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Estado de Minas

Dono da rua do Funcionários fica com a maior parte dos lucros e decide quem trabalha

Enquanto oito flanelinhas se desdobram para lavar e vigiar 60 automóveis parados em dois quarteirões da via, Toninho, o patrão deles, fica sentado numa espreguiçadeira ou dentro do carro


postado em 12/08/2012 07:00 / atualizado em 12/08/2012 08:04

No Bairro Funcionários, nos quarteirões entre as avenidas Brasil e Afonso Pena, onde funcionários de bancos, restaurantes, hospitais e escritórios estacionam seus carros, todos os flanelinhas conhecem Toninho. A influência e poder naquela porção nobre da Região Centro-Sul fazem seu nome ser o primeiro indicado quando uma pessoa de fora tenta limpar e tomar conta de veículos, sem se importar em dividir os lucros com o dono da rua, licenciado pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Foi oferecendo mão de obra nos quatro dias em que passou entre os guardadores e lavadores de carros que a reportagem do Estado de Minas chegou ao “rei” da Rua Timbiras.

Enquanto oito flanelinhas se desdobram para lavar e vigiar 60 automóveis parados em dois quarteirões da via, Toninho, o patrão deles, fica sentado numa espreguiçadeira ou dentro do carro, um Palio com película escura nos vidros e tela reflexiva no para-brisa. A cada negócio fechado, seja vigiar um veículo em troca de moedas ou de uma nota de R$ 2, seja lavar um carro por dentro e por fora por R$ 25, os “meninos” vão até o chefe prestar contas. Dois terços do lucro ficam com ele, o que lhe permitiu instalar um hidrômetro e até um ponto de energia elétrica para ligar sua televisão em plena rua. Toninho não se mostra preocupado com a fiscalização e continua a recrutar pessoas para cuidar dos carros, administrando tudo sem pegar no pesado.

O EM apurou com a PBH e com moradores mais antigos da região que Toninho começou no quarteirão de baixo, entre as ruas Ceará e Bernardo Monteiro. Em pouco tempo, como era o único registrado no trecho, angariou clientes e estabeleceu os terceirizados para lavar e guardar automóveis. Em seguida, se descadastrou oficialmente do ponto onde a clientela estava garantida, deixando lá os flanelinhas que arregimentou e que já tinham de freguesia cativa. Então se registrou no quarteirão seguinte, entre as ruas Piauí e Ceará, ampliando a área de influência e estabelecendo seus domínios atuais.

O primeiro encontro do “imperador” da Rua Timbiras com a reportagem ocorreu quando ele estava confortavelmente instalado no seu carro, ouvindo música. O veículo é recheado de bugigangas e as chaves de dezenas de carros de clientes abarrotam o porta-luvas. Diante da pergunta da reportagem, que pretendia ajudar a lavar os carros, o homem magro, de fala mansa e bem articulado diz que por enquanto está com o quadro de lavadores completo. “Nesse momento aí tem os meninos já trabalhando para mim. Então, não estou precisando. Mas pode ser que, se você passar aqui e eu precisar, te dou uma ideia. Vem cá ver”, disse, desconfiado pela abordagem inesperada.

Quando a reportagem cita os nomes de outros flanelinhas da área, que o teriam indicado, Toninho abre um pouco mais o jogo e conta que mesmo dispondo de tantos “funcionários” precisa marcar presença. “Tenho de vir aqui, porque se não vier trabalhar eles (os flanelinhas que terceirizou) não vão trabalhar. Se não tiver um carro para eles lavarem, não vamos ganhar”, afirma.

(foto: Entenda como surgem os
(foto: Entenda como surgem os "reis" das ruas (clique para ampliar))
Mal encarados


Nos dias seguintes, Toninho contou um pouco mais da sua história e de como controla os quarteirões da Rua Timbiras. “Tem oito anos que estou aqui. Pus água, pus luz, tudo direitinho. Tenho 60 carros aqui. Antes o povo não deixava a chave. Agora, toma confiança e deixa, vai criando amizade mesmo.” Mas a história não é tão espontânea assim. Antes de ele chegar à rua, por volta das 9h, os primeiros que aparecem são homens mal encarados que só vão embora quando Toninho chega e os libera. A função dos brutamontes é deixar claro aos primeiros clientes que o carro está sob vigilância e inibir a entrada de outros lavadores nos domínios do “rei” da rua.

No último dia, um dos lavadores chega para o patrão e mostra um pequeno pote de creme facial que roubou de um dos veículos da clientela. O flanelinha oferece para o chefe, que pega o creme e o analisa. O rapaz pede para abater o produto de sua dívida com Toninho, revelando que os veículos que ficam nas mãos dos lavadores não estão tão seguros quanto se imagina.

“Desconta aí R$ 3, R$ 4 do último negócio lá (carro lavado)”, pede o flanelinha ao chefe. O patrão responde evasivamente, enquanto tenta estimar o valor do item. “Tô meio caidão também”, diz Toninho, ganhando tempo e catimbando a negociação. “Você não dá moral para mim. E eu dô a moral para você”, insiste o rapaz. “Que dar moral para você! Tô querendo ver se dou esse negócio para minha esposa, mas nem sei se vale alguma coisa mesmo, ué”, justifica, em meio a uma negociação que só seria decidida à noite. “Olha aqui. É negócio de passar em pele, sô. Dou para minha mulher ou vendo por R$ 5, que fico na mesma”, diz Toninho à reportagem.


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