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Estado de Minas

Nossa história: crime com roteiro de folhetim

Há 50 anos, o médico e deputado estadual Nacip Raydan Coutinho foi assassinado na porta de sua casa, em Santa Maria do Suaçuí, numa trama que envolveu política, inveja e traição


postado em 14/04/2012 06:00 / atualizado em 14/04/2012 07:16

Há exatos 50 anos, um assassinato fez tremer o mundo político de Minas Gerais, pois acirrou ainda mais a grande rivalidade que havia entre os dois partidos mais fortes do estado, a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD). Foi no entardecer de 14 de abril de 1962 que o médico e deputado estadual Nacip Raydan Coutinho tombou diante da garagem de sua casa, em Santa Maria do Suaçuí, Vale do Rio Doce, com três balas calibre 38 no corpo. Um crime de mando só esclarecido porque entrou em cena um personagem legendário das páginas policiais mineiras, o coronel PM Pedro Ferreira dos Santos. Mesmo assim, ele só chegou aos mandantes e ao executor depois de meses de diligências, pistas falsas, mentiras, intrigas, interrogatórios e prisões na então conturbada Região Leste, na época dominada por homens ganaciosos e pistoleiros de aluguel barato.

Nacip Raydan pertencia ao antigo PSD e o governador na época era Magalhães Pinto, da UDN. O deputado era, portanto, um representante da oposição. E não era um opositor qualquer. Era ferrenho ousado, autoritário, audacioso e persuasivo. Do tipo que a legenda precisava na sua luta ferrenha contra os adversários. Esclarecer o assassinato tornou-se prioridade para o palácio do governo, para, principalmente, dissolver o falatório, satisfazer as cobranças da imprensa e tirar dos ombros do governador qualquer tipo de suspeita. As investigações começaram com o delegado Newton Nogueira Campos, da Delegacia Especializada de Segurança Pública, mas não avançava.

A imprensa fazia seu papel: exigia a imediata apuração, diante das especulações que sacudiam a comunidade política. Os partidos de oposição na Assembleia Legislativa se uniram e formaram uma comissão para acompanhar o caso, que continuava incomodando o udenista Magalhães Pinto. Então, alguém soprou nos ouvidos do governador que só havia um homem capaz de esclarecer a emboscada e botar os assassinos na cadeia. Era o coronel Pedro Ferreira dos Santos. O governador encarregou o então secretário de Segurança pública, Faria Tavares, de chamar o militar, famoso por desvendar crimes nas regiões Leste e Nordeste de Minas.

Saga

Pedro Ferreira já estava na reserva, mas resolveu aceitar o desafio. Só a citação de seu nome fazia a bandidagem do Leste mineiro tremer e escapulir para outras bandas. O coronel pediu verba de Cr$ 1,5 milhão (dinheiro da época) para custear as diligências. Sabia que teria de fazer muitas viagens. Nada lhe foi negado pelo palácio. E em 21 de abril de 1962 o legendário coronel desembarcou em Santa Maria do Suaçuí para iniciar o desembaraço da rumorosa execução.

A repercussão era tão grande que o Estado de Minas destacou o repórter Fialho Pacheco, que se tornou notável por ter ganhado três vezes o Prêmio Esso de Reportagem, para não só acompanhar os passos de Pedro Ferreira como também se antecipar às investigações. No livro Um certo delegado de capturas, o também coronel Klinger Sobreira de Almeida narra toda a saga de Pedro Ferreira, com quem trabalhou na espinhosa missão de botar na cadeia os assassinos de Nacip Raydan.

Klinger descreve muito bem como a violência reinava no Leste mineiro naquela ocasião: “Os caminhos percorridos por certos chefes da política regional não são sempre os indicados pela decência e lealdade para com os adversários. As dezenas de cruzes espalhadas por suas ermas estradas, salpicadas de sangue do inimigo descuidado, retratam a mentalidade de ultrapassados grupos políticos, que, naquelas paragens, digladiam pelo mandonismo municipal.

Não há lugar para os que discordam, para os que ousam quebrar as falsas unanimidades das convenções, para os que sobressaem da mediocridade geral. Os que assim agem e os que assim pensam são sumariamente afastados, por bem ou por mal.” Era esse cenário que Pedro Ferreira iria percorrer, o que não era novidade para ele.

Os acusados

Depois de muitas pistas falsas, prisões equivocadas ou não, Pedro Ferreira chegou aos mandantes e ao executor. Em 16 de novembro apresentou seu relatório com os nomes dos acusados.  De acordo com o livro Um certo delegado de capturas, o corajoso coronel relacionou sete nomes: Rodolpho da Silva Lima e seu irmão Geraldo Benigno Lima como mandantes, João Alves de Oliveira e Alírio Bastos, como articuladores, com a colaboração de José Ferraz Salgado e Wantuil de Paula Neves; e Ozacife Lopes de Carvalho, o pistoleiro que emboscou em atirou em Nacip Raydan.

De acordo com o relato de Pedro Ferreira, contido no livro, Nacip, enquanto estudava medicina no Rio de Janeiro, perdeu o pai, José Nacip Raydan, assassinado em uma emboscada. Como a polícia não deu conta de esclarecer o crime, ele fez justiça com as próprias mãos, ordenando a morte de mandantes e executores. Apesar da fama de durão, quem chegou a Santa Maria foi um homem cativante, educado, de sorriso fácil, simpático, que inspirava confiança, audacioso e corajoso. Era a pessoa certa para a direção política do município e escolheu o PSD, partido de oposição ao governo estadual até o início da década de 1950. E Nacip tornou-se um líder político respeitado em toda área de influência do município.

Em 1951, seu partido chegou ao governo do estado. Em 1954, foi eleito prefeito de Santa Maria. E, em 1959, deputado estadual, mandato que não terminou. “Sua vontade era única e soberana. não admitia réplicas nem contestação. Os aliados o temiam e fingiam aceitar tudo”, escreveu Klinger. Em 1960, com a saída do PSD do governo, os adversários de Nacip tentavam se fortalecer para enfrentá-lo nas urnas. Um deles, Geraldo Lima, que ocupara o cargo de prefeito por duas vezes, tentou se candidatar novamente, pelo PSD, mas Nacip, com forte influência no partido, impediu. Geraldo, era acusado de ter mandado matar um dos empregados da fazenda do médico, que, por isso, não confiava nele.

Vingança

Geraldo tentou o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mas Nacip, amigo da cúpula petebista, conseguiu barrá-lo novamente. Geraldo tentou a UDN, que o recusou. Vaidoso e ganacioso, Geraldo sentiu-se ofendido e se aproximou de Alírio Bastos, um aventureiro, que aceitou a empreitada de tramar a morte de Nacip Raydan por 400 mil cruzeiros (dinheiro da época). Rodolpho da Silva Lima, irmão de Geraldo, financiaria a maior parte: 300 mil. Aliou-se ao grupo o escrivão de polícia João Alves, que pagaria o restante, e José Ferraz Salgado, para ajudar Alírio na coordenação do crime. João era amigo, companheiro de política e compadre do médico e deputado, mas o odiava porque nunca era ouvido nas decisões e o invejava. Alírio ofereceu 100 mil cruzeiros ao pistoleiro Wantuil de Paula Neves para atirar em Nacip, mas ele recusou a oferta e indicou Ozacife Lopes de Carvalho, morador de Galiléia, para a tarefa.

Ozacife foi levado a Santa Maria e ganhou de Geraldo um revólver calibre 38 e balas envenenadas com formicida. Por vários dias, vestido quase como mendigo e com um alforje pendurado nos ombros, rondou a casa de Nacip. No dia 14 de abril, Alírio, seguindo o planejamento, bateu na porta do médico e deputado e pediu a ele que fosse atender a sua adoentada sogra. Nacip foi e, na volta, o pistoleiro Ozacife o esperava. Foram três tiros e as balas envenenadas causaram hemorragia interna, matando-o. Um crime cometido por disputa política, inveja, ganância e ódio. Mas, o trabalho do coronel Pedro Ferreira não acalmou de imediato a imprensa e o mundo político. A insinuações continuaram por um bom tempo. A viúva de Nacip, Idelze Petrucelli Raydan, de 77 anos, cansada de tanto falar e de escrever sobre o caso, não quis fazer comentários sobre os 50 anos da morte do marido.

Pedro Ferreira dos Santos
O coronel Pedro Ferreira dos Santos nasceu em 1914, em Brasópolis, Sul de Minas. Desde criança já mostrava espírito de liderança e coragem. O pai milita, era sempre transferido de batalhão e aos 11 anos o menino mudou-se com a família para Uberaba, no Triângulo Mineiro. Depois, para Guaxupé, no Sul de Minas. Inteligente e estudioso, exibia muita força física nos seus 62kg e 1,69m de altura e habilidade com as armas. Em 1930, estourou a revolução. Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul se rebelaram contra o poder central. Pedro, louco para entrar na briga, furtou a farda e o fuzil de um desertor e foi para o campo de batalha. O adolescente se tornou herói e foi incorporado à Polícia Militar. Destacou-se como delegado de capturas no Leste e Nordeste de Minas, regiões onde esclareceu muitos crimes, entre os quais a morte de Raydan. Pedro Ferreira recebeu homenagens do Legislativo estadual, do governo do estado e de entidades pelo esclarecimento da execução.

SAIBA MAIS: Caso de repercussão nacional
O esclarecimento do crime e a prisão dos acusados atraiu a Santa Maria do Suaçuí correspondentes dos grandes veículos de comunicação do país. O Estado de Minas, por meio do trabalho do repórter Fialho Pacheco, acompanhou todos os passos da investigação e adiantou fatos que foram importantes para o trabalho do coronel Pedro Ferreira, tanto que ficaram amigos. O livro Um certo delegado de capturas reproduz o editorial do jornal publicado no fim da investigação. Em um dos parágrafos, o EM destaca: “Agora, como é notório, tudo está esclarecido. E esclarecido ficou, igualmente, que o governo nada teve com o fato, produto lamentável das divergências, incompreensões, ódios e ambições que lavram em Santa Maria do Suaçuí.”

LINHA DO TEMPO
1954: Nacip Raydan é eleito prefeito de Santa Maria do Suaçuí pelo Partido Social Democrático (PSD)
1959: Pela mesma legenda e apontado como influente líder político do Leste de Minas, é eleito deputado estadual
14/4/1962: No fim da tarde Nacip Raydan é assassinado, de tocaia, na porta de casa, em Santa Maria do Suaçuí
21/4/1962: O coronel Pedro Ferreira, a mando do governador Magalhães Pinto (UDN), inicia a apuração
15/11/1962: Em entrevista à imprensa, Pedro Ferreira anuncia o esclarecimento do assassinato de Nacip Raidan
16/11/1962: Pedro Ferreira apresenta os acusados, entre os quais pistoleiro Ozacife Lopes de Carvalho, autor dos tiros

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