31 anos, foi cercado por um homem de camisa verde, poucos dentes na boca e um odor forte de álcool. “Deixa um trocado para vigiar o carro aí, patrão”. Incomodado com a intimidação, o administrador tentou se desvencilhar do flanelinha, ignorando-o. Mas isso não impediu o homem de insistir, indo para cima do motorista e da namorada dele até conseguir alguns trocados e voltar para seu posto de observação na esquina. O fato, corriqueiro em várias partes da cidade, ocorreu na Rua Contendas, cruzamento com a Avenida Silva Lobo, no Grajaú, Região Oeste de Belo Horizonte. “Me senti constrangido e tive medo de o rapaz (flanelinha) tentar fazer algo contra meu carro. A gente paga Faixa Azul e depois fica na mão desses informais. Estamos desprotegidos”, desabafa Willian.
A Região Oeste não tem nenhum lavador ou guardador de carros cadastrado, mas suas vias mais movimentadas estão infestadas de flanelinhas como o que extorquiu dinheiro do administrador. Na avenida, o território é explorado ilegalmente por outro lavador. O jovem passa o dia sentado numa cadeira de plástico no canteiro central da Silva Lobo. Só se levanta quando alguém manobra para estacionar ou inicia a retirada do carro parado. “Pode vigiar aí, patrão?”, pergunta aos berros quando a pessoa sai antes de ser aborada. Se tem tempo de chegar perto, cerca o condutor , tenta ajudar nas manobras mesmo quando não é requisitado. “Pode deixar qualquer coisa. Não sou desses que ficam dizendo quanto pode dar. Paga quanto quiser”, diz para mostrar que não importuna os motoristas.
Os seis flanelinhas que ocuparam a Rua Tabaiares, na Floreste, Região Leste da capital, não tentam intimidar os clientes e chegam a ser educados, mas desrespeitam a lei de outra forma. Recebem de R$ 2 a R$ 5 de cada pessoa que deixa com eles as chaves dos carros e vão espremendo os veículos, estacionando uns na frente de garagens, outros em locais proibidos.
Na quarta-feira, surpreendidos por uma fiscalização do Batalhão de Trânsito e da BHTrans, que multou cinco carros parados em fila dupla, os flanelinhas correram para avisar os clientes e tentar remover os veículos, mas não tiveram tempo. Um dos motoristas multados, Raimundo Libânio Xavir, de 49, tentou se justificar. “Deixei a chave com os guardadores na fila dupla, rapidinho, enquanto buscava documentos num prédio. Fazer o que, né?”.
Assista o vídeo com o flagrante da reportagem do EM
Nada errado
Procurada pelo EM, a Secretaria Municipal de Administração Regional Centro-Sul não encontrou as irregularidades apuradas pela reportagem. Segundo a regional, não havia nenhum flanelinha terceirizado trabalhando para credenciados. ARegional Leste não respondeu os questionamentos e a Oeste informou que iria enviar fiscais aos locais para verificar a ilegalidade. A PBH não se pronunciou sobre os problemas constatados pela reportagem. APolícia Militar, por sua vez, informou que abriu procedimento administrativopara apurar a conduta do cabo que intimidou o repórter. Em nota, disse que “em se confirmando, juridicamente,o militar será punido administrativa e penalmente pela falta cometida”


