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Estado de Minas

Tragédia na BR-040 reflete risco das rodovias em Minas

desastre que espalhou luto em cinco cidades, especialmente no Vale do Aço, revela deficiência que impera em mais de 96% das estradas mineiras: pistas estreitas, em que veículos de grande porte se cruzam a poucos centímetros. No acidente que matou 15 pessoas, largura da rodovia não comportava ônibus e carreta


postado em 20/03/2012 06:00 / atualizado em 20/03/2012 06:37

O perigo passa ao lado: em apenas 1.300 dos 35.960 quilômetros da malha rodoviária mineira há estradas duplicadas. No restante, risco de colisão frontal é alto(foto: Jorge Gontijo/EM/D.A Press)
O perigo passa ao lado: em apenas 1.300 dos 35.960 quilômetros da malha rodoviária mineira há estradas duplicadas. No restante, risco de colisão frontal é alto (foto: Jorge Gontijo/EM/D.A Press)
 

 

No momento em que invadiu a pista contrária, supostamente iniciando uma ultrapassagem sobre um caminhão carvoeiro, na tarde de sábado, em plena faixa contínua da BR-040, em Felixlândia (Região Central de Minas), o ônibus da empresa Conserge que transportava 43 passageiros entrava em um corredor sem volta. Quando do sentido oposto da estrada surgiu uma carreta com carga excedente, o motorista já não tinha quase nenhuma chance de evitar a tragédia: ainda que conseguisse retornar à sua faixa de rolamento, o espaço restante seria menor do que a largura do ônibus, de 2,6 metros. O veículo de carga que se chocou com o coletivo media 4,5m de largura, um metro a mais do que os 3,5m da faixa em que cada um trafegava (veja arte). O resultado foram as 15 mortes que cobriram de luto ontem cinco cidades, a maioria no Vale do Aço, onde os corpos foram sepultados, além de ferimentos em 17 pessoas.

Vias estreitas como essa são mais que uma ameaça em que veículos, principalmente os de grande porte, se cruzam a poucos centímetros uns dos outros: elas são uma regra no estado, onde apenas 1.300 quilômetros de estradas são duplicados, o equivalente a 3,6% da malha rodoviária total de 35.960 quilômetros. Com o fluxo cada vez mais pesado do transporte de carga e passageiros, a tendência é de registro de acidentes cada vez mais graves. De acordo com o chefe do posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF) responsável pelo trecho onde ocorreu a tragédia, inspetor Marcelo Espíndola, a via está em perfeitas condições de pavimentação e a sinalização é adequada. Mas ele admite que um fator importante para acidentes com veículos de grande porte na rodovia, como o registrado no sábado, são as dimensões modestas das pistas. “A soma da largura dos dois veículos, sete metros, era a mesma medida da estrada. Se somarmos as duas faixas de trânsito, desprezando o acostamento, elas não comportariam a passagem do ônibus e do caminhão. Precisariam usar o acostamento”, diz.

“O ideal em linha reta é que o espaço seja de 3,6 metros, no caso de pista simples. O acidente aconteceu em ponto de ultrapassagem proibida e houve o agravante de vir um veículo de carga especial no sentido contrário”, avalia o especialista em transporte e trânsito Frederico Rodrigues. A PRF não divulgou dados específicos, mas, em um levantamento dos acidentes de maior repercussão, é perceptível o aumento de óbitos em ocorrências envolvendo os dois tipos de veículos pesados. No ano passado, por exemplo, foram cinco grandes batidas entre ônibus e carretas, resultando em 19 mortes e 89 feridos. Só neste ano, em três acidentes, já são 21 vítimas e 56 feridos. Em 2011, houve acidentes nas BRs 040, 050, 116 e 135. Neste ano, as batidas foram nas BRs 040 e 262.

No caso do desastre em Felixlândia, a carga transportada pela carreta estava dentro das normas, pois tinha guia de Autorização Especial de Trânsito emitida pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). O veículo saiu de Santos (SP) rumo a Fortaleza, transportando um tubo de aço que serviria de base para uma usina eólica. Ao bater no coletivo, arrancou metade do ônibus no sentido do comprimento. Apesar das informações iniciais da polícia, segundo as quais a carreta teria 3,20 metros de largura, ontem à tarde a delegada Mércia Leite Pinheiro de Ávila, de Curvelo, informou que na cópia da autorização especial emitida pelo Dnit consta que as dimensões são 29,5 metros de comprimento, 5,30m de altura e 4,5m de largura.

O inspetor Antônio Edélcio, da Polícia Rodoviária Federal em Sete Lagoas, informou que a largura de 4,5 metros configura excesso lateral, mas acrescentou que o transporte não representa irregularidade, desde que tenha autorização do Dnit. Ele explicou que nem sempre um veículo desse tipo pode viajar no acostamento para impedir a invasão da pista contrária. “Conforme a carga, o veículo pode não ter condições de usar o acostamento, por causa do desnível da pista. Nesse caso, o batedor deve sinalizar para que o veículo em sentido contrário use o seu acostamento para dar passagem para a carga com excesso”, esclareceu.

Conforme o inspetor, no trecho monitorado pelo posto da PRF de Sete Lagoas pelo menos três acidentes envolvendo ônibus, com mortos e feridos, foram registrados desde novembro. No entanto, a violência da última ocorrência impressionou os próprios agentes. “Os policiais aqui têm quase 20 anos de profissão e o que percebi foi que todos ficaram muito chocados. Já atendemos muitos acidentes com ônibus, mas nada chega perto disso. Da forma como o acidente ocorreu, os passageiros não tiveram nenhuma chance de sobreviver”, relatou.

Operação de tráfego


Veículos com cargas especiais exigem dos responsáveis pela rodovia tratamento diferenciado não só na concessão de licenças de circulação, mas também no monitoramento. A avaliação é do engenheiro e mestre em transportes Silvestre Andrade, que critica a diferença de tratamento desses veículos nas rodovias públicas e privadas. “Nas estradas gerenciadas por concessionárias, a viagem é acompanhada com câmeras e por veículos da empresa. Nas sem concessão, sinto falta de um operador rodoviário, alguém que tome conta da operação na via. A Polícia Rodoviária não tem esse papel”, afirma.

 

 

Depois do impacto, coletivo ficou no meio da rodovia, sobre a faixa que indica ultrapassagem proibida(foto: Sidiney Domingos de Melo/Portal Felixlândia)
Depois do impacto, coletivo ficou no meio da rodovia, sobre a faixa que indica ultrapassagem proibida (foto: Sidiney Domingos de Melo/Portal Felixlândia)

 

 

Enquanto isso, motorista é interrogado

O condutor que dirigia o ônibus da empresa Conenge, Armando Anselmo Farias, prestou depoimento ontem ao delegado regional de Sete Lagoas, André Pelli. Apesar da urgência na oitiva, já que o motorista ainda está internado no Hospital Imaculada Conceição, em Curvelo, o policial preferiu não divulgar o teor da conversa, afirmando que precisa checar informações passadas por Farias. “Ele está medicado e muito emotivo ao falar do acidente. Prestou esclarecimentos que precisam ser averiguados e que não podem ser revelados ainda”, disse. Sobre a dinâmica do desastre, o policial não adiantou se Farias confirmou que fazia uma ultrapassagem no momento da colisão. “Mas, segundo o outro motorista (da carreta), ele estava, sim, na contramão, fazendo uma ultrapassagem”, disse. Armando Anselmo Farias sobreviveu ao choque entre os dois veículos com apenas uma fratura no braço.

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