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Estado de Minas

Polícia já investiga responsabilidades de acidente que matou 15 na BR-040

Corpos de vítimas do acidente com ônibus da Conenge chegaram ontem à noite a cinco cidades da região. Numa mistura de dor e saudade, parentes se despediram dos mortos


postado em 19/03/2012 07:03 / atualizado em 19/03/2012 09:45

(foto: Sidiney Domingos de Melo/Portal Felixlandia)
(foto: Sidiney Domingos de Melo/Portal Felixlandia)

A Polícia Civil de Curvelo, na Região Central de Minas, abriu inquérito para investigar as causas do acidente que causou a morte de 15 funcionários da Conenge sábado à tarde na BR-040. O delegado regional André Pelli informou que já ouviu o condutor da carreta e os motoristas dos carros que faziam a escolta da carga especial. Segundo ele, os três disseram que o transporte da carga estava sendo feito de forma legal, dentro das normas. Ainda em depoimento, os motoristas da carreta e da escolta alegaram que o acidente ocorreu porque o motorista do ônibus, Armando Anselmo Faria, fez uma ultrapassagem em um local proibido e não conseguiu evitar o choque frontal com a carreta.

O policial disse que a previsão inicial é que o inquérito seja concluído em de 30 dias. “Mas, nesse caso, pode ser que seja necessário pedir uma prorrogação para concluir os trabalhos porque as vítimas são de cidades de uma região distante (Ipatinga, no Vale do Aço) e teremos de ouvir várias pessoas por precatórias”, antecipou Pelli. Ele informou que conferiu a documentação da carreta, não encontrando nada de errado. “Tudo estava regular, constando, inclusive, um plano e itinerário da viagem feita de forma lenta”, disse o delegado.

A viagem começou em Santos (SP) e terminaria em Fortaleza (CE). O tubo de aço de 40 toneladas é a base de uma usina eólica em implantação no Nordeste. O policial desmentiu a informação inicial de que a carga tinha excesso lateral. Segundo ele, o tubo ocupava apenas o espaço da carroceria da carreta, que tem 3,20 metros de largura. André Pelli não quis adiantar nada sobre as causas da tragédia, afirmando que ainda aguarda o laudo da perícia e o boletim da Polícia Rodoviária Federal (PRF). O depoimento do motorista do ônibus ainda não tem data. O delegado também planeja ouvir outros sobreviventes do acidente.

FATALIDADE


Confira como foi o choque frontal. Clique para ampliar(foto: Clique para ampliar)
Confira como foi o choque frontal. Clique para ampliar (foto: Clique para ampliar)
Em Ipatinga, cartazes na porta da Conenge informavam: “Estamos de luto”. Durante todo o dia, a movimentação na empresa, onde trabalhavam as vítimas do acidente da BR-040, foi grande. Amigos, parentes e colegas chegavam ansiosos para saber sobre os mortos na tragédia.

Segundo o dono da empresa, Heleno Conte, cerca de 150 funcionários viajaram para Paracatu, no Noroeste de Minas, dia 11. Trabalharam cinco dias na mineradora Kinross, prestando serviços de manutenção e, como de costume, voltavam no sábado. “Há cinco anos trabalhamos dessa forma em Paracatu, com viagens de dois em dois meses”, conta.

Dois ônibus saíram do Noroeste do estado anteontem de manhã, mas um deles, com 43 passageiros, não conseguiu chegar ao destino. “Foi uma fatalidade. O motorista estava atrás do caminhão de carvão, que foi para o acostamento. Ele entendeu que poderia ultrapassar o veículo, mas, na outra pista, vinha uma carreta com uma bobina de aço”, relata.

De acordo com Conte, o ônibus havia passado por manutenção antes da viagem para Paracatu. Ele também diz que o motorista, Armando Anselmo Farias, que sobreviveu ao choque apenas com uma fratura no braço, era empregado antigo da Conenge. “Temos que ver o relatório da Polícia Civil para ter mais detalhes sobre a causa do acidente”, afirma. A Conenge disse que está prestando apoio às vítimas e que tem seguro de vida para cada trabalhador.

Vale do Aço se veste de luto

Na BR-040, restou um ônibus partido ao meio, carregado de sonhos, esperança e desejos de uma vida melhor. Ao longo da BR-381, rodovia que corta o Vale do Aço, famílias inteiras abaladas pela dor da perda e da saudade. Já era noite, por volta das 20h, quando cinco municípios na região receberam ontem os corpos dos 15 trabalhadores mortos sábado no acidente entre um ônibus, com 43 passageiros, e uma carreta, em Felixlândia, na Região Central do estado. Além do atraso, a ansiedade aumentava com notícias da gravidade do quadro de dois sobreviventes, internados no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, em Belo Horizonte.

Ao longo do domingo, parentes aguardavam a chegada dos restos mortais dos trabalhadores, que saíram de Curvelo, na Região Central do estado, às 13h, e chegaram a Ipatinga à noite. De acordo com a Conenge, empresa onde trabalhavam as vítimas da tragédia, um acidente na estrada atrasou a chegada do comboio. Por causa do adiantado estado de decomposição dos corpos, a orientação era sepultá-los ainda ontem. Mas, por volta das 20h45, a administração do Cemitério Parque Senhora da Paz, em Ipatinga, onde seriam enterrados seis corpos, recebeu orientação para dispensar a equipe de coveiros, pois os sepultamentos foram transferidos para hoje. O governador Antonio Anastasia (PSDB) deverá comparecer para se solidarizar com os parentes das vítimas.

Os demais corpos serão enterrados nos municípios de Ipaba (um), Belo Oriente (dois), Vargem Alegre (uma), Dores de Guanhães (um), e em Cachoeira Escura (quatro), distrito de Belo Oriente. As famílias das vítimas prosseguiram ontem numa via crucis de mais de 30 horas, desde o momento do acidente, às 14h30 de sábado. Nesse momento, uma carreta, que carregava um tubo de aço de 40 toneladas e era acompanhada por batedores, rasgou ao meio o ônibus da Conenge. Um caminhão de carvão, que seguia à frente do ônibus, foi para o acostamento, para dar passagem à carreta. O condutor do ônibus interpretou o gesto como um sinal de ultrapassagem, acelerou e foi atingido em cheio pelo veículo de carga.

SONHO REALIZADO


A espera dos corpos entes queridos era carregada de emoção no Cemitério Parque Senhora da Paz, em Ipatinga. Com a fotografia de um jovem sorridente nas mãos, Maria Catarina Fernandes, de 61 anos, lembrava com emoção do sobrinho Tadeu Fernandes Schubert, de 20, o mais novo entre os mortos. Caçula de uma família com quatro filhos, o rapaz sonhava em trabalhar no trecho. “A mãe não queria deixar o garoto viajar, mas ele foi. Tadeu morreu, mas realizou o sonho”, dizia a tia, emocionada. “Nunca tinha mexido com mecânica, porém entendia muito de moto e bicicleta”, contou Maria Catarina, lembrando do jovem alegre e querido por todos.

O corpo do rapaz foi um dos primeiros a chegar ao cemitério e seus parentes se recusaram a assinar a documentação que atestava o recebimento do cadáver. Eles alegaram que não foi feita uma identificação oficial dos restos mortais. A urna foi então levada para uma sala reservada, para ser aberta a fim de que os familiares fizessem o reconhecimento do corpo. Marcelo Fernandes, de 33, irmão da vítima, conseguiu permissão para abrir o caixão e confirmou a identidade do morto.

PREMONIÇÃO


Também chamava a atenção a história contada por parentes de Nivaldo José Lourenço, de 33. Na semana passada, a pequena Raquel, de 6 anos, deu um beijo na face do pai e disse, com a inocência de criança, que ele iria morrer. A família quis acreditar que era apenas “coisa de menina”, mas na noite de sábado, viu a previsão ser confirmada. Nivaldo estava entre os mortos do acidente na BR-040.

“Fiquei preocupada com a viagem dele e, quando soube do acidente, meu coração só dizia que meu filho estava morto”, conta a mãe de Nivaldo, Maria das Graças Lourenço dos Santos, de 55. Ele tinha sido fichado na empresa para trabalhar apenas durante cinco dias e viajou acompanhado do cunhado, César Júnior Vigneron, de 30, um dos sobreviventes da tragédia.

Em estado de choque, César, com o rosto machucado, contou à família que na hora da batida, que partiu o ônibus ao meio, a tentativa dele era de ajudar os colegas, mas muitos já estavam mortos. “Estou alegre por meu marido ter sobrevivido, mas com uma dor imensa pela perda do meu irmão”, desabafa Sueli Lourenço, de 27.

Os mortos

Adriano Ferreira Lopes,
29 anos, mecânico de manutenção

Altair Bicalho, 45,
mecânico de manutenção

Carlos Ferreira dos Santos, 47, encarregado de manutenção

Cleudes Macedo Gomes, 27, mecânico de manutenção

Davi de Faria Mendes,
mecânico de manutenção

Edson Gomes da Silva, 28,
mecânico de manutenção

Gerson Batista de Souza, 51, mecânico de manutenção

Gilberto de Souza Gonçalves, 51, mecânico de manutenção

Isaías Vieira Silva

Ivanildo Vieira Gomes, 33,
mecânico de manutenção

Jadson Gonçalves Lage, 30, encarregado de mecânico

Joel Lucindo de Andrade, 53, encarregado de mecânico

José Maria Barreto, 34,
técnico de segurança
do trabalho

Nivaldo José Lourenço, 33,
mecânico de manutenção

Tadeu Fernandes Schubert, 20

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