
A expansão da frota no interior chama a atenção. Se nos 34 municípios da Região Metropolitana de BH o índice de crescimento foi de 125% nos últimos 10 anos, a situação nas demais regiões do estado é praticamente idêntica, com aumento de quase 124% no período, passando de 2,4 milhões de veículos em 2001 para 5,3 milhões em 2011, de acordo com os dados mais recentes do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), referentes a dezembro do ano passado.
Com tamanho volume de carros e motos nas ruas, sem o consequente aumento da capacidade de fiscalização e punição dos infratores, o terreno para o desrespeito à legislação e a ameaça à vida de pedestres, passageiros e motoristas, torna-se fértil. Em Governador Valadares, no Leste do estado, onde o EM passou uma manhã, as infrações de trânsito são um fato corriqueiro, sem a autuação dos responsáveis.
Nas ruas do município, onde circulam 98.820 carros, motos, caminhões, ônibus e outros veículos, motoristas e motociclistas estacionam em qualquer lugar, avançam o sinal e põem em risco as vidas de ciclistas e pedestres. Enquanto caminhava pela Rua Marechal Deodoro, a auxiliar de limpeza Acivone Rosa, 46 anos, se viu impedida de continuar seu trajeto graças a um caminhão bloqueando todo o passeio. “Em uma situação dessas tenho que ir para a rua, onde o risco de ser atropelada é grande. O maior problema é que não existe fiscalização aqui na cidade”, diz ela.
Várias ruas do Centro de Valadares têm estacionamento rotativo, em que é obrigatório o uso do talão. No quarteirão formado pelas ruas Bárbara Heliodora, Peçanha, Israel Pinheiro e Belo Horizonte, mais da metade dos carros estacionados não usava o talão. Durante as cerca de quatro horas que a reportagem percorreu as vias da região nenhuma autoridade de trânsito foi vista no local. Outro problema recorrente é a presença das motos, que são 37,4% da frota, nos estacionamento destinados aos carros. Em vários pontos há estacionamentos somente para motocicletas, mas todos ficam lotados. Resta aos motoqueiros parar em meio aos carros, desordenando essas áreas sem pagar o rotativo.
Segundo a 8ª Companhia de Meio Ambiente e Trânsito da Polícia Militar, cerca de 200 acidentes em média ocorrem por mês na área urbana de Valadares e 70% têm o envolvimento de motoqueiros. A fiscalização de trânsito é feita em conjunto com a prefeitura e seis policiais militares percorrem diariamente as ruas do Centro a pé. “Realmente o efetivo é baixo para o tamanho da demanda, mas a curto prazo não vamos conseguir mudar essa situação. Só com o aumento do efetivo, aliado à educação dos motoristas, teremos condições de diminuir os abusos”, diz o tenente Audner Ferreira Bento.
Segundo a prefeitura, 18 agentes trabalham no trânsito em Valadares, sendo que metade atua no Centro. O número vai aumentar, ainda segundo a prefeitura, por conta de um concurso público de 2010. De acordo com o diretor de Transporte e Trânsito de Valadares, Marco Rios, ano passado foram 24.983 multas aplicadas, principalmente por falta de talão do rotativo, uso de celular e avanço de semáforo. “Cerca de 50% da frota que circula em Governador Valadares, nos dias úteis, é proveniente de cidades vizinhas e muitos motoristas ainda insistem em não usar o talão por acharem que a exigência não se aplica aos seus veículos”, diz o diretor. Sobre o aumento da frota, a prefeitura garante estar trabalhando em projetos para melhor a circulação na cidade.
Mototaxistas
Com 152.910 veículos rodando nas ruas, entre os quais 66.127 carros de passeio e 64.173 motocicletas, Montes Claros, no Norte de Minas, enfrenta os mesmos problemas de trânsito que Governador Valadares, mas com um agravante: a atuação de cerca de 10 mil mototaxistas, segundo dados da Empresa Municipal de Planejamento, Gestão e Educação no Trânsito de Montes Claros (MC Trans). A atividade não é regulamentada pelo município e, agindo na informalidade, os mototaxistas não cumprem a legislação de trânsito. Embarcam e desembargam passageiros em qualquer lugar, não respeitam o limite de velocidade e a sinalização e contribuem para o aumento do número de acidentes. Também há pessoas inabilitadas prestando esse tipo de serviço, o que só agrava os riscos para quem circula pela cidade.
A MC Trans informa que vai regulamentar o serviço de mototaxi neste ano e que está sendo elaborado um anteprojeto, a ser encaminhado à Câmara de Vereadores do Município. A empresa diz que ainda não pode informar o número de mototaxistas que a cidade deverá ter quando o serviço vier a ser regulamentado, pois vai depender do projeto a ser aprovado pelos vereadores. Assegura que a regulamentação estabelecerá normas rígidas de segurança, como o uso de colete de identificação com o número da placa da moto e apresentação do atestado da inexistência de antecedentes criminais, além da carteira de habilitação.
Palavra de especialista
Osias Baptista Neto
Consultor em engenharia de transportes e trânsito
Faltam investimentos em trânsito
A expansão da frota no interior é uma tendência natural porque a facilidade de renda não é uma coisa típica apenas dos grandes centros e se espalha pelo estado. Os carros atuam como os gases. Onde há espaço livre, eles preenchem. O grande problema é que essa facilidade de adquirir um veículo não combina com investimentos no trânsito nas cidades do interior. Com raríssimas exceções, as prefeituras do interior nunca se preocuparam com o tráfego urbano. Quando param para analisar os problemas, já não há mais o que fazer. O mais correto é tomar medidas hoje pensando no futuro, principalmente adequando o uso do solo ao transporte. Nenhum lugar do mundo consegue aumentar o espaço disponível aos carros na mesma proporção em que a frota cresce. A densidade de ocupação das vias é cada vez maior. Então, é necessário operar o trânsito de uma maneira eficiente e que saiba administrar a diferença entre o volume e a capacidade. Porém, para que isso ocorra, a fiscalização não deve permitir nenhum desrespeito,
o que não acontece principalmente no interior.
